Tomo
café enquanto vejo as notícias que seleciono no youtube. É sábado, e não tenho
compromissos, uma boa manhã para escrever, fui dormir pensando nisso.
Tempo
de rever o passado, fazer um balanço, ser grata à caminhada que me trouxe até
aqui. Grata pelos filhos e netos. Tempo de desacelerar, de espera.
Primeira
notícia que aparece no meu celular “os EUA atacam o Irã”.
Perdi
as esperanças cultivadas ao longo da vida, mas ando procurando-as com teimosia,
com obsessão, em toda forma de resistência que existe para que o mundo não se
autodestrua. E as notícias que me chegam são um choque.
Antes
de dormir eu havia escutado uma linda entrevista de Ermal Meta sobre a música Stella
Stellina em Sanremo. Escutei-a não só com os ouvidos, mas principalmente
para o coração. O cantor disse que era uma música distópica, porque convida a
mover o corpo, mas a letra fala do horror do assassinato das crianças em Gaza.
Dançar sobre a tragédia seria impossível. Ele tinha optado por usar sua arte
para falar do que tinha que ser falado. Suas palavras foram uma carícia.
Este
ano eu decidi não assistir Sanremo como fiz nos últimos anos. Cansei-me das
futilidades, da censura imposta aos discursos políticos, ao cinismo que o atual
governo italiano impõe à RAI, que é instrumento do estado e transmite o
festival. Desde o início deste governo, diferentes profissionais foram
demitidos, programas foram reestruturados e censura foi imposta a qualquer
discurso de esquerda. O jornalismo foi o mais decepado. Sanremo não poderia
escapar a esta poda.
Eis
que escuto Stella Stellina no youtube. E a entrevista com o autor.
Ajudou-me a encontrar o sono e dormir razoavelmente bem. Ele furou o bloqueio
com sua arte.
Mas
a manhã não me poupou. Como viver o cotidiano, sabendo que os EUA estão
lançando bombas sobre mais um país? Não basta o que está acontecendo na região,
para falar somente numa parte do mundo? Genocídio na Palestina, começado há
setenta anos. Líbano, Iraque, Cisjordânia, Síria. EUA e Israel lançando o
horror ao redor no Oriente Médio, e o mundo cúmplice, não apenas indiferente. A
parte do mundo horrorizada está impotente.
Nunca
imaginei ser testemunha de um tempo tão terrível. No século passado demonizaram
a URSS, mas boa parte da humanidade tinha esperança de um mundo melhor, restava-nos
a promessa do bem viver ocidental. Vivemos na obscuridade, a União Soviética
foi uma barreira ao imperialismo americano, apesar de seus fracassos internos.
Os EUA nos venderam a ilusão de um bem estar que nunca chegou para a maioria do
ocidente, mas nos ofereceram guerras intermináveis.
Segunda-feira.
A guerra que EUA e Israel começaram contra o Irã recrudesceu. Aqueles países sempre
usaram a morte para continuar a existir.
Leio
as notícias rapidamente, porque meu coração disparou. Passo para a entrevista do
filósofo Franco Berardi, nem ele me poupa, fala sobre a juventude que desistiu
e vive a solidão: “Agora, a verdadeira novidade é que a nova geração está
consciente do fato de que o genocídio é a regra do mundo em que vivemos hoje”.
Diante de todas as guerras que estão em
curso e da cooptação da mente da geração que nasceu no mundo digital e não
conhece outra forma de ser, Berardi não vê possibilidade de esperança para a
humanidade: “E o que compreendo é isto: a espécie humana não sobreviverá a
este século. Temos de criar as condições para a alegria e a solidariedade
durante a agonia.”
Apesar
de tudo, volto a Stella, Stellina e as todas as vozes que dizem ao mundo
que ainda há tempo.
Tua crônica soa como as palavras de muitos pensadores atuais: um epitáfio. Com minhas muitas décadas de vida, apreni que a esquerda é sempre perseguida porque a humanidade, em maioria, é perveesa, astuta e gananciosa. Nós, abrigadas no lado humanitário da vida, e com a idade que temos precisamos resistir para, ao menos, dar ao que nos cercam, familia e afetos, umaa gotas de esperança e alegria, ainda que com o coração apertado. Brava
ResponderExcluircrōnica, Rosa. Sigamos, somos parceiras sobreviventes deste amontiado do horror. Stella Stella Stellina ainda pode salvar alguma coisa.
Ana Maria
Que horror, né, amiga? Estou seguramente no grupo dos que assistem, horrorizados e impotentes, às cenas finais dessa "história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada." Também nunca imaginei testemunhar tempos tão terríveis e assistir a tamanha insensibilidade diante da crueldade do primata humano e, pior, da conivência com o poder doentio dos bullies. Desanimada e sem nenhuma esperança, só espero não viver para assistir o que nossa espécie terá que passar antes do seu próprio (e autoprovocado) fim. Mas enquanto estou por aqui, festejo e prezo com carinho as sinceras amizades e os amores gratuitos, esses que nos confortam e apoiam por puro afeto. Gostei de voltar a este contato com você. Estou totalmente fora da rede social, de modo que só pelo WhatsApp (ou e-mail) recebo e compartilho mensagens. Abraços, amiga.
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