sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

O desafio continua

 

                Eu passava por ela e pensava que devia ser paralítica ou deveria ter algum problema grave nas pernas. Durante muitos anos, eu vi a mulher sentada na calçada envolvida em trapos junto ao muro que delimitava o clube. A calçada ali era estreita e os pedestres passavam mais distanciados dela que podiam. Alguns até caminhavam no asfalto, mesmo na avenida movimentada. Eu também.  Ali era seu lugar, inclusive das suas necessidades fisiológicas. O cheiro era insuportável.  A sujeira dela e a da calçada davam nojo. E o nojo vinha enrolado na raiva que sempre sinto ao ver a degradação humana em meio à abundância da qual faço parte. A impotência se agregava e acionava o conhecido mecanismo do esquecimento um pouco adiante. Só me dava conta que ela desaparecia de tempos em tempos, quando voltava a sentar-se lá. Perguntava-me onde ela teria andado, mas também esquecia sem esperar resposta. Um dia, passei a ver um homem sentado ao lado dela, igualmente sujo e fedorento. A intervalos, os dois também desapareciam. Às vezes xingavam-se, às vezes conversavam baixinho como a compartilhar segredos, às vezes dormiam totalmente cobertos pelos trapos.

Um dia, encontrei-os na calçada em frente a uma agência bancária, uns duzentos metros adiante do primeiro local. Este, estranhamente limpo. A chuva deve ter feito a faxina. O casal, sentado em meio a uma quantidade muito maior de trapos e sacos, fixou ali seu novo ponto. O uso da calçada tornou-a imunda e mal cheirosa como a anterior. Ali a largura era bem mais ampla e os pedestres não precisavam desviar, nem mesmo para entrar na agência. Soou-me como uma irônica denúncia. A resposta sobre a origem de tanta diferença de vida numa mesma sociedade estava às costas deles em letras e logotipo nacionalmente conhecidos. Um retrato do país.

Um tempo depois, eles despareceram dali. Ou foram desaparecidos. Aquele local pertencia a bairro nobre da cidade. Grades circundaram o espaço antes ocupado pelo casal, e dentro dele foram plantas duas palmeiras. Tudo limpo e sem traços de qualquer ocupação. A calçada estava sob nova apresentação. Nunca mais vi o casal.

Durante alguns anos, aquele homem e aquela mulher eram testemunhos solitários de uma população de rua invisível no bairro. Uns e outros circulavam por tempo curto e desapareciam. Nunca foram muitos, mas num movimento que nunca cessou. Semelhante a mosquitos que invadem nossa sala numa noite de verão. Damos caça, fechamos as janelas e ligamos o ar.

Nos últimos anos, com aumento enorme na pandemia, está sendo impossível caminhar algumas quadras sem ouvir um pedido de ajuda, sem ter a oferta de balas ou panos de prato, sem ler “estou com fome” num cartaz. E não são somente moradores de rua. Homens vestidos modestamente, com filhos pequenos acomodados num canto, procuram vender alguma coisa. Nunca haviam sido vistos pelo bairro. Não são sempre os mesmos. Não há como não ver pessoas que devem ter perdido seu emprego, devem ter tido sua vida desestruturada, e se viram como podem. Perguntei-me que distâncias devem transpor para chegar até aqui e porque não são sempre os mesmos. Poucos são os que permanecem e se tornam conhecidos. Uma realidade que bate na nossa cara, e um gesto solidário de nossa parte é pequeno e insuficiente, embora necessário.

Chegamos ao fim do ano, aliás, ao fim de seis anos de retrocesso no país. Domingo, enfim, assumirá nosso Presidente. A reconstrução do país estará começando com um caminho difícil, com muitos obstáculos a superar, com instituições a serem reconstruídas, mas com muita gente – nos postos chave da administração federal – que tem o mesmo sonho de fazer deste país um lugar melhor para viver. Aliás, já está sendo feito.

Embora, não tenhamos nem o governo estadual e nem o municipal na mesma sintonia, os reflexos de nova política social do Governo Federal se farão sentir também nas nossas ruas. Que elas sejam cobertas apenas das flores de cada temporada. Este é o horizonte à nossa frente, porque a maior parte do povo brasileiro disse sim à esperança, à empatia, ao afeto, à alegria espelhada no outro.

 O próximo ano colocará em ato a vitória do desejo de vida expressa na vitória de LULA. E cada um que compartilha deste desejo precisa continuar a estar vigilante e a apoiar o que foi conquistado. O desafio continua.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Preciso voar

 

Voar. Sobre as ruas do meu bairro, e mais longe, ondulando em asas de fuga, saindo de minha janela, ultrapassando o último andar do edifício e tomando o rumo à esquerda, até à rua onde não posso mais caminhar como antigamente, porque assaltam a qualquer hora. Voar, um jeito de circular por aí sem medos. Sem peso, leva-me o equilíbrio entre o movimento das asas e o ar que me recebe. Movimento harmônico vindo do abandono do ser estátua diante dos acontecimentos. Do alto posso ver, através dos espaços entre as copas das árvores, poucas pessoas caminhando, uma e outra vão devagar com seus cachorros, outras andam apressadas, devem ser as empregadas e funcionários que precisam chegar cedo ao trabalho. Poucos carros a essa hora da manhã. O sol ainda não está alto, mas esquenta minhas costas, a brisa que acaricia meu corpo vem em meu socorro, permite que continue meu voo recém iniciado. Vejo um mosaico de pequenos quadrados e retângulos negados ao pedestre. Há espaços entre eles, de vários formatos e diferentes tamanhos, preenchidos por piscinas, quadras, gramados, restos de matas que existiam na região, poucos terrenos vazios, uma e outra casa, formam quadras de aproximadamente cem metros quadrados, algumas maiores. Sei que as formas geométricas que consigo enxergar estão recheadas de seres humanos, muitos podem ainda estar dormindo, outros estarão começando seus afazeres do dia que começa, sairão à rua, aos seus compromissos. Agora, e do alto onde estou, não vejo estes movimentos que sei existirem. A rua que sobrevoo é ladeada por árvores, em alguns trechos formam um túnel; em outros, elas estão esparsas e oferecem flores brancas nesta época. As ruas transversais seguem o mesmo padrão. Raios do sol saltam de diferentes lugares, vieram com novas arquiteturas envidraçadas e desenham reflexos, lembram espectros de segurança para objetos valiosos, uma segurança impossível nas vias públicas há muito tempo. Nelas estamos sós, à mercê do inesperado. Vou e volto, não desejo baixar muito, é na altura que me embalo melhor e enxergo cores e desenhos não possíveis no andar à terra. Na distância daquilo que me está próximo, resgato o olhar perdido para as belezas ocultas no caos do cotidiano. Se voasse mais alto, talvez não distinguisse o que seriam estas formas, enxergaria outras, outros traçados, outros brilhos. Alcançarei um olhar mais amplo? Por enquanto, só consegui voos próximos. Em cada um deles consegui mergulhar no sono e sonhar. Na próxima vez, tentarei ir mais longe.