Chega ao fim
mais um ano, um ano de pandemia, um ano letivo. Como serão as férias?
Tenho acompanhado
com uma tristeza sem fim o que está acontecendo com o sistema de ensino no país
e, especificamente, com a escola pública estadual onde fiz minha carreira. Só
depois, fui para o ensino universitário. Outras notícias são igualmente avassaladoras,
mas as referentes à escola pública estadual e municipal – responsáveis pela
entrada das crianças e jovens que não podem ir para uma escola particular –,
são angustiantes. Não são poucos os estudos que comprovam a importância da escola
para as camadas excluídas da sociedade. Além do seu papel central de oferecer e
construir conhecimentos, para muitos alunos, ela foi e continua sendo o único
lugar de socialização protegida fora de casa. Mas há mais. Para muitos, é garantia
de uma refeição decente. Apesar de todos os limites que sabemos existirem, ela
é fundamental na vida de boa parte da população.
A
escola particular para a camada da população que pode pagar, procura
conectar-se às mudanças que têm acontecido de forma acelerada na sociedade nos
últimos cinquenta anos. A escola pública segue aos trancos. Encontramos desinteresse
e omissão do poder público e esforços cada vez mais extenuantes por parte dos
profissionais dentro da escola para aproximar-se desta atualização. São atos de
heroísmo de alguns de seus professores e funcionários.
A ideia de
escola para todos, da escola como alicerce para o futuro do país, da escola
como prioridade para uma sociedade mais equânime são todos princípios
abandonados há muito tempo. A diferença está em que, agora, foram abandonados
até nos discursos oficiais. O descaso com ela está escancarado. Sem a mínima
vergonha. Com esse abandono, vê-se morrer a esperança de que novas gerações consigam
superar-se e tenham condições de vida dignas. A escola pública tem sido
tratada, nos últimos anos, apenas como um problema a gerenciar diante da “falta
de “verbas”. Mantra para a venda do patrimônio público nos três níveis da
administração pública. Argumento que encobre interesses de grupos particulares.
Na primeira
década deste século, tivemos um período em que sonhamos e vimos melhoras
acontecerem. O Ministério da Educação foi reconfigurando a legislação a favor
de uma escola básica plural e com recursos. Projetos para bibliotecas, infraestrutura,
laboratórios, salários dos professores. Enfim, cuidados com a escola como um
todo, como era necessários fazê-lo. Muito ainda havia a ser feito. Eis que o
sonho ampliou-se. A descoberta de enormes jazidas de petróleo, o pré-sal, permitiu
prever uma enorme fonte de recursos para a educação. Enfim, o país destinaria
parte de sua arrecadação a um projeto grandioso. O país distribuiria ganhos
para por em prática o que nações, hoje desenvolvidas, haviam feito para tornar-se
o que são atualmente. Seriam recursos maciços no sistema educacional. Todo
professor deve se lembrar do slogan adotado na época: Pátria Educadora.
O poder econômico
daqui e de além fronteiras não permitiu, com a conivência da parte podre da
política nativa. Foi dado um golpe na política, destituída a Presidenta eleita
e em poucos anos os direitos sociais foram sendo retirados num retrocesso de
décadas. A educação foi atropelada sem piedade, os ataques ao sistema de ensino
da base às universidades se espalharam de forma tão virulenta que deixou todos
atônitos e incrédulos. O pesadelo continua e a sanha da “Casa grande”, para
usar a expressão de Gilberto Freire, continua feroz e não dá trégua. Leva de
roldão toda manifestação das ciências e das artes, invadindo grosseiramente as
instituições e tomando de assalto os cargos de comando para garantir a sua
devastação.
Chegamos em 2020.
Todos sabem, ou deveriam saber, que as camadas desprotegidas sofrem muito mais
com o que está acontecendo. A escola pública também. Sem condições de atender
adequadamente seus alunos on-line,
também não lhe são destinados recursos para receber com segurança seus alunos em
sistema presencial. E mais, uma guerra de informações do governo, seu gestor,
coloca dúvidas sobre o desejo de trabalhar dos próprios professores e
dirigentes escolares. Mais uma vez, resta a rua para muitas crianças e jovens.
O que transmite
a força para continuar a acreditar na mudança de rota, por longínquo que seja o
dia, são as ações de gente lutadora, que não aceita os desmandos e as
injustiças. Algumas são visíveis, outras não. Para quem não está mais em linha
de frente, uma das formas de continuar junto, de se solidarizar, é servir-se
da palavra para que nada seja esquecido. Registrar e denunciar são uma das
formas de enfrentar a impunidade hoje robusta. É preciso fazê-lo sem descanso.
É preciso lembrar. A lembrança fortalece outras formas de lutas.
O esquecimento
seria a maior derrota.
As palavras apoiam,denunciam,não permitem o apagamento. As tuas são sempre de muita sensibilidade e força. Não deixa elas adormecidas, nunca. Bj
ResponderExcluirRetrato preciso de uma situação que o nosso povo menos favorecido não merecia.
ResponderExcluir(Dante)
Estamos vivendo um momento muito confuso, é verdade. É desesperador testemunhar tantos retrocessos, e os reflexos no sistema educacional são terríveis. Mas você tem razão: a nota promissora é dada por gente que se organiza e trabalha para amplificar as vozes de suas comunidades, para não deixar esquecer, para acordar nossos melhores sonhos coletivos. Seu "é preciso lembrar" me remeteu ao documentário do Emicida, AmarElo, um trabalho que me esperançou. Estou entre os que acham que "todo mundo é um tudo, tudo que nóiz tem é nóiz".
ResponderExcluir