segunda-feira, 19 de junho de 2023

A fábula dos pincéis coloridos

 


Há algum tempo, como seguidamente costuma me acontecer, acordei com uma necessidade de enxergar o mundo como deveria ser. Esquecer como ele é, uma trégua para acumular energias. Um mundo em que todas as pessoas pudessem viver dignamente com o fruto de seu trabalho, e em que a empatia predominasse. Cansada de saber que o modo de viver atual, nas diversas formas e no mundo todo, favorece a produção de subjetividades individualistas, egoístas, alienadas e, muitas vezes, perversas. Uma máquina produtiva e incansável que se auto-alimenta.  

            Era mais um dia quente além do suportável, precisei voltar à farmácia, porque me venderam o remédio errado no dia anterior. Fui na primeira parte da manhã, perto de casa, mas mesmo assim, voltei tão suada que precisei trocar toda a roupa. Banho tomado, vestido limpo e leve, tomo uma água gelada, ligo o ventilador – ainda não precisa ligar o ar condicionado – e vou descansar numa poltrona com o livro que ainda não terminei. Agradeço por essas comodidades.

            Livro aberto, não leio. Sinto conforto e gratidão, como constantemente faço, quando paro e penso em meu lugar no mundo. Meus filhos e suas famílias estão bem, enfrentando seus desafios e seguindo a vida. Eu estou saudável. Vacinada com a quarta dose contra a covid e também contra a gripe. Tenho acesso a médicos e exames, sou bem atendida. Vivo num apartamento confortável. Posso tomar um banho quando quiser, a água não falta. Posso escapar do calor ligando aparelhos. Posso alimentar-me com produtos orgânicos. Tenho amigos que os produzem e uma feirinha próxima. Tenho amigas e amigos queridos. Adoro ler e o faço como quero, recuperando o tempo em que não o podia fazer, por excesso de trabalho durante grande parte de minha vida.

Perco-me nas ideias que antecipam os acontecimentos, as invenções, as transformações. Então, volto a pensar no que eu gostaria de ver, o mundo ser tocado por pincéis mágicos surgidos do desejo de todos aqueles que compartilham a mesma visão de mundo. A ideia dos pinceis surge da caixa de minha neta que ela guarda na prateleira da sala.

Os pincéis começam seu trabalho pela recuperação das florestas, despoluição dos rios, dos lagos e dos mares, e todos estarão a postos para mantê-los protegidos. Assim, a temperatura para de aumentar, e as geleiras retornam à sua magnitude, e os extremos climáticos deixam de ser usuais. E a Terra é, enfim, tutelada como merece.

Depois, os pincéis seguirão produzindo casas coloridas e ajardinadas para todos numa harmoniosa configuração de verde e de construções; escola e praças para esportes; nunca mais vai faltar água, nem luz; as cidades terão ônibus confortáveis, e reduzido fluxo de carros particulares; os moradores de rua não existirão; todas as crianças estarão na escola e os pais trabalharão tranquilos; as poucas cadeias terão uma estrutura nas quais os detentos podem recuperar-se; os policiais terão formação para atuar com justiça; os hospitais atenderão a todos igualmente; estarão disseminadas escolas de artes com vagas para quantos queiram desenvolver sua capacidade de criação; casas de espetáculos e cinemas estarão à mão de todos; as fábricas de armas serão desmontadas e substituídas por outras onde será produzido tudo o que pode dar conforto à população; as universidades estarão a serviço das ciências para que a sociedade viva cada vez melhor e em paz.

Alguém pode dizer que minha fantasia é ingênua, que isto é bobagem, que os homens sempre foram diferentes e problemáticos, e nunca vai mudar.

Realmente a história da humanidade é uma história de guerras.

No entanto, se olharmos núcleos esquecidos ou ocultados, encontraremos experiências de vida solidária em todos os cantos de nosso planeta e em todos os tempos. Se nos determos apenas em um dos exemplos da história do nosso país, ainda temos os indígenas nas nossas matas que vivem da terra e se curam através dela sem a agredir. Sobreviventes de uma ferocidade contra eles que não terminou, mas está sendo enfrentada graças ao novo governo. Eles são um exemplo de vida em harmonia com a natureza. Tratar da questão indígena é tratar da questão fundamental de sobrevivência da humanidade. Não se trata de voltar para trás, trata-se de não nos autodestruirmos em nome do progresso. O progresso deveria servir a humanidade, não devorá-la. O progresso deveria estar a serviço de pincéis mágicos.

Voltando aos pincéis, penso que eles terão que carregar nas cores e, ainda, solicitar ajuda extra ao pintar os centros de poder para que eles se esvaziem da força de controle e exploração, para que eles acreditem em outros caminhos possíveis. Serão necessários pontos vibrantes de energia luminosa para lhe absorver a negatividade e transmutar o individualismo. E uma vigilância permanente por todas as cores existentes.

Então a viagem mágica de minha imaginação terá oferecido as condições para que todos possam ser gratos à vida na sua própria maneira, porque a realidade não será madrasta, mas mãe generosa. Os pincéis, então poderão descansar, porque o colorido virá de dentro de cada ser humano.

Um comentário:

  1. Linda utopia essa que pintas com as palavras. Quem nos dera poder fazer essa transformação! Mas quem sabe, ao menos por aqui, com o tempo e com o povo mais bem educado e conscientizado se co nsegue isso num futuro próximo? Agora temos um governo serio e comprometido e podemos, sim, trabalhar para que isso aconteça!
    Muito bela tua crônica.

    ResponderExcluir