segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Ontem, hoje

 

Isto eu escrevi ontem.

Este é um momento dos mais difíceis para ficar em casa sozinha. Mesmo estando ao início das votações, gostaria de compartilhar o efeito  de  votar na esperança. Conheci vários e muito bons candidatos a vereador, eu teria escolhido alguns deles. Minha opção este ano foi uma candidatura coletiva de uma mulher negra, batalhadora, forte e com ideias que compartilho. A soma de tudo isso me deixa agitada e com vontade de conversar ao vivo. Abraçar quem também está torcendo por uma cidade melhor.

            Espero com toda a força a concretização das previsões. Todos os que continuam resistindo de diferentes formas precisam de uma vitória. Penso que os ideais resgatados nesta campanha foram os que tornaram Porto Alegre mais alegre, mais justa, mais culta, mais humana, no sentido melhor desta palavra algumas legislaturas passadas. Depois se perderam com administrações contrárias ao desejo de um mundo melhor.

            Voltamos a ter esperança. Esta palavra colou em mim. Ela me faz feliz. Ela está espalhada em milhares de toques nas urnas eletrônicas.. Imagino que o mar é a soma de gotas. Também os rios, as nuvens, os lagos. Então, a esperança não é uma formação sólida, mas uma teia formada por pontos localizados nas mãos de tanta gente, que vão tocando as mesmas indicações das teclas em instantes diferentes ao longo do domingo. Imagino uma música que vai tocando devagar e se espalhando, saindo das salas de votação, alcançando os corações de quem sente os mesmos anseios, os mesmos temores, as mesmas tristezas e, agora, a mesma esperança. Uma música que deverá ser bem mais forte que os ruídos opositores que existem ainda.

Hoje, digo que a música não foi tão potente quanto eu desejava, mas ela ecoou em cantos dispersos, manifestaram-se vários sinais de recomeço, por isso continuo a apoiar a voz de quem não se cala. Voz que representa também quem não é ouvido. Orgulho-me de quem continua a lutar pela recuperação de uma cidade que foi alegre e culta, apesar de todos os obstáculos. Recuso-me a desistir.

 

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Através das cidades

 

Depois de muito tempo (estou perdida nele) sinto um fiozinho, ou uma pequena chama, ou um pequeno sussurro de esperança agitando-se no entorno. Ele está sendo suficiente para espantar, ao menos momentaneamente, as ondas de más notícias que continuam sendo lançadas a cada dia. A diferença está que elas não dominam o espaço como há algum tempo.

            É como se estivesse saindo do lodo onde fui jogada depois de ter sido enroscada em cipós. O mundo volta a ser sentido aos poucos, uma aragem, uma nesga de luz, um som. E isso tudo ocupando novamente o ar em volta, delineado com o movimento de um pincel mágico. Algo de muito bom está crescendo em diferentes lugares.

            Passei os últimos tempos gerenciando um turbamento produzido pela saturação da insensatez, da ignorância, do ódio, da negação da vida perto e longe de mim. Incapaz de encontrar um antídoto potente para restabelecer meu equilíbrio, alimentava-me de outras notícias com reações, às vezes vigorosas, mas esparsas. Grupos de gente guerreira: mulheres, gays, negros, trabalhadores, sem teto, professores, motoboys, motoristas de aplicativos, intelectuais, artistas, servidores públicos, aposentados dando voz e contraposição ao poder instituído e destruidor de direitos e da economia do país. Meu corpo recebia tudo isso e procurava se conectar. É como se estivesse recebendo o remédio certo, mas em doses muito pequenas para recuperar a saúde. Era necessária uma terapia maciça para destruir o vírus que estava acometendo o organismo combalido do país e eu dentro dele. Muitas vezes, a sensação era de que a sociedade ainda estivesse em fase de pesquisa para a medicação certa, não era apenas questão de dose.

            Hoje sinto como se todas aquelas reações espalhadas pelo território imenso que é esta terra começassem a frutificar e a se unir como a limalha aproximando-se de um ímã.

            Os deuses do mal continuam agitados e fazendo estragos. Mas, em países vizinhos, o ódio e a ignorância estão sendo derrubados em fortes batalhas.  E, mais ao norte, a facção insana está no escanteio. Na minha cidade, a vilania continua eriçada, mas o desejo de ter de volta políticas sociais e culturais que a fizeram conhecida no mundo todo está crescendo e se espraiando. Ventos cheios de palavras resgatam histórias perdidas onde outro mundo foi possível.

            Acredito que o corpo doído deste país está reagindo e todo o remédio inoculado aqui e ali está conseguindo entrar em circulação e poderá curar as feridas provocadas até agora. Ele está em UTI, evito pensar no tempo que será necessário, mas vejo trilhas abrindo-se através das cidades que poderão se empoderar de nova política. Porto Alegre merece recuperar sua história e fazer parte desta caminhada. Falta pouco.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Onde estão nossas façanhas?


 

Gratidão é o sentimento que me toma cada vez que vejo meus netos menores voltando à escola com todas as regras de proteção exigidas pelo ainda presente vírus. Um deles, em semana alternada. A outra, em horário reduzido. Estão em escolas particulares com todos os recursos necessários. Ambos também com atendimento on-line.

            Tristeza infinita é o que me toma a cada notícia que recebo sobre a situação da escola pública, a qual foi meu local de trabalho com orgulho por décadas.

            Num longínquo 1965, ingressei no Magistério Público Estadual, após concurso. Eu ficava feliz quando me perguntavam sobre o que fazia: Sou professora do Estado. Nesta resposta eu frisava Estado, porque eu sentia orgulho do lugar que ocupava. Nem todos passavam no concurso, eu me sentia empoderada pelo que havia conseguido. Sim, tinha orgulho. Era preciso ter conhecimento de seu campo de trabalho e titulação. A carga horária permitia fôlego e o salário razoável. Não poderia prever a longa e inexorável decadência que a situação sofreria. O orgulho de ter sido professora do Estado permanece, apesar das declarações de menosprezo que o governador (minúsculo) expressou pela categoria. Uma delas: O aposentado não melhora a educação.

            Os anos de trabalho em diferentes escolas estaduais, no interior e na capital, fizeram-me viver intensamente o cotidiano do ensino e da aprendizagem e as lutas que foram necessárias para defender a educação pública. Foram anos de experiências, projetos, disputas de narrativas e de ideias para que a sala de aula oferecesse o melhor para os alunos. No entanto, foram impostas reformas nas leis, atingindo os currículos e o regime de trabalho. A escola foi laboratório de ideias desastradas durante a ditadura e, a cada vez, foi se perdendo a identidade daquela escola pública respeitada e admirada. Algo foi recuperado depois, mas insuficiente. Ainda existem testemunhos nos prédios de algumas delas em numerosas cidades do estado. Como aluna e, no início, como professora, a escola do Estado era mais qualificada que a privada.

            A desqualificação da escola deu-se em três grandes linhas: currículo, recursos para manutenção e aprimoramento dos espaços físicos e salários de professores e funcionários. A história é longa, os currículos foram depauperados (começou em 1971) – depois, em parte reconstruídos com muitos esforços -, os recursos minguados lentamente e, com relação aos professores, destaco o ano de 1974 com a imposição do Plano de Carreira. Foi um brutal arrocho salarial, mas foi o que protegeu a categoria de novas investidas ao longo dos anos posteriores. Nem os governos da ditadura trataram com tal menosprezo a voz dos professores como está fazendo o atual.

            Eis que chegamos ao ano da pandemia. A escola pública é mais um exemplo de como o coronavírus atinge a todos, mas não da mesma forma. Os mais frágeis são mais atingidos e as desigualdades se acentuam. A escola pública em geral não tem os recursos físicos e humanos para poder atender adequadamente, e com os menores riscos possíveis, os seus alunos. Boa parte de seus alunos também não têm recursos adequados em casa para se proteger, nem para receber aulas on-line. Os professores com salários achatados que não lhes permite sequer sobreviver dignamente. E o governo do estado (minúsculo) faz de conta que esta realidade inexiste, embora tenha todos os dados necessários para saber. E sabe.

            Pouco antes de iniciar a pandemia, o governo do estado (minúsculo) massacrou o magistério que lutou com todas as forças de que dispunha para que não tivesse novas perdas. No, entanto, a dignidade das pessoas que lutaram na greve será sempre maior que a pequenez de um governador egocêntrico e cruel que recusa ouvir além do que ele e sua equipe determinam. Dignidade que não impede a tristeza, o desânimo, o estresse e as doenças decorrentes deste estado de coisas permanente.

Onde se perdeu o discurso de educação para todos como fundamental para o desenvolvimento do país? Onde se perdeu a história da escola pública de qualidade do Rio Grande do Sul? Quais são nossas façanhas, hoje, para que sirvam “de modelo a toda Terra”? A memória deste Estado está soterrada para quem está no poder hoje. O tempo se encarregará de julgar este período tenebroso para a educação.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Palavras de Nico


 

O ministro do Meio-Ambiente reunido em Fernando de Noronha com o Ministro do Turismo e empresários num restaurante. O que poderá ser? Diante do que tem acontecido no país, só podemos temer por mais medidas que permitam a destruição do que ainda existe de natureza preservada.

As outras notícias sobre a destruição da Amazônia, o Pantanal incendiado, o fim de direitos civis, um novo escândalo envolvendo integrantes do atual governo do país, decisões arbitrárias da justiça, arquivamento de processos que deveriam ir adiante, abertura de novos processos contra quem se opõe aos horrores que estão acontecendo, tudo isto é prato renovado todo o dia. Pior ainda, denúncias sobre os horrores praticados pelo sistema judiciário através da Lava Jato são feitas no país há mais de um ano e nada acontece contra quem os praticou. Mas é preciso continuar a denunciar. É preciso saber que a palavra contra as injustiças continue a ser dita.

            Tudo isso, enquanto continua ativa uma vertente das mais dolorosas do que acontece no país: a repressão a grupos de pessoas em situação das mais vulneráveis. Um destes grupos é dos que não conseguem ter uma moradia digna, não conseguem pagar um aluguel, não conseguem estar no conforto da proteção de um teto. São milhões em diferentes cidades. Só por escrever esta situação sinto-me num mundo irreal e impossível de aceitar. Mas existe e está mais ou menos próximo de qualquer um de nós. E sua palavra não é ouvida.

No outro dia, assisti um vídeo onde um candidato falava de sua primeira experiência ao morar numa ocupação junto a dezenas de famílias sem moradia. Uma manhã bem cedo, sem aviso, sem ordem de despejo, foram abalroados pelas “forças da ordem” do Estado. Falar em truculência é redundância. Quem ainda estava em casa conseguiu a duras penas salvar alguns pertences. Quem já tinha saído para o trabalho, perdeu tudo. Homens, mulheres, crianças e velhos tratados como lixo. Bombas, cassetetes, máquinas para destruir o que encontrasse pela frente, em poucos minutos o terreno foi desocupado e a propriedade particular preservada. Uma propriedade sem qualquer proveito há muitos anos e de um dono que devia cifras enormes em impostos. A palavra dele foi ouvida.

O fato narrado não é algo isolado, é coisa triste que faz parte de nossa história. O que pensar diante da indiferença de tantos? Diante da incapacidade de barrar crueldades contra pessoas? Diante do crescente sentimento de que caminhamos cada vez mais para um individualismo corrosivo, cada um cuidando do que é seu? Mil perguntas surgem sobre o que mais poderá acontecer. Poucas respostas sobre a capacidade da sociedade de reverter este caminho neste momento.

A constatação de “perderam o pudor” afirmada por Chico Buarque e “a verdade não interessa, é assustador” dito por Wagner Moura reforçam o que vemos acontecer ao nosso redor. Se dois artistas chegam a essas conclusões, eles que são capazes de produzir obras que ajudam a elevar nossa capacidade de compreender o mundo, sentimos ainda mais o peso da brutalidade exercida em nome do Estado.

Então, é mais necessário do que nunca resistir com a forma de que se é capaz. A palavra continua necessária e é através dela que muitos continuam a lutar, inclusive os dois maravilhosos artistas. Apesar de tudo, ou por causa de tudo o que está acontecendo.

Igualmente, vêm em nosso auxílio as palavras de Nico Nicolaiewsky com sua voz inesquecível: só cai quem voa.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Apenas curativos


 

            A ferida se abre cada vez que vejo um carroceiro nas ruas da cidade cheias de veículos. Não sei em que parte do corpo ela está, sei que dói. E a dor vem junto com imagens de escravos carregando pedras, puxando cordas, arrastando-se até o último suspiro. Nenhum sinal deles nas obras grandiosas que ergueram. Pirâmides, templos, palácios, aquedutos, estradas. Uma força extraída de músculos e sangue com a autoridade e indiferença que o poder outorga sobre o outro. Dói, porque passam por mim e tudo está em ordem. É assim mesmo no século XXI. A diferença está que estes não constroem obras, mas limpam a cidade do lixo que cada um de nós faz. Eles também desparecem. E nada.

Não lembro de ter visto o mesmo carroceiro duas vezes ao longo dos anos que presto atenção a eles. Cheguei a imaginar que eles não ficam muito tempo neste trabalho, que conseguem arrumar alguma coisa melhor para fazer. Mas sei ser meu desejo a falar. São substituídos por outros. Sempre há outros de sobra.

Hoje é diverso, dizem. O trabalhador pode escolher o serviço que quiser, se não gostar de uma coisa, pode fazer outra.  Alguns não o fazem por incompetência ou preguiça. O carroceiro é carroceiro, porque quer. Mas são livres. Livres. Ouvi esta afirmação muitas vezes no discurso cotidiano Vejo homens substituindo cavalos na tração de seus carrinhos ou carroças, porque era indigno o tratamento dado aos animais, diziam os defensores destes últimos. E eles foram livres para substituir o animal. É obsceno invocar a palavra liberdade.

Então, penso que a ferida que dói se chame impotência. Ela não se cura com a caridade. Precisa de algo muito maior. Solidariedade no olhar, alcançar-lhe um dinheiro pedido, denunciar sobre sua situação são todos apenas curativos.

Tenho visto novos carroceiros, ainda não muito sacrificados pelas ruas. É possível constatar pela pele ainda livre de estragos fundos e pelas roupas em condições decentes. E o olhar vivo à procura de material que lhe sirva, identificar o saco de lixo promissor, a distância necessária a percorrer, um ou outro gesto amigo, a indiferença, a hostilidade. É o olhar que mais nos dá a medida do tempo nas ruas, porque ele vai se encolhendo e perdendo o brilho, a experiência da busca torna-o raso. A rua vai lhe desenhando também as marcas do rosto e no corpo.  Nem precisava da notícia de que o número deles aumentou em 21% nos últimos meses. Homens mais jovens estão nesta cifra.

Um dia, um homem me pediu um trocado para comer. Alcanço algumas moedas sempre com vontade de sair correndo depois. Mas ele começou a falar da filha. E o olhar raso ficou profundo. Ela estava terminando o segundo grau, ele tinha conseguido ajudar, orgulhoso de si. Não consegui falar nada, a garganta fechada, feliz por ele, imaginando onde e como conseguira aquela façanha. Vieram-me perguntas e dúvidas sobre o futuro desta mocinha, senti vergonha de não compartilhar suas esperanças, por conhecer o mundo de um outro lugar. Desejei-lhe sorte.

Em outro momento, ouvi a pergunta: “Por que querem nos tirar das ruas, se ajudamos a limpar a cidade?” A resposta oficial seria uma estupidez e a verdadeira, uma agressão. Não conseguiria explicar em poucas palavras. Então resolvi dizer-lhe que ainda havia políticos que se interessavam por eles, estavam cuidando da lei. Eu havia assinado um abaixo-assinado a favor deles. Não seriam tirados das ruas.

Outro modo de produção e de consumo é a questão seminal. E carregar lixo seco pelas ruas deixaria de ser sequer uma questão. Como poderia falar-lhes sobre isto?

Enquanto a impotência continua a falar mais alto, resolvo ter algum dinheiro sempre à mão, quando saio à rua.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                               Em geral são homens que arrastam a carga. Às vezes, é acompanhado pela mulher. Às vezes tem criança junto. Nos últimos tempos, vi homens jovens, ainda não tão maltratados, nem no físico, nem nas roupas. Poderiam ser sujeitos indo para o trabalho qualquer. Não que puxar uma carroça para ir em busca de materiais recicláveis não seja um trabalho. Penso num emprego fixo, lugar certo, vínculos empregatícios, que requer uma aparência dentro de certas normas.

 

Para que serve viver uma vida assim? Será a espécie humana tão cruel a ponto de gerar crianças do mesmo modo, mas de modo tão diferente negar-lhes a sua plena realização?

O carroceiro odeia a morte? Na sua ignorância de mundo ou extremo conhecimento, porque mergulhado nele todos os segundo que vive, segue puxando o peso que o mantém vivo.

sábado, 12 de setembro de 2020

Cavalos marinhos

 

Sonhei com a visão do nascimento dos cavalos marinhos. Centenas deles,  poucos no início, depois uma erupção vulcânica sai da barriga do pai. O vivido atualmente ultrapassou o limite do suportável. O sonho deve ter sido eco de meu desejo de outro mundo. É belíssimo vê-los deslizar na água que os recebe prontos a viver no seu habitat, alguns por pouco tempo. Respiro devagar, não quero sair deste lugar de harmonia.  São os machos que gestam os óvulos da fêmea. Sabor de resgate, de salvação, está tudo certo, enfim, o mundo entrou nos eixos. Há outros motivos de encantamento diante da vida natural. Existem os dragões-barbudos, um tipo de pequeno lagarto que pode mudar de sexo quando exposto a altas temperaturas. Hoje, encontrado também como animal de estimação. E os peixes-palhaço (Nemo) com seu cuidado especial pelas fêmeas, acompanhadas por vários machos e, quando uma morre, um deles se transforma em fêmea.  Existem também os chocos, os labridae, os ariolimax, para citar alguns exemplos de animais com transformações na sua sexualidade.

A natureza cada vez mais distante para quem vive numa grande cidade como eu. Mais ainda, num apartamento e durante a pandemia. Felizmente, posso contemplar algum verde de minhas janelas. Sou agradecida por isto.

Natureza que oferece flores bissexuais, femininas e masculinas na cobertura da crosta terrestre grávida de enorme variedade de espécies. Muitas delas, queimando no inferno da devastação da Amazônia com o apoio do atual governo. Volto às plantas e lembro que ainda não chegou a estação da florescência do jacarandá. Por aqui, existe o jacarandá-roxo, responsável pelo lilás das calçadas todos os anos na primavera. Mas aprendi que em algum lugar crescem também: jacarandá-do-pará, jacarandá-amarelo, jacarandá-do-cerrado, jacarandá-paulista. Imagino-os espalhados pelas matas ainda não destruídas, mas também ameaçadas como quase tudo neste país.  Há também a acácia, o pinus, o ipê (há manchas rosa e amarelas ao redor de onde moro), a palmeira, a canela, para ficar com apenas algumas espécies.

E lembrei também das leguminosas, das verduras, dos grãos e das frutas.

Um mundo torturado pelo modo como os latifúndios passaram a explorar o campo. Monoculturas e agrotóxicos destruindo o equilíbrio existente na multiplicidade de plantas.

            Volto ao mundo dos humanos onde vivo e  a seu insano desprezo pela natureza. O mundo autofágico onde o presidente do país declara: homem é homem, mulher é mulher; bandido bom é bandido morto; o coronavírus é uma gripezinha. A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, decreta que menina usa rosa e menino usa azul; e a gravidez de uma menina estuprada não pode ser interrompida; ignora o feminicídio existente no país; acusa professores de ensinarem as crianças a “virarem” gays; e por aí vai a lista de horrores. O ministro do meio-ambiente compactua com a devastação da Amazônia, declarando que o momento da pandemia é o de passar a boiada (leis que liberam a continuidade do seu aniquilamento), onde os indígenas remanescentes ainda convivem em harmonia com a natureza e são dizimados em nome de grotescas mentiras. O ministro da Fazenda manda vender as estatais a troco de bananas. A educação, a ciência e a cultura são atacadas de engenhosas maneiras.

Uma guerra diuturna e sem pausas. Uma força voraz para dobrar, emparelhar, domar o que foi classificado como diferente daquilo que o governo do país alçou como verdade. As denúncias existem, e muitas, contra o projeto macabro de poder que continua a avançar. Um esforço enorme de muitas fontes. E vão se multiplicando, muitas vezes carregadas de esperança. Como uma parte dos filhotes dos cavalos marinhos, no entanto, muitas morrem. Ou são esquecidas, ou são escrachadas pelo aplauso dos que, apesar de tudo, apoiam a barbárie como se lhes tivessem instalado um chip no cérebro. Tudo isso, apesar da luta que uma minoria dentro da política continua a enfrentar e sem a qual tudo estaria muito pior. Luta de David contra Golias. Claro que participo da luta junto a David, mas como não cair no desânimo e na impotência, ainda mais em tempos de isolamento?

Um dia, ouvi alguém dizer que o pobre não sabe o que é melancolia, não tem tempo para isso, gasta seu tempo para sobreviver. É uma das razões pela qual sinto vergonha de me lamentar. Tenho minha sobrevivência e isolamento garantidos, o que é muito nos dias de hoje. Do meu isolamento, então, também procuro a palavra para denunciar os horrores que acontecem todo o dia. Mas, muitas vezes, ela se esconde, porque estou cheia de raiva e de incredulidade. Por isso, refugio-me na potência de vida da natureza simbolizada no nascimento dos cavalos marinhos. Mas são momentos de trégua, de reabastecimento de energia, é preciso continuar.

            Evito o imobilismo de diferentes formas, como muitos de meus amigos. Uma delas é ampliar relações cooperativas, privilegiando o pequeno e o próximo:  produtor rural,  loja,  livraria,  restaurante, que  se reinventam para vir até a nossa casa. É um movimento vital de se aproximar do outro. Um movimento para continuar pós-pandemia. Talvez, isto seja uma das formas de microrrevoluções apontadas por alguns autores. Talvez, isto liberte a palavra engasgada e, com ela, novas energias para seguir adiante. Talvez, isto ajude a subir a montanha como Sísifo, não importa quantas vezes fomos derrubados. Talvez, isto se conecte com a macropolítica. Talvez.

 

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Quadro impressionista

 

Logo que o cinamomo foi cortado, eu parava muitas vezes ao lado do toco que restou. Era como olhar para o lugar onde antes havia existido uma perna ou um braço. Li que alguém, que tenha perdido um pedaço de si mesmo, continua a senti-lo e olha o vazio que ficou no conjunto de seu corpo, até se acostumar.

Eu me senti derrotada quando o laudo feito por profissional particular foi aceito pela prefeitura para cortar a árvore. A sombra na calçada não era espessa, mas aliviava o calor dos prolongados verões da cidade. E a buganvília próxima havia se entrelaçado até nos galhos mais altos numa composição que poderia servir de imagem a um pintor impressionista. Em diversos momentos do dia, daria um belo quadro. Eu enxerguei vários.

Lembro que uns poucos galhos bem no alto estavam secando, mas não lhe davam o aspecto de doente. Poder-se-ia podá-la, dizia-se. Eu compartilhava desta visão, talvez estivesse comprometida pelo desejo de conservá-la junto às primeiras lembranças daquele lugar. Quando nos mudamos para o edifício, ela era pouco mais que um arbusto formado por dois finos troncos que subiam de uma mesma base. Com o tempo eles se juntaram e formaram um único e vigoroso. Olhando aquela árvore adulta, poder-se-ia dizer que tinha um tronco deformado. No que restava dela, no entanto, viam-se dois conjuntos de círculos colados, um avançado sobre o outro. Foram crescendo assim, como duas árvores siamesas. Um belo espécime.

Mas a árvore também incomodava. Os cachos de frutos que deixava cair, como era de sua natureza, sujavam a calçada. Foi o argumento não declarado de alguns moradores ao sentenciá-la doente e perigosa. Logo lembrei do mecanismo que usam para derrubar alguma liderança. Destacam alguma coisa “errada” feita por quem querem eliminar – muitas vezes fake new – e acabam com o sujeito. A história está cheia de exemplos.

Um dia, resolvi fotografar o toco que não conseguiram exterminar. Lamentei não tê-lo feito antes, quando se podia ver nele a saúde da árvore abatida. Círculos bem definidos no plano bege deixado pela serra. Nenhuma intrusão de parasitas. Depois de cortada, o tempo fez, e continua fazendo, seu trabalho. Uma parte, a do tronco menor, mostra-se preta com seus anéis roídos pela umidade e transformados em espaços circulares onde a água já entra com facilidade. A outra circunferência sobrevive melhor às intempéries, conserva a cor clara com algumas nuances em verde mofo. Resiste teimosa.

Durante algum tempo, esperei que o cinamomo mostrasse uma interna e invisível rebeldia através do surgimento de algum ramo, como eu havia visto com outras árvores em outros lugares. Mas não aconteceu. Agora, o traçado dos círculos serve de testemunho, mas como documento comprometido. Cada círculo presenciou a vida que se movimentou pelo edifício. A chegada dos primeiros moradores, a mudança de outros, crianças de nasceram, alguns velhos que morreram, convidados para alguma festa em família, visitas, andanças de tanta gente. O círculo externo, presenciou uma história de cerca quarenta anos. Cada círculo interno acompanhou a história deste espaço um pouco menos, mas sempre testemunho junto aos outros que foram se formando. Uma espécie de diário ignorado em frente ao prédio. Agora a marca de cada ano vivido está  sendo borrada aos poucos.

Quantas perguntas o cinamomo, e a falta dele, pode fazer brotar como galhos invisíveis. No entanto, só quem ainda presta atenção no que ficou dele é capaz de atiçar memórias. É assim no viver cotidiano. O cinamomo é meu braço cortado, cuja falta persiste e me traz mil imagens de desperdícios, de injustiças, de paradoxos.

Que bobagem, apenas uma árvore cortada, poderiam dizer. Vejo, no entanto, a metáfora do descompromisso das ações humanas na capilaridade da rede social. Vivemos um tempo no qual cada um invoca e faz valer sua opinião com o respaldado de artifícios institucionais.

Imaginei as tantas vozes silenciadas com o auxílio da lei para salvaguardar interesses particulares. Uma vontade, uma mentira, ou mesmo, um pedacinho de verdade transformado em verdade absoluta, e o poder arbitrário abre passagem.

A eliminação de um cinamomo sadio na rua de uma grande cidade afrontou uma nesga do mundo vivido hoje.  E o espaço vazio privou-me do quadro impressionista, cuja beleza enfeitava meus dias e ajudava a seguir adiante.