segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Do vermelho ao verde


Meu quase sonho foi colorido na noite que passou. Sabia estar deitada sobre meu braço esquerdo como sempre, mas só meu corpo estava lá. Bolas vermelhas pulavam sem parar em meio a outras cores que apareciam e despareciam em redemoinhos ao redor e centro de meu corpo. Aquele movimento embalava-me, dava-me prazer. Muito prazer. Falava-me alguma coisa, e eu prometia lembrar o que estava vendo e sentindo para que pudesse escrever quando acordasse. Não sei quanto durou aquele estado. Eu tinha certeza de que desta vez eu conseguiria lembrar, tal era a sensação de domínio sobre o que estava vendo e sentindo. Acordada, não soube se fora sonho, ou imaginação, naquele limiar entre dormir e acordar. Um falso domínio. Certo é lembrar-me das bolas vermelhas e que elas queriam me dizer alguma coisa. Certo é que ainda tinha resquícios daquela tremura poderosa e inominável no meu peito e na minha barriga, e a certeza da policromia que se perdeu, com o convite para lembrar e decifrar sua mensagem. Não sabia por onde começar. Ainda mais num tempo de muitos sobressaltos com os acontecimentos políticos no país. Pensei em buscar informações sobre cores e seus significados, mas temi distanciar-me daqueles momentos, certamente ligados a meu inconsciente. Estaria negando os horrores que vejo todo o dia e produzindo um mundo paralelo para sobreviver? Concentrei-me no pedaço de lembrança. Bolas vermelhas. Vermelho, é um símbolo com o qual me sinto ligada hoje em dia, principalmente político, esquerda, luta de classes, guerras, resistências, empatia pelos marginalizados, luta pela vida. Não traz prazer, antes, um desafio, um apelo a agir.  Nem sempre foi assim, raramente vesti uma camiseta vermelha, certamente nenhum vestido, nenhuma saia. Nunca me perguntei os motivos, mesmo sabendo que o vermelho dava cor ao meu rosto, como me diziam. Lembro da combinação do roxo com o cinza claro, tive um conjunto de saia e casaco na minha juventude, chamava-se tailleur, hoje não ouço mais esta palavra, hoje fala-se conjunto, ou uma denominação mais atual, e o comprimento da saia justa não mais cobria o joelho, a nova moda merecia fofocas, críticas – o joelho era uma parte menos bonita do corpo feminino – e aplausos pela liberação da mulher, conceito possível naquela época, sem antever as microssaias atuais. O verde também, em outro tailleur. Aquelas roupas me deixavam elegante. É isto, relaciono essas cores com elegância e com um futuro e sonhos a se realizarem. Hoje eu não tenho qualquer peça roxa. Mas possuo sempre roupas verdes com tonalidades diversas. Lamento o confisco que parte da sociedade fez da associação verde/amarelo. Além das roupas, o verde me é fundamental, ligado à Amazônia, à Mata Atlântica, às araucárias, às árvores decepadas na cidade nos últimos tempos, todas ameaçadas, necessidade de preservá-las, cobertura de vegetação a risco nos cinco continentes e próximo a um ponto de não retorno. Sinto necessidade de uma caminhada em meio ao frescor e cheiro de mato. Fico perguntando se meus netos terão esta experiência no futuro. Amo o rosa do ipê roxo – sei que não havia rosa no sonho –, ele se destaca no meio das matas, vejo um exemplar da minha área de serviço e temo por ele, a cada ano está com sua copa reduzida, deve ser pelo confinamento entre três edifícios, livre apenas em frente à calçada, o que me permite vê-lo. Antes havia somente pequenos sobrados naquela rua. Gosto das flores vermelhas do flamboyant em dezembro, no pátio do edifício no lado sul do meu, no meio das folhas que lhe servem de moldura verde, uma copa exuberante que vem diminuindo depois de contínuas podas radicais. Amo a pitangueira que se cobre de pequenas flores brancas e deixa a calçada atapetada quando elas caem, faz-me sentir num jardim mesmo numa rua completamente tomada por edifícios. Encanta-me olhar a buganvília que se curva com elegância sobre a grade na frente do nosso edifício, oferecendo suas flores fúcsia. Branco e fúcsia serão cores desaparecidas do meu sonho?

Em todo esse passeio por onde o olhar alcança de minhas janelas, é o verde com suas incontáveis tonalidades e brilhos que se oferece todo o dia. Não há qualquer vermelho. Alguns juncos ainda sobraram no fundo da casa lindeira, junto a um abacateiro e a uma alta e frondosa árvore, cujo nome desconheço, amaldiçoada por alguns moradores, porque foi pouso de morcegos robustos vindos de outras paragens depois da última enchente. Pequenos  aparelhos com emissão de som insuportável àqueles seres voláteis foram colocados no muro, eles sumiram e a árvore foi salva.

Junto aos outros terrenos vizinhos ainda sobram espécies variadas que receberam a companhia de palmeiras ornamentais do novo edifício, uma moda dos últimos tempos na cidade. A imagem desta ilha de vegetação próxima, no meio do bairro, faz-me agradecer viver ali. Abasteço-me diariamente destas imagens-trégua entre paredões de prédios cada vez mais altos. Poderia fazer um álbum de copas varridas e dobradas pelo vento, lavadas por chuvas calmas ou agressivas, dizendo-me como está o tempo lá fora. E nos dias de sol, reflexos de luminosidade em mosaico de folhas lembram sua proteção fiel contra o calor que se anuncia mais forte ano após ano.

Volto ao meu quase sonho e vejo como o vermelho me levou ao verde. Um passeio em livre associação. Ocorre-me que o vermelho conseguiu escapulir à censura da vigília, mas é o verde que me chamou e me acalmou.  Ainda não estou satisfeita com meu percurso, sinto que faltou alguma coisa. Esta falta talvez seja preenchida no próximo sono. Ou não. Talvez, esta falta seja aquela que me faz sonhar e escrever apesar de tudo, um caminho com a palavra escrita a me ajudar na produção de sentidos, onde mora a minha singularidade. O que diriam Freud ou Lacan? Encerrado o tempo de hoje, continuamos na próxima sessão.

4 comentários:

  1. Lindo sonho tiveste, Rosa. E que linda crônica ele te propiciou escrever. Viajei por esse mundo onírico de beleza e distanciamento
    da depredação criminosa que sofre nosso planeta. Parabéns. Tua crônica é um convite para proteger da forma que pudermos nossos espaços verdes.

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  2. Bonito o texto repleto de caminhos a se percorrer nesse limiar entre o onírico e a realidade tendo como fio condutor as cores e seus significados. Quem sabe no teu próximo sonho, Maria Rosa, surjam lindas papoulas vermelhas acetinadas convidando-te a escrever e refletir sobre o significado do vermelho na tua vida. Parabéns!

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  3. Belos sonhos coloridos… que não percamos essa capacidade, nunca! Jamais!

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  4. QUERIDA ROSINHA, TIVESTE UM SONHO LÚCIDO!! E TE DIGO , SAIU UMA BELÍSSIMA CRÔNICA !!!! ISSO É CONSIDERADO MEIO RARO, PORÉM, TRATANDO - SE DA DONA DO SONHO, CLARO...ORA, ES SENSÍVEL E MUITO MAIS!!! DESEJO QUE TENHAS OUTROS DESDOBRAMENTOS ASSIM, LUCIDOS!!! ISSO FAZ BEM !! ABRAÇO 🤗 FRATERNO
    MÁRCIA SPIERCART.

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