quinta-feira, 2 de abril de 2020

Novo caminho


Tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo em todos os países. Não sei se sonhei ou se li. No redemoinho de notícias que me chegam, há momentos em que me confundo. Não sei se li ou se sonhei que era preciso parar a guerra na Síria. Os fugitivos dela estavam se espalhando desamparados. Haverá mais desamparo do que na guerra?
            Então me perguntei: E na Líbia? E no Iraque?  E em outros países já esquecidos?
            Então me perguntei: E nas periferias das grandes cidades?  E nos cárceres? E nas casas onde existe violência doméstica?
            Então me perguntei: E na periferia de minha cidade? E nos cárceres que existem ali? E nas casas de onde ouvem gritos de socorro?
            Então me perguntei: E nos meus pensamentos de intolerância?
            Ouvi um médico do norte da Itália dizer que estava acontecendo num dia o que usualmente acontecia em oito meses.
            Então me perguntei se já não havíamos sido avisados de alguma forma do que iria acontecer? Avisados aos poucos. Uma inundação onde nunca havia acontecido, geleiras do norte e do sul derretendo ano após ano, termômetros acusando temperaturas endoidecidas, retorno de pragas a devastar plantações, retorno de doenças erradicadas há anos, contaminação cada vez mais extensa de rios e mares. Tudo veiculado na globalizada rede de informações.
            Vozes de diferentes cantos se fazem ouvir há muito tempo. Cientistas, ONGS, instituições, vozes isoladas, e vozes reunidas aos milhares e aos milhões já se pronunciaram. E continuam a se pronunciar.
            Mas continuamos a consumir mais do que necessitamos para viver com conforto. Consumir, porque nos acostumamos a fazê-lo. E continuamos a suportar as guerras externas e internas. As guerras necessárias para a posse de mais e mais recursos para sustentar o consumo. E continuamos a contaminar e a depredar a natureza para nosso consumo. E continuamos a consumir como se o pudéssemos fazer indefinidamente, enclausurados numa surdez e numa cegueira autofágicas.
Às vezes, até concordamos que alguma coisa tem que mudar, que não podemos continuar assim. Momentos de lucidez colocados de lado a seguir.
Então, chega um vírus. Enfrentamos tantos, daríamos conta deste também. Foi o dito no início. Este, no entanto, driblou conjecturas e antecipações. Os cientistas aceleram  suas pesquisas, dezenas de artigos são publicados e dados revistos. Não temos remédio para ele. Testamos medicamentos conhecidos. Apostamos na vitória da ciência em pouco tempo.
Enquanto isso, milhares de idosos morrem sem piedade. Milhares de pessoas com alguma patologia também são ceifados. E o vírus não se satisfaz, chega aos mais jovens. Tudo acontecendo muito rápido, desafiando a capacidade de atendimento dos infectados, apesar dos esforços e do trabalho heroico de médicos, enfermeiros, trabalhadores e voluntários.
Faz-me pensar que a natureza cansou dos avisos que vem dando aos poucos há anos. Faz-me pensar numa terra que cansou de ser maltratada. Enxergo tudo como se a terra escrava se rebelasse, gritasse basta e atacasse quem sempre a violentou.
Enquanto acompanho o que está ocorrendo, procuro fazer a minha parte. Permaneço isolada e ajudo no que me é possível para o atendimento daqueles que estão em situação mais frágil do que a minha.
Enquanto isso,  espero que daqui a algum tempo, não sei quanto, se possa dizer que a rebeldia da terra valeu, que a melhor parte da humanidade se fortaleceu e foi vitoriosa. Com isso, não imagino que a humanidade chegou ao fim de uma caminhada, mas ao início de outra. Espero.

3 comentários:

  1. Tanto em tão poucas palavras se pensarmos nos discursos vazios que ouvimos há anos.

    ResponderExcluir
  2. Eu também me encho de perguntas. É um hábito, em tempos bons e outros nem tanto. Restrições a que estamos tendo que nos submeter, neste momento, estão me levando a perguntar diretamente sobre meus hábitos de classe, "privilegiada" apenas porque tem direitos garantidos. A compreensão intelectual tenho de longa data, estou falando agora da conexão direta e única com as minhas necessidades. Um processo. Você colocou muito bem. Estou ciente de que uma parte de nós vai ampliar compreensões ao nível não do que pensa, mas do que sente. Uma delas sendo a da nossa fragilidade comum, das nossas incompetências humanas, de que ninguém sabe, todos tateamos à procura de respostas. Que as respostas sirvam à construção de um mundo novo. Não tenho muitas ilusões sobre a nossa geração, mas alguma fé na dos meus netos. Vide a Greta. Grande e afetuoso abraço, Maria Rosa. Cuide-se.

    ResponderExcluir
  3. Esperamos que essa fase dolorosa bjs ensine algo de bom, esperamos.

    ResponderExcluir