Acabo de ler uma
crônica de minha amiga escritora Maria Avelina Gastal. Consigo ler quase todas
as que ela publica em seu sito. Elas me fazem conversar com o que escreve.
Algumas me fazem chorar, outras me fazem pensar mais longe, outras me fazem rir
– estas menos frequentes.
Num
dos textos, Avelina se propunha a ser mais leve, apesar de todo o tormento que
vivemos no país. O interessante é que faz dias que penso nos meus últimos
escritos publicados no blog. Eles são tristes, porque não consigo desapegar do
que se vive. A dor do outro é também minha. Sou grata pela minha situação e
isto me faz lembrar de quem está frágil e desprotegido. Então, vi nas palavras de minha amiga um mesmo
apelo. Não é qualquer apelo, é pensamento que cruza com meu pensamento e se
identifica. É comunhão de expectativas que brotam do mesmo desejo de um mundo
melhor, e chora, e se indigna, e denuncia com os mesmos motivos. Só a combinação
de palavras que usamos é diversa.
Foi
justamente esta conexão que me fez resgatar uma ideia guardada há muito tempo. A
ideia de rompimento. As grandes transformações históricas não ocorreram de
repente. As suas raízes foram plantadas no período anterior e se fizeram vivas
em pequenas e, depois, em grandes rachaduras nas diferentes narrativas. Foram
acontecimentos que foram abalando aqui e ali, esparramando-se sobre os
fundamentos dos conceitos e das crenças aceitos
pela sociedade. Os impérios caíram aos poucos. As artes estão cheias de
rompimentos. Alguns exemplos me fascinaram e volto a eles sempre que a
desesperança grita mais alto. Voltei-me para as artes.
Foi
numa viagem a Assisi há alguns anos, que ouvi pela primeira vez o que
representou Giotto para a arte no século XIV. Ele pintou o corpo morto de Jesus
de forma vertical, mas com as pernas dobradas que fazem sentir o seu peso e,
com isso, tornou a imagem mais humana e popular. Introduziu o sentido do
espaço, do volume e da cor. Até então, as representações eram retas e
estáticas. Este pintor provocou a revolução nas artes que antecipou a época do
humanismo e do Renascimento.
Na
história da música, há o exemplo de Paganini, nascido em 1782. Ele revolucionou
a arte de tocar violino, instrumento cujas raízes são milenares, mas os
primeiros instrumentos foram construídos entre o final do séc. XVI e meados do
séc. XVII. Serviu de inspiração a Brahms e Rachmaninoff.
Baudelaire,
no século XIX, poeta que buscou uma nova maneira de fazer poesia nas imagens
cotidianas, na realidade concreta. A sua maneira de encarar a arte tornou-o
precursor dos poetas do final do séc. XIX. Seu livro de cem poemas As Flores do Mal foi inicialmente
censurado e sofreu rejeição da sociedade.
E.T.A.
Hoffmann, também no final do século XIX, influenciou a literatura posterior a
ele com sua produção fantástica. Misturando as fronteiras entre ficção e
realidade, temas de fantasia e horror, reflexão filosófica. Sua originalidade
sofreu críticas fortes, como costuma acontecer com o inusitado em qualquer
tempo e sociedade, mas não deixou de ser um marco para mudanças na literatura.
Neste
mergulho sobre uns exemplos de erupções artísticas de outras épocas, busco
algum alívio para poder me reabastecer de energia e continuar a resistir às
notícias terríveis de abandono do governo de seus deveres com a saúde pública.
E suas dramáticas consequências.
Não
dá para ser leve no momento, mas é possível pensar e desejar que haverá uma
reação em algum lugar. Tanta coisa imprevisível aconteceu, só depois é que
foram identificados os sinais de seu surgimento. Recuperar fios de esperança é
fundamental. E também compartilhá-los com os outros. O peso do absurdo e da crueldade
precisa ser aliviado e as artes são uma fonte inesgotável de ajuda. As artes são
sempre testemunhas do seu tempo e campo de criatividade e contestação. Por isso
mesmo, os artistas são atacados por governos autoritários como o que está atualmente
acontecendo no país.
Quero,
no entanto, voltar a leveza da esperança nos rompimentos nas artes que a
história nos oferece. A política tem suas próprias regras, mas vários sinais
estão surgindo. Há muitas conversas no ar.