Meu quase sonho foi
colorido na noite que passou. Sabia estar deitada sobre meu braço esquerdo como
sempre, mas só meu corpo estava lá. Bolas vermelhas pulavam sem parar em meio a
outras cores que apareciam e despareciam em redemoinhos ao redor e centro de
meu corpo. Aquele movimento embalava-me, dava-me prazer. Muito prazer. Falava-me alguma coisa,
e eu prometia lembrar o que estava vendo e sentindo para que pudesse escrever
quando acordasse. Não sei quanto durou aquele estado. Eu tinha certeza de que
desta vez eu conseguiria lembrar, tal era a sensação de domínio sobre o que
estava vendo e sentindo. Acordada, não soube se fora sonho, ou imaginação,
naquele limiar entre dormir e acordar. Um falso domínio. Certo é lembrar-me das
bolas vermelhas e que elas queriam me dizer alguma coisa. Certo é que ainda
tinha resquícios daquela tremura poderosa e inominável no meu peito e na minha
barriga, e a certeza da policromia que se perdeu, com o convite para lembrar e
decifrar sua mensagem. Não sabia por onde começar. Ainda mais num tempo de
muitos sobressaltos com os acontecimentos políticos no país. Pensei em buscar
informações sobre cores e seus significados, mas temi distanciar-me daqueles
momentos, certamente ligados a meu inconsciente. Estaria negando os horrores
que vejo todo o dia e produzindo um mundo paralelo para sobreviver? Concentrei-me
no pedaço de lembrança. Bolas vermelhas. Vermelho, é um símbolo com o qual me
sinto ligada hoje em dia, principalmente político, esquerda, luta de classes,
guerras, resistências, empatia pelos marginalizados, luta pela vida. Não traz
prazer, antes, um desafio, um apelo a agir. Nem sempre foi assim, raramente vesti uma camiseta
vermelha, certamente nenhum vestido, nenhuma saia. Nunca me perguntei os
motivos, mesmo sabendo que o vermelho dava cor ao meu rosto, como me diziam. Lembro
da combinação do roxo com o cinza claro, tive um conjunto de saia e casaco na
minha juventude, chamava-se tailleur, hoje não ouço mais esta palavra, hoje
fala-se conjunto, ou uma denominação mais atual, e o comprimento da saia justa
não mais cobria o joelho, a nova moda merecia fofocas, críticas – o joelho era
uma parte menos bonita do corpo feminino – e aplausos pela liberação da mulher,
conceito possível naquela época, sem antever as microssaias atuais. O verde
também, em outro tailleur. Aquelas roupas me deixavam elegante. É isto,
relaciono essas cores com elegância e com um futuro e sonhos a se realizarem. Hoje
eu não tenho qualquer peça roxa. Mas possuo sempre roupas verdes com
tonalidades diversas. Lamento o confisco que parte da sociedade fez da
associação verde/amarelo. Além das roupas, o verde me é fundamental, ligado à
Amazônia, à Mata Atlântica, às araucárias, às árvores decepadas na cidade nos
últimos tempos, todas ameaçadas, necessidade de preservá-las, cobertura de
vegetação a risco nos cinco continentes e próximo a um ponto de não retorno.
Sinto necessidade de uma caminhada em meio ao frescor e cheiro de mato. Fico
perguntando se meus netos terão esta experiência no futuro. Amo o rosa do ipê
roxo – sei que não havia rosa no sonho –, ele se destaca no meio das matas, vejo
um exemplar da minha área de serviço e temo por ele, a cada ano está com sua
copa reduzida, deve ser pelo confinamento entre três edifícios, livre apenas em
frente à calçada, o que me permite vê-lo. Antes havia somente pequenos sobrados
naquela rua. Gosto das flores vermelhas do flamboyant em dezembro, no
pátio do edifício no lado sul do meu, no meio das folhas que lhe servem de
moldura verde, uma copa exuberante que vem diminuindo depois de contínuas podas
radicais. Amo a pitangueira que se cobre de pequenas flores brancas e deixa a
calçada atapetada quando elas caem, faz-me sentir num jardim mesmo numa rua
completamente tomada por edifícios. Encanta-me olhar a buganvília que se curva
com elegância sobre a grade na frente do nosso edifício, oferecendo suas flores
fúcsia. Branco e fúcsia serão cores desaparecidas do meu sonho?
Em todo esse
passeio por onde o olhar alcança de minhas janelas, é o verde com suas
incontáveis tonalidades e brilhos que se oferece todo o dia. Não há qualquer
vermelho. Alguns juncos ainda sobraram no fundo da casa lindeira, junto a um
abacateiro e a uma alta e frondosa árvore, cujo nome desconheço, amaldiçoada
por alguns moradores, porque foi pouso de morcegos robustos vindos de outras
paragens depois da última enchente. Pequenos
aparelhos com emissão de som insuportável àqueles seres voláteis foram
colocados no muro, eles sumiram e a árvore foi salva.
Junto aos outros
terrenos vizinhos ainda sobram espécies variadas que receberam a companhia de
palmeiras ornamentais do novo edifício, uma moda dos últimos tempos na cidade.
A imagem desta ilha de vegetação próxima, no meio do bairro, faz-me agradecer
viver ali. Abasteço-me diariamente destas imagens-trégua entre paredões de
prédios cada vez mais altos. Poderia fazer um álbum de copas varridas e
dobradas pelo vento, lavadas por chuvas calmas ou agressivas, dizendo-me como
está o tempo lá fora. E nos dias de sol, reflexos de luminosidade em mosaico de
folhas lembram sua proteção fiel contra o calor que se anuncia mais forte ano
após ano.
Volto ao meu quase
sonho e vejo como o vermelho me levou ao verde. Um passeio em livre associação.
Ocorre-me que o vermelho conseguiu escapulir à censura da vigília, mas é o
verde que me chamou e me acalmou. Ainda
não estou satisfeita com meu percurso, sinto que faltou alguma coisa. Esta
falta talvez seja preenchida no próximo sono. Ou não. Talvez, esta falta seja aquela
que me faz sonhar e escrever apesar de tudo, um caminho com a palavra escrita a
me ajudar na produção de sentidos, onde mora a minha singularidade. O que
diriam Freud ou Lacan? Encerrado o tempo de hoje, continuamos na próxima
sessão.
Lindo sonho tiveste, Rosa. E que linda crônica ele te propiciou escrever. Viajei por esse mundo onírico de beleza e distanciamento
ResponderExcluirda depredação criminosa que sofre nosso planeta. Parabéns. Tua crônica é um convite para proteger da forma que pudermos nossos espaços verdes.
Bonito o texto repleto de caminhos a se percorrer nesse limiar entre o onírico e a realidade tendo como fio condutor as cores e seus significados. Quem sabe no teu próximo sonho, Maria Rosa, surjam lindas papoulas vermelhas acetinadas convidando-te a escrever e refletir sobre o significado do vermelho na tua vida. Parabéns!
ResponderExcluirBelos sonhos coloridos… que não percamos essa capacidade, nunca! Jamais!
ResponderExcluirQUERIDA ROSINHA, TIVESTE UM SONHO LÚCIDO!! E TE DIGO , SAIU UMA BELÍSSIMA CRÔNICA !!!! ISSO É CONSIDERADO MEIO RARO, PORÉM, TRATANDO - SE DA DONA DO SONHO, CLARO...ORA, ES SENSÍVEL E MUITO MAIS!!! DESEJO QUE TENHAS OUTROS DESDOBRAMENTOS ASSIM, LUCIDOS!!! ISSO FAZ BEM !! ABRAÇO 🤗 FRATERNO
ResponderExcluirMÁRCIA SPIERCART.