sábado, 29 de abril de 2023

O lugar das mulheres



Ela agita um véu incendiado, os braços erguidos ao céu dançam no ar como convite à rebeldia. É a imagem congelada de uma jovem de cerca vinte anos apenas, morta pela política moral de seu país pouco tempo depois.

Uma mulher negra empurra um carrinho no supermercado, apenas de calcinha e sutiã. Ela resolveu tirar a roupa em ato de repúdio e protesto por ser seguida e observada por um segurança durante todo o tempo de suas compras.

Entre estas duas pontas, a primeira no Irã (jovens que exigem liberdade continuam a ser mortas ou encarceradas e torturadas) e a segunda no Brasil (uma mulher é morta a cada seis horas – mulheres negras são mais agredidas) são denunciados diferentes graus de violência contra a mulher. Atrás de incontáveis e permanentes agressões, em lugares tão distantes, há uma história com origem comum.

O desfio é desnudar o gerador de violência invisível a olhos desatentos, e que funciona sem interrupção em todas as sociedades do mundo globalizado, mostrando-se em gestos e comportamentos no cotidiano das pessoas comuns, principalmente contra a mulher. Um sistema que potencializa a morte e se alimenta do medo e da negação.

O dramático é que as raízes da violência, em especial contra as mulheres,  continuam fortes apesar do avanço na conquista de seus direitos. Em algumas sociedades, parece que não saímos dos tempos da caça às bruxas e da fogueira. A imposição do ocultamento do corpo da mulher e seu banimento de qualquer direito mostra o ápice desta perseguição. Atos individuais alienados, dissociados do conhecimento sobre a formação das diferentes sociedades, levam ao comportamento coletivo continuamente obsessivo contra as mulheres, em diferentes graus e de diferentes formas, atualizando-as permanentemente.

Silvia Federici, em seu livro Calibã e a Bruxa, nos mostra que “as mulheres sempre foram tratadas como seres socialmente inferiores, exploradas de modo similar às formas de escravidão”. Em cada período histórico existem características próprias, mas é na transição pra o capitalismo que devemos compreender as origens da situação atual para ultrapassar a dicotomia gênero e classe. Através de dados históricos, a autora comprova que a opressão da mulher não é uma questão puramente cultural, mas está enraizada nas relações de classe.

Para Federici, pensar a violência que ocorre hoje contra as mulheres deve ser feita sob o entendimento da exploração dos trabalhadores (categoria à qual elas fazem parte) sob o capitalismo. Aqui está situado o gerador comum de violência com vestimentas diversas em cada cultura. Um sistema que se baseia no individualismo e na meritocracia, culpando o próprio explorado por suas derrotas: todos os que ficam às margens (descendentes de escravos africanos, imigrantes deslocados pela globalização, sujeitos das colônias europeias e, com lugar de destaque, mulheres). Nesta engrenagem é preciso ocultar o fundamento do sistema, a necessidade de uma massa de trabalhadores à disposição para serem explorados – com lugar de destaque para a mulher como reprodutora de força de trabalho e sempre à disposição segundo as regras do mercado – hoje globalizado – estabelecidas por ele. A história comprovou que a essência do capitalismo é oferecer ilusões de liberdade e prosperidade para todos, mas só alcançadas por poucos. Ilusões mascaradas de verdades para que possam ser engolidas e aceitas. Federici nos demonstra que é “impossível associar o capitalismo com qualquer forma de libertação ou atribuir a longevidade do sistema à sua capacidade de satisfazer necessidades humanas.” As crises cíclicas mostram que essa satisfação nunca vai ocorrer. O capitalismo se reinventa a cada crise, mantendo os mesmos males, dentre os quais dificultando a participação da mulher em todas as instâncias da sociedade em igualdade de condições com o homem.

Este cenário só pode realizar-se com a força e a violência, porque a resistência das trabalhadoras e dos trabalhadores sempre existiu, e a situação só não é pior por causa desta resistência. A história das lutas das trabalhadoras e dos trabalhadores é longa. Ela sofreu muitos apagamentos, especialmente a voz das mulheres. É preciso conhecê-la. Por isso, recuperar esta história, compreender os tortuosos caminhos para chegar onde chegamos na atualidade e, fundamentalmente, o lugar das mulheres neste caminho, é primordial para avançar rumo a uma sociedade equânime em qualquer cultura.

2 comentários:

  1. Sinto uma inquietação imensa ao ler teu texto.... essas injustiças seculares (milenares?), tem que acabar! E logo!

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  2. Até quando nós, mulheres, seremos discriminadas das mais diversas formas? O sistema capitalista massacra trabalhadores muitas vezes de forma imperceptível e ardilosa. Mas com certeza é ainda pior com as mulheres , mais ainda com as desvalidas. Este teu texto aprofunda essa discussão e nos traz a maravilhosa Federici como a grande questionadora e batalhadora pelos direitos da mulheres. Parabéns, minha amiga. E obrigada por esse belo e oportuno texto.

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