Desde muito
longe no tempo, a leitura tem sido um refúgio para serenar-me, ou, ao menos, para
ter um tempo de suspensão das inquietudes que me atormentavam. Ela continua a
ser a companheira que não me deixa desesperar.
Li todos os
gibis da época de minha infância. Não eram muitas as publicações, conhecia-as
todas, ao menos aquelas que chegavam ao interior onde morava. As histórias dos
personagens da Disney povoaram minha cabeça e alimentaram meu desejo de outros
lugares. As aventuras de Fantasma, Roy Rogers, Rin tin tin, Mandrake, Rocky
Lane, Superman, Tarzan e vários outros foram minha literatura constante. Claro,
posteriores e paralelas às fábulas tradicionais. A minha preferida era a de
Branca de Neve. Talvez tenha sido porque foi o primeiro filme colorido que
assisti, ao qual se seguiu o primeiro álbum de figurinhas. Até hoje revejo mentalmente
algumas cenas e, embora com um olhar atualizado e crítico, ainda gosto delas. Até
meus netos sabem de minha preferência, e serviu sempre de cumplicidade entre
nós. Três deles já estão crescidos, então, este vínculo é lembrado mais com a neta de quatro anos. Seus
olhos brilham quando conta qual história a avó mais gosta.
Depois, na
adolescência, vieram os romances nas fotonovelas: Capricho, Noturno, Você. Vivi
muitas histórias de amor naquelas esperadas revistas semanais e nos romances
ditos cor de rosa. Eram os primeiros anos da televisão, ainda sem as
telenovelas nacionais. Existiam as radionovelas no começo da noite, antes da
janta.
Agradeço
à diversidade de leituras pelo gosto por permanecer horas a fio concentrada em
milhares de palavras que me levaram a tantos e diversos mundos. Agradeço também
às leituras desde criança, que foram um tempo preparatório para a descoberta
dos clássicos. Assim, até hoje, viajo aos lugares mais distantes pela mão de muitos
e maravilhosos escritores, apesar da pandemia. Ou melhor, apesar dela. Ou,
ainda, também por causa dela.
Reafirmo
que foi pelos degraus dos primeiros textos simples, que fiquei presa à
necessidade de ler e de escrever. Eles me viciaram no sabor de um livro ao me aventurar
no meio de suas páginas. Aventura não significava apenas prazer e leveza,
muitas vezes, os temas foram pesados e doloridos. De qualquer forma, o mundo
foi me invadindo em sua complexidade e com as suas diferenças. Tenho certeza de
que isso contribui substancialmente para que não me detenha diante de uma
informação sem cotejá-la com outras informações, sem que o conhecimento adquirido
ao longo da vida venha em auxílio para meu próprio juízo.
É
claro que o conhecimento não depende apenas da leitura da palavra. Existem as
condições de vida e uma leitura de mundo que a precede. Elas se entrelaçam. Por
isso, a angústia me chega toda vez que vejo disseminadas tantas idiotices,
tantos rancores, tantas distorções e milhões de frases desconexas e
preconceituosas nas redes sociais. Ininterruptamente. Elas mostram a
inexistência de uma trajetória de busca de conhecimento acumulado pela
humanidade que nos é dado pelos livros, pelo estudo, sejam eles em papel ou,
hoje, num suporte virtual. Sejam eles científicos ou literários. Porque a
leitura conduz necessariamente a trocas e à expansão do que somos. E, com esta
expansão, teremos boas chances de separar o joio do trigo, de ter ferramentas
para derrubar barreiras de preconceito e de injustiça.
Então,
se não houvesse fome no país, a cesta básica poderia incluir um livro. Se os
fabricantes de armas passassem a produzir livros e se fosse obrigatória uma
livraria junto a cada farmácia. Se à educação fosse reservado lugar fundamental
de verdade, com bibliotecas cheias de livros. Teorias diversas, pontos de vista
diversos, histórias diversas, temas diversos. Com certeza não estaríamos na
situação atual.
Estamos na
travessia de um inferno. Quem pode procure a companhia de um bom livro, enquanto
une esperanças e esforços na luta para salvar o que não foi ainda destruído no
país. Hoje, tornou-se mais urgente ainda salvar vidas.
Dante foi guiado
pelo poeta Virgílio para chegar ao paraíso. Deixemos nos levar por tantos e
maravilhosos escritores que podem nos ajudar a resistir.
É interessante perceber como pessoas para quem a leitura é uma forma de relação com o mundo, como nós, reagem de modo tão semelhante à diversidade de realidades e de possibilidades que os livros nos oferecem. Isso independente das reações e construções pessoais e muito individuais na relação com a variedade de conteúdos e de ideias. É um contato direto com as diferenças que marcam épocas, sociedades e culturas e, ao mesmo tempo, com as semelhanças que nos caracterizam e igualam como membros da mesma espécie. E concordo com os que pensam que é isso que nos distingue como espécie: o imaginário. A capacidade mental de estar simultaneamente no passado, no presente e no futuro. E que nos leva a esta dimensão metacognitiva (metalinguística) de pensar sobre. Com certeza, concordo com você, não estaríamos na situação atual se todos tivéssemos penetrado o universo das histórias e vestido a pele de muitos e diferentes personagens, em múltiplas posições e perspectivas. O aprendizado da empatia e do conhecer-se a si mesmo começa assim, né?, com o exercício emocional de encontrar o outro nas criações ficcionais (orais e escritas)e descobrir as próprias identificações. Um personagem de Mia Couto expressa isso, em outras palavras, e com muita propriedade: "a gente se enxerga é nos outros". E com esses "outros" a gente convive na realidade mais concreta e na realidade imaginada. Cê tem razão: quem puder procurar a companhia de um livro que fale a si próprio neste momento, que o faça. E que junte sua voz às inúmeras expressões que hoje se fazem ouvir, trazendo realidades que antes não chegavam até nós, e que hoje batem à nossa porta, clamando por nossa escuta atenta e solidária.
ResponderExcluirRosa, que profunda reflexão. Concordo plena e completamente contigo. Os livros... são eles que nos salvam neste endemoniado tempo. Incentivo à leitura é dever, e não foi cumprido, de todo governante esclarecido. Aguardo por um governante que faça a verdadeira diferença, depois do horror a que estamos sendo submetidos. PARABÉNS por tua swmpre ótima e instigante escrita.
ResponderExcluirMuito bom Mirosa!!! Cláudia
ResponderExcluirRosa, que delícia de texto, as lembranças, também minhas, me fizeram sonhar num momento em que parecia não conseguir alçar voo. As palavras, ditas e escritas, cantadas ou desenhadas são a nossa Parságada. Onde podemos imaginar, ficcionar histórias de homens fortes e corajosos que salvam seus reinos e princesas que compartilham a vida com pássaros, ratinhas que tecem seu vestido e madrinhas que às proteje.
ResponderExcluirÉ este o mundo em que vive,da natureza e não da vida de entediante ganância,
ciúmes e ostentação. Se analisarmos os contos de fadas com outro olhar,veremos que elas são as heroínas, somente a elas se pode dizer que fizeram a história por suas ações e não por sua submissão. Mulheres novas, lutem ,ajam, avante!👏🏼👏🏼😉😉👏🏼😍😍😍😍
Um bom livro, um generoso artigo em algum blog(esse), podem por muitas vezes nos levam a lugares talvez ja visitados por nós, e muitas vezes ja esquecido, ou até mesmo ha lugares que nunca tivemos a oportunidade de visitar, e essa visita aciona reflexões, que só a partir desta ou daquela leitura nos foi oportunizado repensar o mundo e a nós mesmo. Gratidão.
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