segunda-feira, 24 de maio de 2021

Fazer sem acreditar, o caminho deve sempre recomeçar

 

 

Neste período de distanciamento (ao menos para quem se sente responsável por si e pelos outros), algumas palavras chegam com mais potência e se reproduzem, e se espalham como marolas na beira de um lago, como agitação das folhas nos galhos sobre as árvores no desvario do vento, como ecos entre montanhas. Em incontáveis momentos qualquer um de nós pôde comprovar que a palavra é movimento, é força, é fonte de impulsos contra a estagnação e o desânimo. Infelizmente, há também quem a prostitua.

Em diferentes situações dos últimos anos, bem antes da pandemia, quando começaram a arrastar o país para o atraso e o negacionismo com a deposição da presidenta eleita democraticamente, meu coração  quis se desfazer e não mais pulsar como na poesia de Eugenio Montale em 1919. Mas, também, como na poesia: E sentes então, / mesmo se te repetem que podes / parar em meio do caminho ou em alto mar, / que não há pausa para nós, / mas estrada, ainda estrada, e que o caminho deve sempre recomeçar.*

Então volto a pensar que os infortúnios são companheiros na longa ou curta passagem pela vida de todos nós. Cada um tem sua própria medida de resistência diante deles, seu próprio tempo de elaboração. Os efeitos também são únicos como cada sujeito é único, porque não há uma vida sequer igual à outra. A vida é diferença e produz-se na diferença.

Lembro também do antídoto ao esmorecimento, a busca da similitude no outro, a dos amigos que vibram nas mesmas alegrias e sofrem as mesmas tristezas. O convívio com quem confiamos e podemos falar de nossos temores e angústias é suporte fundamental para pensar, repensar, construir alternativas, encontrar pontos de apoio como numa escalada que damos por impossível. De novo o poder da palavra, seja ela escrita, ou dita, ou sussurrada. Ela é ar puro que limpa nossos pulmões das desistências.

Os amigos que nos socorrem nem sempre são as pessoas que conhecemos e convivemos há mais ou menos tempo. Às vezes é o poeta cujos versos sorvemos com ânsia, como escrito acima. Outras vezes é um jornalista que está em linha de frente, onde nós não podemos estar, mesmo que tivéssemos vontade de estar. Muitas leituras tiveram a força de me impedir da desistência e fui agradecida por isso como se agradece a um amigo próximo. São todos amigos do mundo em defesa da vida.

Sei que continuam a existir outras e muitas narrativas que permitem não soçobrar. Felizmente. É imprescindível que assim seja. Agora, quero destacar um pequeno trecho de Eliane Brum, mulher e jornalista que admiro muito e, através dela, quero homenagear todos aqueles que continuam a usar sua palavra para que o país volte ao caminho da construção de uma sociedade mais igualitária: Talvez tenha chegado o momento de compreender que, diante de tal conjuntura, é preciso fazer o muito mais difícil: criar/lutar mesmo sem esperança. Teremos que enfrentar os conflitos mesmo quando sabemos que vamos perder. Ou lutar mesmo quando já está perdido. Fazer sem acreditar. Fazer como imperativo ético.** Isto foi escrito em 2015 e houve momentos em que hoje é mais necessário, se é que se pode afirmar um mais.

Muita coisa tem acontecido nos últimos meses. Sem querer iludir-me, talvez possamos escrever que o enfrentamento que se dá no país hoje fez alterar a correlação de forças e fez nascer uma tímida e frágil esperança. De qualquer forma, é preciso continuar a fazer mesmo sem acreditar, porque o caminho deve sempre recomeçar.

 

* E senti allora,

se pure ti ripetono che puoi

fermarti a mezza via o in alto mare,

che non c’è sosta per noi,

mas strada, ancora strada,

 

e che il cammino è sempre da ricominciare.

 

Trecho de A galla – Eugenio Montale in Poesie Scelte (poesia escrita em 1919)

 

** Eliane Brum em El País, dezembro de 2015 e citado por ela no livro Brasil Construtor de Ruínas em 2019

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Titubeio

 

E enquanto marchavas com a alma nos ombros

Viste um homem no fundo da vala

Que tinha o teu mesmo, idêntico, humor

Mas a farda de uma outra cor

 

Fabrizio De Andrè

(Letra completa ao final do texto)

 

            Esta música de De Andrè emociona-me toda vez que a ouço, como se fosse a primeira. É um lamento e uma homenagem ao soldado que tomba, símbolo dos milhões que foram sacrificados e continuarão a sê-lo em inaceitáveis e odiosas guerras.

            Faz-me pensar na morte em sua infinidade de manifestações, principalmente nos dias de hoje. O soldado titubeou, porque, mesmo na guerra viu outro homem como ele, embora a farda fosse do inimigo. Este instante, em que sua humanidade impediu-o de disparar, custou-lhe a vida. Mas ganhou não ver o olhar de um homem que morre por suas mãos. Não há titubeios nos que decidem as guerras e seus fornecedores de armas.

            A imagem de seu repouso sob a terra onde cresceram papoulas vermelhas faz pensar em gratidão da natureza. Não sei se esta foi a intenção do autor. Não importa. Importa os sentimentos que ela transmite. Sentimentos que não são de rancor ou de vingança porque o outro executou a ordem recebida. Sentimento de tristeza por uma jovem vida interrompida, tristeza de quem o esperava de volta, tristeza pela inutilidade daquela guerra. De qualquer guerra. Gratidão por não se render ao embrutecimento do ato de matar o outro, mesmo que lhe custe a própria vida.

            Hoje, impera um sentimento de banalização da vida. Há uma potência de morte tão generalizada no país – embora com núcleos de concentração em vários espaços do planeta –, que faz questionar as crenças sobre tudo o que se aprendeu até agora sobre o gênero humano.

            As imagens de mortes que poderiam ser evitadas são continuamente veiculadas contaminam e emporcalham o olhar. E o coração. Não há titubeio, não há dúvida, não há pesar, há apenas o desejo de morte por parte de quem nos governa.

Imagens e notícias em tempo real nos colocam a todo o momento numa realidade que se está tornando cada vez mais insuportável. Se é que existem graus de insuportabilidade. E, no entanto, acabamos apagando-as, mesmo que temporariamente para alguns. E continuamos a comer, a fazer exercícios na academia, a dormir, a acordar e a repetir a rotina diária. Afinal, para que nascemos e vivemos? Cuidamos dos nossos filhos e netos. Agradecemos poder fazê-lo. E os filhos e netos dos que não podem ser cuidados? E os filhos e netos que são assassinados nas periferias porque nasceram ali e não noutro lugar? A impotência diante desta realidade acaba gerando um isolamento dolorido, extenuante, autopunitivo, mas aceito para poder sobreviver. As mentes são exigidas a justificar as próprias escolhas, a buscar sentido para o que ocorre, a encontrar motivos para os fatos jogados na cara a todo o momento. Estas exigências comparecem nas doenças do corpo impotente para fazer outra coisa, seguir outro caminho, ser capaz de interferir, mudar os rumos. Um corpo impotente adoece.

            A impotência recebe um contínuo adubo no conhecimento das crueldades dos que governam nosso país, e dos que continuam a apoiá-los, cujo resultado são centenas de milhares de mortos durante a pandemia. Muitas delas evitáveis, se a equipe do (des)governo tivesse tomado medidas adequadas a tempo. E não o fizeram por opção, não por desconhecimento. São mortes que cobram um preço impagável enquanto sociedade composta por boa parte de apoiadores insanos, boa parte de indiferentes, boa parte de omissos e uma parte que se contrapõe, mas com algumas vozes que querem a primazia de seu modo de ver e combater a situação e não encontram uma forma de se unir. Juntas, seriam uma força poderosa.

            É uma pena que aqui exista o titubeio em reconhecer que o desejo de morte do outro é o real inimigo comum. Tomara que o egocentrismo murche e aqueles que veem e sofrem a dor do outro se unam o mais rápido possível. Não queremos campos de flores a nos lembrar mortes inúteis. Enquanto isso, repetiremos à exaustão. Basta de genocídio.

           

A Guerra De Piero – Fabrizio De Andrè

 

Dormes sepultado em um campo de trigo

Não é a rosa, não é a tulipa

Que te velam da sombra dos fossos

Mas são mil papoulas vermelhas

 

Ao longo das margens do meu rio

Quero que desçam os peixes prateados

E não mais os cadáveres dos soldados

Levados pelos braços da corrente

 

Assim dizias e era inverno

E como os outros, na direção do inferno

Tu vais triste como quem deve

E o vento te cospe, na face, a neve

 

Para Piero! Para agora!

Deixa que o vento passe um pouco por você

Dos mortos em batalha, te levas a voz

Quem deu a vida ganhou em troca uma cruz

 

Mas você não o ouviu e o tempo passava

Com as estações a passo de Java

Até que chegaste a atravessar a fronteira

Em um belo dia de primavera

 

E enquanto marchavas com a alma nos ombros

Viste um homem no fundo da vala

Que tinha o teu mesmo, idêntico, humor

Mas a farda de uma outra cor

 

Dispara-lhe Piero! Dispara-lhe agora!

E depois de atingi-lo, dispara-lhe novamente!

Até que tu não o vejas, exausto

Cair na terra a cobrir o seu próprio sangue

 

E se dispara-lhe na fronte ou no coração

Possuirá apenas o tempo para morrer

Mas restará, para mim, o tempo para ver

Ver os olhos de um homem que morre

 

E enquanto lhe dedica esta atenção

Aquele volta-se, te vê e tem medo

E abraçado à artilharia

Não te retribui a cortesia

 

Caíste por terra sem um só lamento

E te dás conta em um só momento

Que o tempo não te havia bastado

Para pedir perdão por cada pecado

 

Caíste por terra sem um só lamento

E te dás conta em um só momento

Que a tua vida terminava aquele dia

E não haveria retorno

 

Ninetta minha, morrer em Maio (na primavera)

Requer tanta, coragem demais

Ninetta bela, direto para o inferno

Haveria preferido partir no inverno

 

E enquanto o trigo te estava a ouvir

Com as mãos apertavas um fuzil

Dentro da boca apertavas palavras

Geladas de mais para derreterem-se ao Sol

 

Dormes sepultado em um campo de trigo

Não é a rosa, não é a tulipa

Que te velam da sombra dos fossos

Mas são mil papoulas vermelhas

 

 

 

sexta-feira, 26 de março de 2021

Chega de silêncios

 

O navio saiu de Gênova e fez algumas paradas antes do desembarque no porto de Santos onde meu pai estaria nos esperando. Ele havia emigrado meses antes.  Os passageiros costumavam aproveitar e descer para visitar o local onde o navio atracava. Não lembro de muita coisa destas paradas, mas, sim, da penúltima no Rio de Janeiro. Ouço minha mãe dizer algo como: “Cheguei até aqui com dois filhos (eu e meu irmão), não quero que me aconteça nada, não vou descer, tem muitos negros aqui.” Foi meu primeiro registro da existência destas pessoas diferentes de nós. E a relação com o medo. Nunca soube, nem nunca conversamos a respeito disto, do motivo ou motivos de seus temores.

Em Caxias do Sul há poucos meses, como fazia na pequena cidade de onde eu tinha vindo, saí para brincar na rua, então com muito pouco movimento. Eu, curiosa e ainda sem ter começado a ir para a escola, acostumada a brincar no pátio existente nos fundos da casa onde nasci, agora, andava nas vizinhanças pela calçada. Seguia os conselhos de minha mãe, ficava por perto, afinal, estávamos numa terra ainda estranha. Procurava alguma pedrinha ou folha, olhava as casas muito diversas das que eu conhecia, saltitava nos retângulos de pedra sem pisar nas linhas que as delimitavam – mais tarde aprenderia o jogo de bidra ou amarelinha –, vivia num mundo despreocupado. Era um tempo feliz. Num daqueles saltos, concentrada no cálculo para o próximo pulo, torci um pé ao tentar me equilibrar. Ao erguer os olhos, paralisei por uns instantes, depois girei sobre mim e voltei correndo para dentro de casa, ignorando a dor e gritando por minha mãe. Ofegante, consegui dizer que tinha visto um homem muito escuro, preto, os olhos grandes, vermelhos.

Esta cena me acompanha até hoje. Foi meu primeiro contato com um negro. Na Itália daquela época não havia negros, ao menos onde eu vivia. Não lembro o que minha mãe me disse, imagino que nada esclarecedor, mas esta lembrança sempre vem junto àquele fato ocorrido na viagem.

Em minha formação escolar e universitária, nada conservo de muito significativo com relação à questão racial. Especialmente na formação superior, muitos intelectuais foram banidos. E muitas obras também. Era a época da ditadura. Numa sociedade predominantemente branca com origens europeias, a superioridade sobre o povo negro era uma questão dada. Eu me sentia italiana no meio de uma sociedade de descendentes de italianos que se diziam também italianos. Nas décadas de 1950/1960 havia poucos sobrenomes na cidade que não fossem italianos. Tínhamos a influência cultural dos meios de comunicação, principalmente a televisão, com todos os seus estereótipos. Então, fui formando uma crença de superioridade não só sobre o povo negro, mais por omissão (pouco estudamos e os escravos negros e mesmo sobre os índios nativos da região) do que por afirmação. Os preconceitos foram sendo interiorizados silenciosamente. Foram se tornando uma questão muitos anos mais tarde, quando já professora em outra cidade.

Lembro que me surpreendi quando um colega chamou a atenção sobre nosso racismo em afirmações do tipo “negrinho educado”, “apesar de negro, ele é...” e várias outras opiniões que emitíamos cotidianamente sem questionar. Aos poucos, fomos encarando também os preconceitos a outras etnias, a grupos minoritários e com diferenças daquilo que aceitávamos como o “normal” e o “certo”. O caminho para a construção de novos conceitos, e da coerência entre o discurso e a prática, foi longo e continua a exigir minha atenção.

A lembrança desta parte de minha história vem num momento em que estão emergindo no país reações de intolerância e de ódio numa intensidade assustadora. Conceitos privados de qualquer embasamento racional nos suscitam incredulidade e assombro. Felizmente, são veiculadas inumeráveis análises e teorias, mas que chegam àqueles que têm olhos e ouvidos para pensar sobre os outros e sobre si mesmos. No entanto, grande parte da população reage imune ao discurso da ciência e da razão e mostra uma identidade amorfa, sem raízes com a sua terra e sem orgulho por sua história, facilmente cooptada por discursos ilusórios e modelos aberrantes.

Diferentemente da época em que cheguei aqui e da época em que me formei como professora no interior, os silêncios estão sendo preenchidos há muito tempo. Talvez, a balbúrdia de muitas vozes de hoje possa até confundir, mas é no confronto entre elas que deverá surgir outro mundo. E torço para que vençam aquelas que gritam por um mundo onde seja reconhecida a história dos indígenas que aqui existiam, e seu contínuo extermínio; a dos negros escravizados e depois abandonados na sua dita libertação. E que as outras vozes parem de se espelhar apenas nos europeus, recebidos por uma terra generosa e nem sempre respeitada. E, mais hodiernamente, parem de mimetizar os americanos no norte. Encarar a história da formação do país cujas belezas culturais e tudo o que conseguimos produzir são resultado da potência da miscigenação é o caminho contra a ignorância e o enfrentamento de privilégios.

No entanto, é preciso continuar, continuar, continuar a gritar tudo isso, porque no meio de tantas vozes há a tentativa cíclica de instaurar novos silêncios.

 

 

sábado, 6 de março de 2021

Guiado por um poeta


Desde muito longe no tempo, a leitura tem sido um refúgio para serenar-me, ou, ao menos, para ter um tempo de suspensão das inquietudes que me atormentavam. Ela continua a ser a companheira que não me deixa desesperar.

Li todos os gibis da época de minha infância. Não eram muitas as publicações, conhecia-as todas, ao menos aquelas que chegavam ao interior onde morava. As histórias dos personagens da Disney povoaram minha cabeça e alimentaram meu desejo de outros lugares. As aventuras de Fantasma, Roy Rogers, Rin tin tin, Mandrake, Rocky Lane, Superman, Tarzan e vários outros foram minha literatura constante. Claro, posteriores e paralelas às fábulas tradicionais. A minha preferida era a de Branca de Neve. Talvez tenha sido porque foi o primeiro filme colorido que assisti, ao qual se seguiu o primeiro álbum de figurinhas. Até hoje revejo mentalmente algumas cenas e, embora com um olhar atualizado e crítico, ainda gosto delas. Até meus netos sabem de minha preferência, e serviu sempre de cumplicidade entre nós. Três deles já estão crescidos, então, este vínculo é  lembrado mais com a neta de quatro anos. Seus olhos brilham quando conta qual história a avó mais gosta.

Depois, na adolescência, vieram os romances nas fotonovelas: Capricho, Noturno, Você. Vivi muitas histórias de amor naquelas esperadas revistas semanais e nos romances ditos cor de rosa. Eram os primeiros anos da televisão, ainda sem as telenovelas nacionais. Existiam as radionovelas no começo da noite, antes da janta.

            Agradeço à diversidade de leituras pelo gosto por permanecer horas a fio concentrada em milhares de palavras que me levaram a tantos e diversos mundos. Agradeço também às leituras desde criança, que foram um tempo preparatório para a descoberta dos clássicos. Assim, até hoje, viajo aos lugares mais distantes pela mão de muitos e maravilhosos escritores, apesar da pandemia. Ou melhor, apesar dela. Ou, ainda, também por causa dela.

            Reafirmo que foi pelos degraus dos primeiros textos simples, que fiquei presa à necessidade de ler e de escrever. Eles me viciaram no sabor de um livro ao me aventurar no meio de suas páginas. Aventura não significava apenas prazer e leveza, muitas vezes, os temas foram pesados e doloridos. De qualquer forma, o mundo foi me invadindo em sua complexidade e com as suas diferenças. Tenho certeza de que isso contribui substancialmente para que não me detenha diante de uma informação sem cotejá-la com outras informações, sem que o conhecimento adquirido ao longo da vida venha em auxílio para meu próprio juízo.

            É claro que o conhecimento não depende apenas da leitura da palavra. Existem as condições de vida e uma leitura de mundo que a precede. Elas se entrelaçam. Por isso, a angústia me chega toda vez que vejo disseminadas tantas idiotices, tantos rancores, tantas distorções e milhões de frases desconexas e preconceituosas nas redes sociais. Ininterruptamente. Elas mostram a inexistência de uma trajetória de busca de conhecimento acumulado pela humanidade que nos é dado pelos livros, pelo estudo, sejam eles em papel ou, hoje, num suporte virtual. Sejam eles científicos ou literários. Porque a leitura conduz necessariamente a trocas e à expansão do que somos. E, com esta expansão, teremos boas chances de separar o joio do trigo, de ter ferramentas para derrubar barreiras de preconceito e de injustiça.

            Então, se não houvesse fome no país, a cesta básica poderia incluir um livro. Se os fabricantes de armas passassem a produzir livros e se fosse obrigatória uma livraria junto a cada farmácia. Se à educação fosse reservado lugar fundamental de verdade, com bibliotecas cheias de livros. Teorias diversas, pontos de vista diversos, histórias diversas, temas diversos. Com certeza não estaríamos na situação atual.

Estamos na travessia de um inferno. Quem pode procure a companhia de um bom livro, enquanto une esperanças e esforços na luta para salvar o que não foi ainda destruído no país. Hoje, tornou-se mais urgente ainda salvar vidas.

Dante foi guiado pelo poeta Virgílio para chegar ao paraíso. Deixemos nos levar por tantos e maravilhosos escritores que podem nos ajudar a resistir.

 

 

 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Não dá para fechar

 

             

Vivo no mesmo endereço há quarenta e dois anos. O bairro passou por muitas mudanças, existe uma que pode passar despercebida para quem apenas passa por ele. Ou morou por pouco tempo. É o fechamento de pequenos negócios.

Lembro quando começaram a construir grandes centros comerciais. Alguns duvidavam que poderiam dar certo. O Iguatemi, por exemplo, foi construído em área afastada. Uma das perguntas de então: “Quem irá até lá para comprar alguma coisa?”. No entanto, novos hábitos foram sendo construídos pouco a pouco e a população foi redirecionada. Com novos atrativos, muitos pequenos negócios de calçada minguaram e foram obrigados a fechar. As aglomerações de lojas sob o mesmo teto prosperaram e continuam a prosperar. Um lento, irracional e inexorável fluxo para um comércio mais longe de casa. São chamados de grandes templos do consumo. Pode-se comprar e consumir de tudo naqueles nichos requintados de mercadorias, ao abrigo das intempéries e com segurança. Tudo brilha, tudo é limpo, os aromas das lojas de perfumaria e cosméticos envolvem quem transita pelos corredores ladeados de vitrines com mil tentações para quem pode e não pode comprar. Tudo aberto em horários estendidos, até à noite, até nos finais de semana.  Um convite sedutor que faz confundir desejo com utilidade. Lugar fértil para a impotência e a inveja de quem não tem dinheiro.

Eu gostava de passar pelo mercadinho na volta da academia. Havia sempre frutas da estação compradas de fornecedores próximos. Lembro também da padaria onde ofereciam um bufê de comidas para levar. Na volta de meu trabalho, passava por ali e levava para casa a refeição. Um alívio diante da impossibilidade de cozinhar todo dia para a família. Muito mais longe no tempo, lembro de uma loja de tecidos e de todo tipo de artigos para costura e bordados. Encontrava-se de tudo, não precisava ir ao centro, na matriz. E, uns cinquenta metros distante, uma bela e sortida loja de artigos para presente, encontrava-se algo de todo preço e tudo era muito bonito. Esta, não fechou, mas transferiu-se para um espaço menor e próximo, e nunca mais foi a mesma. Foi substituindo a mercadoria por uma miríade de quinquilharias vindas da China. A senhora mais velha e sua filha continuaram a atender até venderem o negócio para alguém de fora.

E o caso da loja de chás! Encontrava-se a espécie mais inusitada, oferecida com uma encantadora explicação de sua origem e de suas propriedades pela senhora dona do negócio. Em embalagens especiais, vendido em gramas, levava-se junto um aroma saboroso. Entrar ali era um encanto, era viver um ritual que nos envolvia em momentos de estar num outro mundo. Esta loja fez o movimento inverso, saiu de centro comercial para aquela loja de calçada. Mas não sobreviveu. O afã do mundo de hoje foi mais forte que os atrativos do ritmo e prazer que ela oferecia.

Os locais fechados reabrem com novos negócios, duram algum tempo e depois fecham de novo.

Há alguns anos, havia um dia da semana, penso que era terça-feira,  no qual uma fila se formava junto à sala na lateral da igreja e se estendia até a calçada. Era o dia do sopão para os sem teto, predominância de homens, alguns velhos, todos maltratados pelas ruas, sujos, roupas gastas, deixando um cheiro desagradável no entorno. A atividade era exercida por paroquianos voluntários. Algumas vozes se manifestavam contra aquele espetáculo no bairro de classe média alta. O pároco exercia suas funções há muitos anos e sua autoridade prevalecia, mas aposentou-se. Outro sacerdote ouviu os clamores dos que frequentavam a missa dominical. Fechou o espaço. Aqueles serem humanos desprezados devem ter encontrado outro local para saciar a fome um dia por semana. Ou não.   

Na mesma época, a algumas quadras daquela paróquia, a prefeitura tentou utilizar um pequeno sobrado como local de acolhimento de sem teto. Desta vez não havia nem o velho pároco a defender a ideia. A experiência durou poucas semanas. Mendigos não foram bem vindos. Enfeavam as ruas bem cuidadas e ladeadas de verde. O local fechou. As mesmas vozes vigilantes deram a sugestão de algum bairro  distante, afinal, não dava para misturar os problemas deles com as necessidades da região.

Então chegou o tempo da pandemia.

E chegou a vez dela. No outro dia, passei por ali e estava tudo escuro, mas os móveis estavam dentro. Pensei que abririam mais tarde, afinal, era fevereiro e o movimento é tradicionalmente mais escasso. A padaria tinha começado a funcionar cerca de um ano antes. Eu gostava dos seus pães, dos sonhos, do bolo de iogurte.

Antes, fechou a pequena livraria do bairro, fechou a pequena lavanderia, fechou a pequena loja de roupas, fechou a pequena farmácia (até a farmácia, lugar mais procurado hoje em dia), fechou a pequena loja, antigamente chamada de 1,99. Fechou. Fechou. Fechou. Palavra pesada, vestida de fracasso. Quando tantos pequenos negócios fecham, a questão do mérito ou demérito individual não se sustenta. A gravidade está na falta de reservas do pequeno empreendedor, da situação limite em que ele logo vai se encontrar, da dificuldade de sustento, da dificuldade de recuperação e de novas oportunidades. Aí entra o papel do Estado, que, atualmente, está encolhendo cada vez mais e deixa ao desabrigo os que mais necessitam que ele cumpra seu papel.

Há outro movimento mais trágico que ultrapassa o bairro e a maioria da população não toma conhecimento. Ele é provocado pelo Senado, pela Câmara de deputados, pelas Assembleias estaduais e municipais. Não freiam o “presidente” da República, nem os governadores aliados no lamaçal de promiscuidade em que jogaram o país. Estes que deveriam ser os representantes de toda a sociedade, estão acabando com direitos dos trabalhadores, das minorias, das verbas para a educação, para a cultura, para a saúde. Desmontam uma rede de proteção social construída ao longo dos anos e com muitas lutas. Defendem portas abertas para interesses de poucos. Continuam a fechar portas para quem mais precisa, mas toda a população sente de alguma forma. A ponta do iceberg são as crianças, as mulheres e os homens que voltaram para as sinaleiras, junto aos supermercados ou outros pontos onde imaginam conseguir algum auxílio.

Desta forma, longe dos olhos da maioria, o Estado está desobrigando-se cada vez mais de suas funções, com a cumplicidade de políticos a serviço de particulares e de grandes grupos econômicos.  Só porque o Estado é sempre necessário para que uns poucos continuem no poder é que ele não “fecha”.

O desafio para quem tem a visão do que está acontecendo é furar as barreiras da desinformação e da cooptação por falsos profetas. Uma disputa que continuará árdua e longa. Cabe a cada sujeito consciente da situação fazer o que pode, mesmo que se veja como uma formiga no meio da imundície.  A mídia alternativa é quem continua a manter as portas abertas para a resistência das instituições e quem dentro delas continua a lutar.

            Não dá para fechar os olhos, os ouvidos e a boca para a tragédia de nosso país.

 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Conversas no ar


Acabo de ler uma crônica de minha amiga escritora Maria Avelina Gastal. Consigo ler quase todas as que ela publica em seu sito. Elas me fazem conversar com o que escreve. Algumas me fazem chorar, outras me fazem pensar mais longe, outras me fazem rir – estas menos frequentes.

            Num dos textos, Avelina se propunha a ser mais leve, apesar de todo o tormento que vivemos no país. O interessante é que faz dias que penso nos meus últimos escritos publicados no blog. Eles são tristes, porque não consigo desapegar do que se vive. A dor do outro é também minha. Sou grata pela minha situação e isto me faz lembrar de quem está frágil e desprotegido.  Então, vi nas palavras de minha amiga um mesmo apelo. Não é qualquer apelo, é pensamento que cruza com meu pensamento e se identifica. É comunhão de expectativas que brotam do mesmo desejo de um mundo melhor, e chora, e se indigna, e denuncia com os mesmos motivos. Só a combinação de palavras que usamos é diversa.

            Foi justamente esta conexão que me fez resgatar uma ideia guardada há muito tempo. A ideia de rompimento. As grandes transformações históricas não ocorreram de repente. As suas raízes foram plantadas no período anterior e se fizeram vivas em pequenas e, depois, em grandes rachaduras nas diferentes narrativas. Foram acontecimentos que foram abalando aqui e ali, esparramando-se sobre os fundamentos dos conceitos e das crenças aceitos  pela sociedade. Os impérios caíram aos poucos. As artes estão cheias de rompimentos. Alguns exemplos me fascinaram e volto a eles sempre que a desesperança grita mais alto. Voltei-me para as artes.

            Foi numa viagem a Assisi há alguns anos, que ouvi pela primeira vez o que representou Giotto para a arte no século XIV. Ele pintou o corpo morto de Jesus de forma vertical, mas com as pernas dobradas que fazem sentir o seu peso e, com isso, tornou a imagem mais humana e popular. Introduziu o sentido do espaço, do volume e da cor. Até então, as representações eram retas e estáticas. Este pintor provocou a revolução nas artes que antecipou a época do humanismo e do Renascimento.

            Na história da música, há o exemplo de Paganini, nascido em 1782. Ele revolucionou a arte de tocar violino, instrumento cujas raízes são milenares, mas os primeiros instrumentos foram construídos entre o final do séc. XVI e meados do séc. XVII. Serviu de inspiração a Brahms e Rachmaninoff.

            Baudelaire, no século XIX, poeta que buscou uma nova maneira de fazer poesia nas imagens cotidianas, na realidade concreta. A sua maneira de encarar a arte tornou-o precursor dos poetas do final do séc. XIX. Seu livro de cem poemas As Flores do Mal foi inicialmente censurado e sofreu rejeição da sociedade.

            E.T.A. Hoffmann, também no final do século XIX, influenciou a literatura posterior a ele com sua produção fantástica. Misturando as fronteiras entre ficção e realidade, temas de fantasia e horror, reflexão filosófica. Sua originalidade sofreu críticas fortes, como costuma acontecer com o inusitado em qualquer tempo e sociedade, mas não deixou de ser um marco para mudanças na literatura.

            Neste mergulho sobre uns exemplos de erupções artísticas de outras épocas, busco algum alívio para poder me reabastecer de energia e continuar a resistir às notícias terríveis de abandono do governo de seus deveres com a saúde pública. E suas dramáticas consequências.

            Não dá para ser leve no momento, mas é possível pensar e desejar que haverá uma reação em algum lugar. Tanta coisa imprevisível aconteceu, só depois é que foram identificados os sinais de seu surgimento. Recuperar fios de esperança é fundamental. E também compartilhá-los com os outros. O peso do absurdo e da crueldade precisa ser aliviado e as artes são uma fonte inesgotável de ajuda. As artes são sempre testemunhas do seu tempo e campo de criatividade e contestação. Por isso mesmo, os artistas são atacados por governos autoritários como o que está atualmente acontecendo no país.

            Quero, no entanto, voltar a leveza da esperança nos rompimentos nas artes que a história nos oferece. A política tem suas próprias regras, mas vários sinais estão surgindo. Há muitas conversas no ar.

           

           

 

 

 

 

 

 

           


segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Raízes


 

Horrorizada com as mortes por falta de oxigênio em Manaus? Sim, sem dúvida. No entanto, é um horror duro, entorpecido, espinhento, porque sentido outras vezes. Repetido. Quantos horrores antes deste? É justamente por isso, não deveria acontecer mais nada para que ele voltasse a ser sentido.

            Acabo de ver a charge com o mapa do Brasil onde um joelho espreme Manaus e o pedaço de corpo que aparece com a faixa presidencial. Esta imagem é tão mais terrível, quanto mais lembramos os brasileiros que ainda louvam este joelho e tudo o que está junto com ele. Continuam no negacionismo da doença, do tratamento adequado, das medidas necessárias para enfrentar o contágio e, principalmente, dos governantes responsáveis por não implementarem medidas necessárias para proteger a população.

            Nossa história é cheia de horrores desde o início da colonização. Mesmo repassando o extermínio de índios e de negros, das guerras com nossos vizinhos, das torturas durante a ditadura, impossível não se escandalizar com a crueldade do atual governo em ignorar as necessidades dos hospitais de Manaus. Muitos mais ignoram ou negam tudo isso. Inconcebível.

O negacionismo é explicado de diferentes formas. É enorme a quantidade de textos publicados que nos mostram como ele tem raízes profundas, extensas e antigas na formação de nossa sociedade. Lendo apenas algumas, pode-se compreender quanta complexidade há na formação de subjetividades alienadas, egoístas e odiosas que continuam a aplaudir o que há de pior nesta terra. Somos um país tremendamente injusto não apenas economicamente, uns comem demais, outros morrem de fome próximos a supermercados abarrotados de gêneros alimentícios que vêm de tantas partes do mundo. Isto nós sabemos desde sempre. Somos um país tremendamente injusto no acesso à educação e à cultura. Também sabemos há muito tempo. O que acontece hoje de diferente é que nem tentamos mascarar a situação. O discurso da escola para todos não existe mais, universidade para os mais pobres não é necessária, só para quem pode pagar (declaração oficial), políticas públicas de incentivo à cultura aniquiladas,  até as manifestações culturais independentes são atacadas. Distribuição de renda uma idiotice. Continuam a se contrapor a estes horrores aqueles que clamam por uma sociedade mais justa onde a criação artística seja prioritária sobre o fabrico de armas. Onde um prato de comida pode fazer a diferença. E lutam bravamente na mídia alternativa, em organizações não governamentais, em sindicatos, em grupos independentes, no sistema político, em diferentes instâncias da sociedade. E a situação estaria muito pior se não existissem. Mas a luta é desigual.

            E o negacionismo sobre os processos em curso acerca do envolvimento do presidente e de seus três filhos políticos com as milícias do Rio de Janeiro? Este envolvimento estaria ocorrendo há muito tempo, durante os vários mandatos deste grupo. A raiz está ali. Está exposta. Por que eles se importariam com o que está ocorrendo em Manaus? E boa parte da população os elegeram e continua a apoiá-los apesar disso.

O crime instalado no poder é tão escandaloso quanto o são as mortes de Manaus. Ele mata todos os dias. É tão escandaloso quanto o são as mortes nas periferias das grandes cidades. Muitas delas poderiam ter sido evitadas desde sempre Mas estamos num país de banalização da morte e isto está insuportável.

Para enfrentar esta situação só a indignação. Só com ela poderemos fazer crescer mais e mais raízes para construir uma nova sociedade. Mesmo assim levará muito tempo. O fundamental é não nos deixarmos levar pelo desalento, embora humano e compreensível. Cada um de nós precisa encontrar a sua forma de dizer não à brutalidade que estamos testemunhando de mais longe ou mais perto. Mesmo no distanciamento que a pandemia exige. É preciso proteger as raízes que sustentam a indignação.

A palavra sempre será uma raiz de resistência, como nos diz Mia Couto. Que ela não nos falte.