quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Tempo de recordar


O mês de janeiro colocou-me muito perto da morte.

Não ouvirei mais a voz de uma amiga de mais de quarenta anos e da prima com quem mais convivi na infância.  Estas perdas vêm somar-se a outras anteriores, mesmo que com sentimentos de outra cor e intensidade, a de figuras importantes da cenografia nacional, mulheres e homens das artes, do jornalismo e das ciências. Um a um estão indo, como pedras de um jogo de damas. Permanece o tabuleiro e outras disputas.

T. era sincera, amiga fiel, tomava partido de quem gostava, a neutralidade não lhe era próxima, suas falas eram afirmações, tinha certeza do que dizia, não discutia, podia-se ouvir seus pensamentos além de suas palavras, ela sempre foi transparente, mesmo ao esconder suas dores.

E. era a prima que reencontrei quarenta e sete anos depois de emigrar para o Brasil. Eu a achava delicada quando ainda éramos meninas, achava-a mais bonita do que eu nas fotos que trocávamos, quando já distantes. Ao retornar pela primeira vez à pequena cidade natal, muito elegante, e continuava mais bonita.

T. separou-se há cerca de 30 anos.

E. reencontrei-a já separada, quando retornei à Itália depois de quase cinquenta anos.

Nenhuma de nós três voltou a casar-se.

Expusemos o motivo de nossa separação, ele se encaixou como peça única de um quebra-cabeça, nossos maridos resolveram iniciar nova relação. Nenhum drama, nenhum segredo horrível, apenas a repetição conhecida no cotidiano ao redor. Merecíamos uma história marcante, não um clichê, é o pensamento que me ocorre.

Todas atingimos os oitenta anos.

Conheci T. através do marido que foi meu professor na Faculdade, quando nos mudamos do interior para P. Alegre. Foram padrinhos de um dos meus filhos. Eu admirava a inteligência dele, e contava sem reservas com a amizade dela. Ela me ajudou a cuidar do afilhado, quando precisei atender minha mãe que estava morrendo. Conheci seus temores e dificuldades dos primeiros anos da ditadura de 1964, quando foi atingida diretamente.

Eu e E. passávamos tempos uma na casa da outra, ela vivia numa cidade maior que meu pequeno comune. Foi numa das visitas a ela que vimos Branca de Neve e os Sete Anões (sem intervalos, como achava que eram os cortes nas projeções do pequeno cinema ao lado de minha casa). Fiquei fascinada pelo filme colorido, em 1948 ou 1949. Meu pai era irmão da mãe dela, uma costureira que imagino fosse habilidosa ao lembrar o vestido de primeira comunhão, confeccionado por ela, lindo, me foi emprestado, era na época pós-guerra.

            Houve um tempo em que planejamos, T. e eu, viajarmos para a Itália. Se tivesse acontecido, T. teria conhecido E. Elas não se conheceram, mas não impediu de sermos três mulheres que viveram oito décadas de história com a aceleração das mudanças difíceis de acompanhar e compreender nos últimos tempos. Vivemos proximidades afetivas, sociais e intelectuais, em países diversos. A distância física não nos separou de uma mesma visão de mundo e do mesmo desejo de uma sociedade justa e solidária, o que marcou escolhas políticas de mesma direção, aqui e lá.

            Fomos muito próximas, mesmo distantes.

            Enquanto registro um arco de lembranças, recupero o pensamento de Fernanda Montenegro quando afirmou que o difícil da velhice era ir perdendo os amigos. Ao escrever, faço-as permanecer comigo mais um pouco, enquanto vou incorporando a sua falta no tempo que me cabe.

2 comentários:

  1. QUERIDA ROSINHA, COMPREENDO....DOI....FAÇA EXATAMENTE ISSO!!!! ESCREVA!! NÃO PARE!! IGUALMENTE A TI, ME REVISTO DAS AUSÊNCIAS...ESCREVENDO E PUBLICANDO......NA ESPERANÇA...DE QUE UM DIA TODOS NOS REENCONTRAREMOS!!!!!TENHO DE VEZ ENQUANDO ALENTOS!!! AO ADORMECER.....SONHO COM OS QUE FORAM ANTES DE NÓS!!! LEVANTE A CABEÇA!! TEMOS MUITO O FAZER NESTA TERRA!!!! NA LUTA!!!!ABRAÇO 🤗 APERTADO! MÁRCIA

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  2. Querida Mirosa, passados tantos meses afinal consegui ler teu texto... com emoção, recordei o tanto de admiração e carinho de minha Rainha por esta Amiga tão presente e gentil, e o quanto tua presença na vida dela fez diferença até o final... Ah, e qto amor ela tinha por seu Afilhado! Obrigada por a manter um pouco mais aqui conosco nesse texto tão delicado e cheio de camadas além das evidentes! Com amor, T. e Vanesca.

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