Há semanas que se sabia. Lia-se em
diversos sites, mensagens de celular,
conversas, análises apocalípticas. Estas últimas, talvez, nos tenham afastado
da ideia, no início, de que ele realmente iria chegar até aqui. A tendência era
descrer do excesso. Só os hipocondríacos ou os paranoicos é que deram
importância para as antecipações. Outros ousaram se beneficiar com a dúvida.
Ou, ao menos, as temperaturas daqui não o deixariam se procriar, diziam.
Uma manhã,
soube-se que uma pessoa estava infectada a apenas dezenas de quilômetros. Muito
próximo. Ele agia há milhares e milhares de quilômetros daqui. A tão enaltecida
globalização o favoreceu. Além de agressivo, os humanos o tornaram veloz. Como
eles, viajou fácil até aqui. Aliás, um humano o trouxe consigo. E continuará
viajando. Com a diferença de que não sabemos quais traçados que ele escolherá.
Então, começaram
as análises. Faça isso, Não faça aquilo. Limpe isso. Limpe aquilo. Use tal
produto. Use o outro. Ele dura um dia. Ele dura dois dias. É uma gripe. Não é
uma gripe. Os americanos o criaram. A China o criou. Tal remédio cura. Nada
cura. Mata só os idosos. Mata os adultos. Criança é imune. Criança não é imune.
Um espirro dá sinal dele. Um espirro é só alergia. Sem sintomas não contagia.
Contagia sem sintomas. Tomas vitamina C + Z . Não adianta tomar. Gargareja água
com sal. Não adianta gargarejar. Toma sol do meio-dia. Tomar sol a essa hora dá
câncer. Faz exercícios regularmente. Não se faz sem personal. Ouve música. Só música dançante. Deixa um sapato na
porta. Não adianta. Sai só pra levar o cachorro a passear. Não pode, o cachorro
também vai se infectar. Bicho não se infecta. Os idosos devem ficar em casa.
Eles precisam de ar ao aberto. As crianças devem ser isoladas. Elas também
precisam de espaço aberto. Quem pode, trabalhe em casa. Quem não pode também
não sai.
Quem é autônomo
já foi dispensado. Quem acreditou no sonho do pequeno empreendedor, no negócio
próprio, independente, dono de si mesmo, sem patrão, terá que se virar.
Fecha escola.
Fecha academia. Fecha salão de beleza. Fecham pequenos negócios.
Circulam os
entregadores. O que transportarão além dos pedidos? Riscos?
Vai chegar o
inverno. Vacinas da gripe foram antecipadas. Idosos podem ir para as redes de
farmácias. Grandes regiões da cidade nem farmácias têm. Alguns Postos de Saúde
foram fechados.
Dizem que vamos
aprender com essa tragédia. O coronavírus atingirá a todos igualmente de uma ou
de outra maneira. Vamos aprender os verdadeiros valores da vida, aprenderemos a
ser solidários, a gastar menos, a valorizar a amizade e a própria família, a
não desperdiçar, a sermos generosos, a nos vermos como iguais.
O covid19
atingirá a todos de uma ou outra maneira. Sim. Mas, não somos iguais. Haverá
quem não entenderá sequer o que seja isolamento, porque seu espaço comporta
muitas pessoas, jovens e velhos. O
transporte público nem chega lá, muito menos um táxi ou um carro de aplicativo.
Não tem como estocar um alimento, nunca conseguiu. Água, luz, coleta de lixo,
esgoto, um policial fazendo ronda, são coisas, vistas funcionando nas novelas
da televisão.
Então, há quem
nem tenha ouvido que ele chegaria. Ou, se ouviu, não acreditou. Ou se
acreditou, seria uma gripezinha. Reforçado pelo desvario de um presidente que
nega a ciência e qualquer ideia de racionalidade. Se a Justiça neste momento
funcionasse como deveria, já o teria destituído. Não somos iguais.
Talvez, ainda
pior, seja porque há quem tem acesso a toda informação e apoia o mandatário
tresloucado. Todos eles deveriam ser mandados para seu líder, quando fossem
atingidos, para que pudessem compartilhar ideias e consequências, num grande congraçamento
particular, em isolamento, sem fazer os outros sofrerem. Porque eles também serão
atingidos com certeza. Embora não sejamos iguais.
Mas,
infelizmente as coisas não funcionam assim. Eles serão socorridos por aqueles
que acreditaram e se prepararam. E o custo será muito alto. E será maior para alguns
do que para outros, porque não somos iguais.
Que momento triste e desesperador. Somos um barco à deriva, chutando vários pra fora, que, na sua grande maioria, nunca aprenderam a nadar, pois estavam se debatendo para não se afogarem. Triste texto, mas verdadeiro.
ResponderExcluirMuito bom o seu artigo. Inacreditável a situação em que nos encontramos; você retratou muito bem o ioiô emocional das opiniões. Não somos iguais e o animal humano não, não aprende. Tristeza que afoga as esperanças esta minha.
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