segunda-feira, 30 de novembro de 2020

O que fazer?

 

 

    O que fazer? Uma pergunta feita muito tempo atrás continua sempre atual.

            Um político, cuja história o coloca em posição indefensável por já ter estado no poder, com acusações sérias a serem esclarecidas sobre sua forma de gerenciar a cidade, com um discurso de ódio e de mentiras e com comportamentos vulgares, mereceu a maioria dos votos válidos. Votos dos ricos, da classe média e das periferias que sofreram sob a sua administração. Havia uma alternativa. Uma mulher que buscou a alegria, o diálogo, o resgate de uma cidade que privilegiava a cultura, a educação, a ampliação da infraestrutura para a periferia, com diversas políticas sociais, enfim um governo de inclusão. Havia um programa que contemplava tudo isso. A história política da candidata e de seu vice permitia acreditar no que propunham. O fanatismo venceu a razão, a beleza, o entusiasmo e a esperança.  Neste momento, não quero voltar às inumeráveis análises.

            Sei que não vou desistir de lutar do jeito que puder. Sempre. Mas, neste instante, preciso me recolher, ficar quieta, juntar e aquietar meus pensamentos, dizer a mim mesma que haverá outro dia luminoso e precisa ter paciência. Talvez eu não tenha tempo para ela, já vivi a maior parte da minha vida. Agora necessito ficar no meu canto em silêncio sem negar a tristeza

Nada de teorias, nada de explicações, nada de lamentos. Apenas a gratidão por poder isolar-me e desejar que cada um dos que sofrem por não termos conseguido realizar o sonho, que nos parecia tão próximo, consigam se recuperar. Que os mais desfavorecidos socialmente consigam ser protegidos. É preciso, porque o caminho para transformar o que está aí será muito longo. E eu sei que estarei apenas no começo.

Vou lembrar dos meus filhos, dos meus netos, dos meus amigos – próximos e distantes – e me colocarei num grande e confortador abraço.

Preciso de uma trégua para que não me faltem as palavras.

sábado, 28 de novembro de 2020

Fica a aposta

 

Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil,

mas a escolha é um imperativo necessário.”

Luigi Pirandello

 

O homem é capaz das atitudes mais extremas para o bem e para o mal. Sem me aprofundar em teorias que o comprovam, poderia elencar inumeráveis exemplos ao longo da história. Qualquer um pode fazer isso. Mesmo assim, ou justamente por isso, fico estarrecida com a frequência dos comportamentos destrutivos de hoje. A explosão de tais manifestações nos mais distantes cantos do país e em todas as classes sociais, alerta para um período particular e assustador. Tudo isso estava submerso? A complexidade do que acontece é explicada de diferentes formas, mas um modo de estar no mundo martela meu pensamento: o individualismo.

            O que se sobressai, mais do que eu tenha ouvido durante a minha vida, são opiniões sem argumentos e carregadas de emoção que cega e ensurdece. Certamente algumas sempre existiram, mas às vezes eram rechaçadas, outras, com pouca receptividade ou com reciprocidade disfarçada. Lembro que dificilmente alguém assumia publicamente ser de direita, ou ser racista, ou ser odioso. Hoje, os limites se esfumaçaram, existe orgulho de sê-lo. Estas pessoas não se sentem com algum freio, antes, encontram eco e aplausos. Assemelham-se a bolhas que circulam sozinhas, manuseadas por fios invisíveis a agrupá-las aqui e ali para um estardalhaço maior. Ignoram vozes divergentes.  Eu poderoso, eu que está acima de regras sociais, eu que se lixa para o outro, eu sem limites.

            Para contrapor, volto-me aos exemplos da natureza antes da existência do ser humano. Desde a formação da primeira célula, a vida só conseguiu  ser criada porque houve trocas e combinações de moléculas e, quando se formou a película para a sobrevivência da primeira unidade, o intercâmbio entre o dentro e o fora  precisou continuar. Sem trocas, não haveria a produção e a reprodução da vida.  Acelerando a história chegamos ao ser humano com um cérebro fantástico capaz de maravilhas. Um órgão composto de bilhões de células que se comunicam, se entendem, colaboram entre si.  O cientista e professor Miguel Nicolelis, em seu livro O Verdadeiro Criador de Tudo, nos conta como o cérebro humano foi aumentando à medida que o ser humano necessitou criar novas relações com o ambiente e com os semelhantes para a sua sobrevivência. O homem e seu cérebro foram se formando e modificando  até os dias. Ele não tem uma natureza dada.

            Então volto a pensar em como os sujeitos se produzem e reproduzem na contemporânea sociedade capitalista. Nela, o consumo é a medida, a meritocracia é defendida como a verdade, vencer o outro a qualquer custo é a regra. Nesta sociedade, nunca houve, nem haverá lugar digno para todos, porque a premissa é a desigualdade social. A pobreza e a exclusão não são erros de percurso, elas são necessariamente decorrentes do sistema. É ele que produz esta diferença entre seres humanos que podem usufruir dos benefícios do progresso, e outros não. É assim que se constrói o individualismo, que se destrói a rede de colaboração necessária à preservação da vida. E todas as nefastas consequências.

            O que estaremos deixando para as gerações futuras? A nossa singular individualidade só existe num sistema universal. Somos únicos na relação com o outro. Fico torcendo para que as manifestações de solidariedade e cooperação consigam ser bem mais potentes, só assim a humanidade será capaz de preservar a vida terrestre. Espero que minha geração ainda consiga ver sinais desta escolha. Fica a aposta.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Ontem, hoje

 

Isto eu escrevi ontem.

Este é um momento dos mais difíceis para ficar em casa sozinha. Mesmo estando ao início das votações, gostaria de compartilhar o efeito  de  votar na esperança. Conheci vários e muito bons candidatos a vereador, eu teria escolhido alguns deles. Minha opção este ano foi uma candidatura coletiva de uma mulher negra, batalhadora, forte e com ideias que compartilho. A soma de tudo isso me deixa agitada e com vontade de conversar ao vivo. Abraçar quem também está torcendo por uma cidade melhor.

            Espero com toda a força a concretização das previsões. Todos os que continuam resistindo de diferentes formas precisam de uma vitória. Penso que os ideais resgatados nesta campanha foram os que tornaram Porto Alegre mais alegre, mais justa, mais culta, mais humana, no sentido melhor desta palavra algumas legislaturas passadas. Depois se perderam com administrações contrárias ao desejo de um mundo melhor.

            Voltamos a ter esperança. Esta palavra colou em mim. Ela me faz feliz. Ela está espalhada em milhares de toques nas urnas eletrônicas.. Imagino que o mar é a soma de gotas. Também os rios, as nuvens, os lagos. Então, a esperança não é uma formação sólida, mas uma teia formada por pontos localizados nas mãos de tanta gente, que vão tocando as mesmas indicações das teclas em instantes diferentes ao longo do domingo. Imagino uma música que vai tocando devagar e se espalhando, saindo das salas de votação, alcançando os corações de quem sente os mesmos anseios, os mesmos temores, as mesmas tristezas e, agora, a mesma esperança. Uma música que deverá ser bem mais forte que os ruídos opositores que existem ainda.

Hoje, digo que a música não foi tão potente quanto eu desejava, mas ela ecoou em cantos dispersos, manifestaram-se vários sinais de recomeço, por isso continuo a apoiar a voz de quem não se cala. Voz que representa também quem não é ouvido. Orgulho-me de quem continua a lutar pela recuperação de uma cidade que foi alegre e culta, apesar de todos os obstáculos. Recuso-me a desistir.

 

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Através das cidades

 

Depois de muito tempo (estou perdida nele) sinto um fiozinho, ou uma pequena chama, ou um pequeno sussurro de esperança agitando-se no entorno. Ele está sendo suficiente para espantar, ao menos momentaneamente, as ondas de más notícias que continuam sendo lançadas a cada dia. A diferença está que elas não dominam o espaço como há algum tempo.

            É como se estivesse saindo do lodo onde fui jogada depois de ter sido enroscada em cipós. O mundo volta a ser sentido aos poucos, uma aragem, uma nesga de luz, um som. E isso tudo ocupando novamente o ar em volta, delineado com o movimento de um pincel mágico. Algo de muito bom está crescendo em diferentes lugares.

            Passei os últimos tempos gerenciando um turbamento produzido pela saturação da insensatez, da ignorância, do ódio, da negação da vida perto e longe de mim. Incapaz de encontrar um antídoto potente para restabelecer meu equilíbrio, alimentava-me de outras notícias com reações, às vezes vigorosas, mas esparsas. Grupos de gente guerreira: mulheres, gays, negros, trabalhadores, sem teto, professores, motoboys, motoristas de aplicativos, intelectuais, artistas, servidores públicos, aposentados dando voz e contraposição ao poder instituído e destruidor de direitos e da economia do país. Meu corpo recebia tudo isso e procurava se conectar. É como se estivesse recebendo o remédio certo, mas em doses muito pequenas para recuperar a saúde. Era necessária uma terapia maciça para destruir o vírus que estava acometendo o organismo combalido do país e eu dentro dele. Muitas vezes, a sensação era de que a sociedade ainda estivesse em fase de pesquisa para a medicação certa, não era apenas questão de dose.

            Hoje sinto como se todas aquelas reações espalhadas pelo território imenso que é esta terra começassem a frutificar e a se unir como a limalha aproximando-se de um ímã.

            Os deuses do mal continuam agitados e fazendo estragos. Mas, em países vizinhos, o ódio e a ignorância estão sendo derrubados em fortes batalhas.  E, mais ao norte, a facção insana está no escanteio. Na minha cidade, a vilania continua eriçada, mas o desejo de ter de volta políticas sociais e culturais que a fizeram conhecida no mundo todo está crescendo e se espraiando. Ventos cheios de palavras resgatam histórias perdidas onde outro mundo foi possível.

            Acredito que o corpo doído deste país está reagindo e todo o remédio inoculado aqui e ali está conseguindo entrar em circulação e poderá curar as feridas provocadas até agora. Ele está em UTI, evito pensar no tempo que será necessário, mas vejo trilhas abrindo-se através das cidades que poderão se empoderar de nova política. Porto Alegre merece recuperar sua história e fazer parte desta caminhada. Falta pouco.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Onde estão nossas façanhas?


 

Gratidão é o sentimento que me toma cada vez que vejo meus netos menores voltando à escola com todas as regras de proteção exigidas pelo ainda presente vírus. Um deles, em semana alternada. A outra, em horário reduzido. Estão em escolas particulares com todos os recursos necessários. Ambos também com atendimento on-line.

            Tristeza infinita é o que me toma a cada notícia que recebo sobre a situação da escola pública, a qual foi meu local de trabalho com orgulho por décadas.

            Num longínquo 1965, ingressei no Magistério Público Estadual, após concurso. Eu ficava feliz quando me perguntavam sobre o que fazia: Sou professora do Estado. Nesta resposta eu frisava Estado, porque eu sentia orgulho do lugar que ocupava. Nem todos passavam no concurso, eu me sentia empoderada pelo que havia conseguido. Sim, tinha orgulho. Era preciso ter conhecimento de seu campo de trabalho e titulação. A carga horária permitia fôlego e o salário razoável. Não poderia prever a longa e inexorável decadência que a situação sofreria. O orgulho de ter sido professora do Estado permanece, apesar das declarações de menosprezo que o governador (minúsculo) expressou pela categoria. Uma delas: O aposentado não melhora a educação.

            Os anos de trabalho em diferentes escolas estaduais, no interior e na capital, fizeram-me viver intensamente o cotidiano do ensino e da aprendizagem e as lutas que foram necessárias para defender a educação pública. Foram anos de experiências, projetos, disputas de narrativas e de ideias para que a sala de aula oferecesse o melhor para os alunos. No entanto, foram impostas reformas nas leis, atingindo os currículos e o regime de trabalho. A escola foi laboratório de ideias desastradas durante a ditadura e, a cada vez, foi se perdendo a identidade daquela escola pública respeitada e admirada. Algo foi recuperado depois, mas insuficiente. Ainda existem testemunhos nos prédios de algumas delas em numerosas cidades do estado. Como aluna e, no início, como professora, a escola do Estado era mais qualificada que a privada.

            A desqualificação da escola deu-se em três grandes linhas: currículo, recursos para manutenção e aprimoramento dos espaços físicos e salários de professores e funcionários. A história é longa, os currículos foram depauperados (começou em 1971) – depois, em parte reconstruídos com muitos esforços -, os recursos minguados lentamente e, com relação aos professores, destaco o ano de 1974 com a imposição do Plano de Carreira. Foi um brutal arrocho salarial, mas foi o que protegeu a categoria de novas investidas ao longo dos anos posteriores. Nem os governos da ditadura trataram com tal menosprezo a voz dos professores como está fazendo o atual.

            Eis que chegamos ao ano da pandemia. A escola pública é mais um exemplo de como o coronavírus atinge a todos, mas não da mesma forma. Os mais frágeis são mais atingidos e as desigualdades se acentuam. A escola pública em geral não tem os recursos físicos e humanos para poder atender adequadamente, e com os menores riscos possíveis, os seus alunos. Boa parte de seus alunos também não têm recursos adequados em casa para se proteger, nem para receber aulas on-line. Os professores com salários achatados que não lhes permite sequer sobreviver dignamente. E o governo do estado (minúsculo) faz de conta que esta realidade inexiste, embora tenha todos os dados necessários para saber. E sabe.

            Pouco antes de iniciar a pandemia, o governo do estado (minúsculo) massacrou o magistério que lutou com todas as forças de que dispunha para que não tivesse novas perdas. No, entanto, a dignidade das pessoas que lutaram na greve será sempre maior que a pequenez de um governador egocêntrico e cruel que recusa ouvir além do que ele e sua equipe determinam. Dignidade que não impede a tristeza, o desânimo, o estresse e as doenças decorrentes deste estado de coisas permanente.

Onde se perdeu o discurso de educação para todos como fundamental para o desenvolvimento do país? Onde se perdeu a história da escola pública de qualidade do Rio Grande do Sul? Quais são nossas façanhas, hoje, para que sirvam “de modelo a toda Terra”? A memória deste Estado está soterrada para quem está no poder hoje. O tempo se encarregará de julgar este período tenebroso para a educação.