O ministro do
Meio-Ambiente reunido em Fernando de Noronha com o Ministro do Turismo e
empresários num restaurante. O que poderá ser? Diante do que tem acontecido no país,
só podemos temer por mais medidas que permitam a destruição do que ainda existe
de natureza preservada.
As outras notícias
sobre a destruição da Amazônia, o Pantanal incendiado, o fim de direitos civis,
um novo escândalo envolvendo integrantes do atual governo do país, decisões
arbitrárias da justiça, arquivamento de processos que deveriam ir adiante,
abertura de novos processos contra quem se opõe aos horrores que estão
acontecendo, tudo isto é prato renovado todo o dia. Pior ainda, denúncias sobre
os horrores praticados pelo sistema judiciário através da Lava Jato são feitas
no país há mais de um ano e nada acontece contra quem os praticou. Mas é
preciso continuar a denunciar. É preciso saber que a palavra contra as
injustiças continue a ser dita.
Tudo
isso, enquanto continua ativa uma vertente das mais dolorosas do que acontece
no país: a repressão a grupos de pessoas em situação das mais vulneráveis. Um
destes grupos é dos que não conseguem ter uma moradia digna, não conseguem
pagar um aluguel, não conseguem estar no conforto da proteção de um teto. São
milhões em diferentes cidades. Só por escrever esta situação sinto-me num mundo
irreal e impossível de aceitar. Mas existe e está mais ou menos próximo de
qualquer um de nós. E sua palavra não é ouvida.
No outro dia, assisti
um vídeo onde um candidato falava de sua primeira experiência ao morar numa
ocupação junto a dezenas de famílias sem moradia. Uma manhã bem cedo, sem
aviso, sem ordem de despejo, foram abalroados pelas “forças da ordem” do
Estado. Falar em truculência é redundância. Quem ainda estava em casa conseguiu
a duras penas salvar alguns pertences. Quem já tinha saído para o trabalho,
perdeu tudo. Homens, mulheres, crianças e velhos tratados como lixo. Bombas,
cassetetes, máquinas para destruir o que encontrasse pela frente, em poucos
minutos o terreno foi desocupado e a propriedade particular preservada. Uma
propriedade sem qualquer proveito há muitos anos e de um dono que devia cifras
enormes em impostos. A palavra dele foi ouvida.
O fato narrado
não é algo isolado, é coisa triste que faz parte de nossa história. O que
pensar diante da indiferença de tantos? Diante da incapacidade de barrar
crueldades contra pessoas? Diante do crescente sentimento de que caminhamos
cada vez mais para um individualismo corrosivo, cada um cuidando do que é seu?
Mil perguntas surgem sobre o que mais poderá acontecer. Poucas respostas sobre
a capacidade da sociedade de reverter este caminho neste momento.
A constatação de
“perderam o pudor” afirmada por Chico Buarque e “a verdade não interessa, é
assustador” dito por Wagner Moura reforçam o que vemos acontecer ao nosso
redor. Se dois artistas chegam a essas conclusões, eles que são capazes de
produzir obras que ajudam a elevar nossa capacidade de compreender o mundo,
sentimos ainda mais o peso da brutalidade exercida em nome do Estado.
Então, é mais necessário
do que nunca resistir com a forma de que se é capaz. A palavra continua
necessária e é através dela que muitos continuam a lutar, inclusive os dois maravilhosos
artistas. Apesar de tudo, ou por causa de tudo o que está acontecendo.
Igualmente, vêm
em nosso auxílio as palavras de Nico Nicolaiewsky com sua voz inesquecível: só cai quem voa.
Que verdade dolorida
ResponderExcluirPrecisamos combater o mal com palavras tem razão já que em nossas mãos a arma é a caneta.
Parabéns pela escrita.😍😘
Doído,triste, pois verdadeiro. Fizeste das palavras,resistência. Não importa quantas vezes o voo para todos for alvejado por tantos desumanos, voltaremos a voar. Bjd
ResponderExcluirNunca eu ia imaginar que passávamos a viver em um estado de excessão, só não se concretiza, porque ainda outros poderes agem impedindo as decisões desastradas deste desgoverno. Mas eles tem tentado em várias instâncias. Texto perfeito! Um abraço!
ResponderExcluirParabéns pela tua percepção em momentos tão sombrios. Denunciar é o que nos resta e acreditar que, apesar de tudo, há pessoas honestas tentando barrar as atrocidades cometidas. Que os outros poderes ajam fazendo valer a Constituição.
ResponderExcluirDepois de quase um ano espiando o mundo por janelas eletrônicas, quebrando a condição solitária por telas pequenas de celular, analisando-me para amenizar a dor da perda de um amor inesquecível, lendo e escrevendo para tentar tornar compreensível o espetáculo que você tão bem descreveu no seu texto, só posso aproveitar a beleza da sua conclusão, nas palavras de Nico Nicolaiewsky: só cai quem voa, e gente como nós não consegue viver sem voar. Grande abraço amigo.
ResponderExcluirResistir é preciso. Denunciar pela palavra essa triste realidade em que vemos leis despidas de Justiça preponderarem neste país desgovernado é nossa missão, é o que podemos fazer.Bravo, Maria Rosa. Avante!
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