O mês de janeiro
colocou-me muito perto da morte.
Não ouvirei mais a
voz de uma amiga de mais de quarenta anos e da prima com quem mais convivi na
infância. Estas perdas vêm somar-se a
outras anteriores, mesmo que com sentimentos de outra cor e intensidade, a de
figuras importantes da cenografia nacional, mulheres e homens das artes, do
jornalismo e das ciências. Um a um estão indo, como pedras de um jogo de damas.
Permanece o tabuleiro e outras disputas.
T. era sincera,
amiga fiel, tomava partido de quem gostava, a neutralidade não lhe era próxima,
suas falas eram afirmações, tinha certeza do que dizia, não discutia, podia-se
ouvir seus pensamentos além de suas palavras, ela sempre foi transparente,
mesmo ao esconder suas dores.
E. era a prima que
reencontrei quarenta e sete anos depois de emigrar para o Brasil. Eu a achava
delicada quando ainda éramos meninas, achava-a mais bonita do que eu nas fotos
que trocávamos, quando já distantes. Ao retornar pela primeira vez à pequena
cidade natal, muito elegante, e continuava mais bonita.
T. separou-se há
cerca de 30 anos.
E. reencontrei-a
já separada, quando retornei à Itália depois de quase cinquenta anos.
Nenhuma de nós
três voltou a casar-se.
Expusemos o motivo
de nossa separação, ele se encaixou como peça única de um quebra-cabeça, nossos
maridos resolveram iniciar nova relação. Nenhum drama, nenhum segredo horrível,
apenas a repetição conhecida no cotidiano ao redor. Merecíamos uma história marcante,
não um clichê, é o pensamento que me ocorre.
Todas atingimos os
oitenta anos.
Conheci T. através
do marido que foi meu professor na Faculdade, quando nos mudamos do interior
para P. Alegre. Foram padrinhos de um dos meus filhos. Eu admirava a inteligência
dele, e contava sem reservas com a amizade dela. Ela me ajudou a cuidar do
afilhado, quando precisei atender minha mãe que estava morrendo. Conheci seus
temores e dificuldades dos primeiros anos da ditadura de 1964, quando foi
atingida diretamente.
Eu e E. passávamos
tempos uma na casa da outra, ela vivia numa cidade maior que meu pequeno comune.
Foi numa das visitas a ela que vimos Branca de Neve e os Sete Anões (sem
intervalos, como achava que eram os cortes nas projeções do pequeno cinema ao
lado de minha casa). Fiquei fascinada pelo filme colorido, em 1948 ou 1949. Meu
pai era irmão da mãe dela, uma costureira que imagino fosse habilidosa ao
lembrar o vestido de primeira comunhão, confeccionado por ela, lindo, me foi
emprestado, era na época pós-guerra.
Houve
um tempo em que planejamos, T. e eu, viajarmos para a Itália. Se tivesse
acontecido, T. teria conhecido E. Elas não se conheceram, mas não impediu de
sermos três mulheres que viveram oito décadas de história com a aceleração das
mudanças difíceis de acompanhar e compreender nos últimos tempos. Vivemos
proximidades afetivas, sociais e intelectuais, em países diversos. A distância
física não nos separou de uma mesma visão de mundo e do mesmo desejo de uma
sociedade justa e solidária, o que marcou escolhas políticas de mesma direção,
aqui e lá.
Fomos
muito próximas, mesmo distantes.
Enquanto
registro um arco de lembranças, recupero o pensamento de Fernanda Montenegro
quando afirmou que o difícil da velhice era ir perdendo os amigos. Ao escrever,
faço-as permanecer comigo mais um pouco, enquanto vou incorporando a sua falta
no tempo que me cabe.
QUERIDA ROSINHA, COMPREENDO....DOI....FAÇA EXATAMENTE ISSO!!!! ESCREVA!! NÃO PARE!! IGUALMENTE A TI, ME REVISTO DAS AUSÊNCIAS...ESCREVENDO E PUBLICANDO......NA ESPERANÇA...DE QUE UM DIA TODOS NOS REENCONTRAREMOS!!!!!TENHO DE VEZ ENQUANDO ALENTOS!!! AO ADORMECER.....SONHO COM OS QUE FORAM ANTES DE NÓS!!! LEVANTE A CABEÇA!! TEMOS MUITO O FAZER NESTA TERRA!!!! NA LUTA!!!!ABRAÇO 🤗 APERTADO! MÁRCIA
ResponderExcluirQuerida Mirosa, passados tantos meses afinal consegui ler teu texto... com emoção, recordei o tanto de admiração e carinho de minha Rainha por esta Amiga tão presente e gentil, e o quanto tua presença na vida dela fez diferença até o final... Ah, e qto amor ela tinha por seu Afilhado! Obrigada por a manter um pouco mais aqui conosco nesse texto tão delicado e cheio de camadas além das evidentes! Com amor, T. e Vanesca.
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