Gratidão é o
sentimento que me toma cada vez que vejo meus netos menores voltando à escola
com todas as regras de proteção exigidas pelo ainda presente vírus. Um deles,
em semana alternada. A outra, em horário reduzido. Estão em escolas
particulares com todos os recursos necessários. Ambos também com atendimento
on-line.
Tristeza
infinita é o que me toma a cada notícia que recebo sobre a situação da escola
pública, a qual foi meu local de trabalho com orgulho por décadas.
Num
longínquo 1965, ingressei no Magistério Público Estadual, após concurso. Eu
ficava feliz quando me perguntavam sobre o que fazia: Sou professora do Estado. Nesta resposta eu frisava Estado, porque eu sentia orgulho do
lugar que ocupava. Nem todos passavam no concurso, eu me sentia empoderada pelo
que havia conseguido. Sim, tinha orgulho. Era preciso ter conhecimento de seu
campo de trabalho e titulação. A carga horária permitia fôlego e o salário
razoável. Não poderia prever a longa e inexorável decadência que a situação
sofreria. O orgulho de ter sido professora do Estado permanece, apesar das
declarações de menosprezo que o governador (minúsculo) expressou pela
categoria. Uma delas: O aposentado não
melhora a educação.
Os
anos de trabalho em diferentes escolas estaduais, no interior e na capital,
fizeram-me viver intensamente o cotidiano do ensino e da aprendizagem e as
lutas que foram necessárias para defender a educação pública. Foram anos de
experiências, projetos, disputas de narrativas e de ideias para que a sala de
aula oferecesse o melhor para os alunos. No entanto, foram impostas reformas
nas leis, atingindo os currículos e o regime de trabalho. A escola foi laboratório
de ideias desastradas durante a ditadura e, a cada vez, foi se perdendo a
identidade daquela escola pública respeitada e admirada. Algo foi recuperado
depois, mas insuficiente. Ainda existem testemunhos nos prédios de algumas
delas em numerosas cidades do estado. Como aluna e, no início, como professora,
a escola do Estado era mais qualificada que a privada.
A
desqualificação da escola deu-se em três grandes linhas: currículo, recursos
para manutenção e aprimoramento dos espaços físicos e salários de professores e
funcionários. A história é longa, os currículos foram depauperados
(começou em 1971) – depois, em parte reconstruídos com muitos esforços -, os
recursos minguados lentamente e, com relação aos professores, destaco o ano de
1974 com a imposição do Plano de Carreira. Foi um brutal arrocho salarial, mas foi
o que protegeu a categoria de novas investidas ao longo dos anos posteriores.
Nem os governos da ditadura trataram com tal menosprezo a voz dos professores
como está fazendo o atual.
Eis
que chegamos ao ano da pandemia. A escola pública é mais um exemplo de como o
coronavírus atinge a todos, mas não da mesma forma. Os mais frágeis são mais
atingidos e as desigualdades se acentuam. A escola pública em geral não tem os
recursos físicos e humanos para poder atender adequadamente, e com os menores
riscos possíveis, os seus alunos. Boa parte de seus alunos também não têm
recursos adequados em casa para se proteger, nem para receber aulas on-line. Os
professores com salários achatados que não lhes permite sequer sobreviver
dignamente. E o governo do estado (minúsculo) faz de conta que esta realidade
inexiste, embora tenha todos os dados necessários para saber. E sabe.
Pouco
antes de iniciar a pandemia, o governo do estado (minúsculo) massacrou o
magistério que lutou com todas as forças de que dispunha para que não tivesse
novas perdas. No, entanto, a dignidade das pessoas que lutaram na greve será sempre
maior que a pequenez de um governador egocêntrico e cruel que recusa ouvir além
do que ele e sua equipe determinam. Dignidade que não impede a tristeza, o
desânimo, o estresse e as doenças decorrentes deste estado de coisas
permanente.
Onde se perdeu o
discurso de educação para todos como fundamental para o desenvolvimento do
país? Onde se perdeu a história da escola pública de qualidade do Rio Grande do
Sul? Quais são nossas façanhas, hoje, para que sirvam “de modelo a toda Terra”?
A memória deste Estado está soterrada para quem está no poder hoje. O tempo se encarregará
de julgar este período tenebroso para a educação.