domingo, 17 de abril de 2022

Palavras e silêncios

 


As palavras de Jesus, segundo Frei Betto, nos diziam que o reino de Deus não ficava lá no outro lado da vida, mas aqui na terra junto do povo. Isto é reafirmado no Pai Nosso: Venha a nós o Vosso Reino. O Reino de Deus deve ser realizado aqui na Terra entre todos e Jesus foi crucificado por incluir os esquecidos, os fracos e marginalizados.

Dois mil anos depois, não faltam palavras no mundo todo a nos afirmar a necessidade de olharmos o outro como nosso semelhante aqui e agora e, portanto, reafirmar que as suas necessidades devem ser satisfeitas no mundo terreno, não num outro mundo prometido e etéreo.

Dentre tantos chamamentos, o Papa Francisco não cansa de chamar para olharmos o outro com empatia, para dedicarmos algum tempo a prestar atenção e a falar com quem encontramos em situação de marginalização. Sim, falar, para anular a indiferença, porque ela mata tanto quanto a fome e as armas.

Retornando às palavras de Frei Betto, precisamos de amor e de justiça social para realizarmos o reino de Deus na terra. Palavras que precisam ser ditas ao infinito, porque a história da humanidade tem demonstrado que muitos são surdos e cegos a essa verdade. A surdez e a cegueira diante da dor do outro impede a realização do Reino de Deus na Terra.

A palavra torna-se tanto mais fundamental, quanto mais a realidade seja tormentosa. É com ela que podemos trazer a memória de todos aqueles que não se dobraram e não se dobram ao poder contrário dos ensinamentos de Jesus. O registro da história tem um lista infinita de nomes de todas religiões e pensamentos que defenderam e defendem o amor ao outro transfigurado na solidariedade, na partilha, na compreensão das diferenças de cada um.

Com estes pensamentos, junto-me às reflexões que outros estão fazendo sobre o significado destes dias. E, diante da dor do outro, quando não é mais possível fazer alguma coisa, lembrar de segurar-lhe a mão em silêncio num outro jeito possível de comunicação e empatia, como disse Papa Francisco, porque há momentos em que o silêncio é única possibilidade.

Vivemos dias em que o retrocesso civilizatório parece em marcha. Justamente por isso, é preciso relembrar o calvário e ressureição de Jesus Cristo para potencializar a reflexão sobre o que nos cabe fazer com urgência. E usar a palavra para continuar a agir.

3 comentários:

  1. Tantas barbaridades em nome de Deus, tenha ele o nome dado pelas mais diversas crenças, nos faz pensar que as palavras são distorcidas para que sejam feitas vontades egoístas e perversas. Mesmo assim, são elas, as palavras, que precisam denunciar absurdos e fazer acreditar na possibilidade de mudanças.

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  2. Ando muito descrente de que a humanidade acorde e enxergue seu semelhante ao exemplo do Cristo. Tenho mais fé nas ações,pequenas que sejam são o que pode mudar. Apostemos nas ações, mais do que nas palavras, que hoje são abreviadas, vazias e se perdem no vento.

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  3. Voltei neste texto, Maria Rosa, caríssima! Tinha lido logo que vc o anunciou, mas não tinha podido comentar. Pois é: o teu filho, Maurício, comentando um outro texto teu por aqui, disse que vc "pratica o que diz". Eu sei. E é verdade. Pelo q te sou grata, desde há muito!

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