quarta-feira, 4 de março de 2020

Estarei aqui



            Não tive vontade de escapar deste mundo até pouco tempo atrás. Não é questão de idade. Não é questão de depressão. Encaro bem os anos vividos, vejo-me até privilegiada dadas as condições em que me encontro. Muitas vezes fiquei triste e encolhida diante do presencio e ouço. É o preço que pago por continuar vivendo, digo a mim mesma. Alegro-me com o que tenho, com um prato de massa al dente ou um aroma de flores (coisa rara numa cidade grande) ou uma gentileza na fila do supermercado ou no ônibus. Sou profundamente agradecida por isso, e por todas as pequenas manifestações cordiais testemunhadas em minhas andanças pela cidade no dia a dia.
No entanto, a profusão de acontecimentos ignóbeis no meu entorno e no país – sem falar na situação mundial –, nos últimos tempos, estão se apresentando em tal volume que conseguiram sacudir e rachar minha confiança na humanidade. A vida se encarregou de destruir a certeza de que o bem vence o mal, construída através da leitura das histórias em quadrinhos de minha infância. Troquei a certeza pela esperança, mas hoje, ela está tão desnutrida que, se pudesse, voltaria àquele tempo dos heróis que vencem sempre. Bobagem, digo-me, não tem retorno. Naquela época eu tinha medos e ansiedade por outros motivos. Eu sei.
            Junto às questões sem resposta que me tenho colocado, emerge um sentimento de impotência que me faz estrangeira por onde ando. Momentos de suspensão deste sentimento corrosivo são os que convivo com meus netos. É onde me sinto útil enquanto ajudo os pais a protegê-los e a amá-los. Dois atos fundamentais para que cresçam da melhor forma possível. Eis que, um dia, no espaço de uma conversa da qual nem lembro, meu neto de oito anos perguntou: “Tu vai tá aqui quando eu tiver um filho, vó?” Ele me pegou tão de surpresa que só respondi: “Acho que não”.
Só depois que ele foi embora é que a pergunta voltou. Feitas as contas, há possibilidades matemáticas, mas minha longevidade não é só uma questão de números. Minha negativa talvez estivesse associada a uma questão de resistir ao esfacelamento do mundo globalizado que testemunho. A minha geração apostou na interferência política, mas esta foi tragada pelo poder econômico. O mundo que vejo e no qual já vivi a maior parte do meu tempo mostra progresso geométrico incrível. A medicina cura, a engenharia constrói obras fantásticas, a indústria lança novos produtos em tempo recorde, máquinas cada vez mais sofisticadas oferecem mais e mais conforto, estamos a um passo da comercialização de robôs para afazeres domésticos, a astronomia desvenda os segredos do universo. Tudo isso, no entanto, para uma minoria. Como a história nos mostra, as beiradas estão sempre distantes apesar de próximas. Inatingidas, desprezadas. Apesar de todo avanço científico, milhões de seres humanos continuam a não ter acesso sequer à agua potável, quando temos casas inteligentes onde o chuveiro lança seu jato por um simples gesto de erguer a mão. Milhões não sabem o que é uma rede de esgotos, enquanto outros nem precisam mais premer o botão da descarga do seu vaso sanitário.
 Lutei de diferentes maneiras para que o mundo fosse melhor. E não vejo que isso esteja acontecendo. Não sei o que faltou para a minha geração fazer, foi feito o possível e não foi suficiente.  Hoje, aposto nas lutas das mulheres, dos trabalhadores, dos intelectuais, de todos os considerados diferentes pelos que se acham a referência do bem. Aposto também que encontrarão novas formas de fazê-lo. O que mais tenho feito é apostar. É minha maneira de seguir a vida.
Então, mesmo com a perspectiva de um mundo instável, com temor pelos meus netos e por todos os netos do mundo, admito o desejo de receber e abraçar um bisneto. No equilíbrio instável de querer abandonar este mundo que se desagrega, e a aposta na renovação da vida com todas as suas possibilidades, respondo a meu neto: se depender de mim, estarei aqui.

7 comentários:

  1. Lindo texto, Rosa!
    Estaremos aqui!

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  2. Rosa querida,teu texto, eu poderia dizer, fala por mim. Um misto de desilusão e teimosia em acreditar que tudo passa. Passa o desânimo e que ainda poderemos ver um lugar melhor para nossos netos. Não creio que seja uma questão de idade(até pode também ser), mas é mais uma questão de consciência. A lucidez por vezes nos entristece. Gostei muito das tuas palavras. Beijo grande!

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  3. Maravilhoso texto..sinto é visualizo cada frase...parabéns

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  4. Precisamos que estejas aqui, mostrando a todos nós como ser tão coerente e íntegra. Lindo texto.

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  5. A aposta é a esperança... Mas quão difícil está apostar nela. Nestes últimos dias, TB pensei várias vezes nestas diferenças entre ter muito e não ter o básico; entre estar vivo e viver de fato. O equilíbrio instável, que a idade TB traz. Admiro teu desejo de apostar, mesmo não mais acreditando que o bem não vence o mal. Um abraço ❤️

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  6. Retrata bem a realidade tão difícil, a preocupação com o futuro. Sao questões de todos nós. És admirável!!! Muito obrigado!

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  7. Se depender de mim, estarei aqui
    Achei demais de lindo ..🌹

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