Fui
para o encontro com algumas expectativas: Mulheres artistas: questões atuais –
Interseccionalidade. Não conhecia as palestrantes.
Os feminicídios continuam
nas notícias diárias, acusando uma situação que nenhum progresso científico
conseguiu mudar. É muito duro presenciar tudo isso, não apenas por ser mulher, mas
por ser parte da humanidade, neste momento tremendamente insana e cruel.
Mulheres
artistas, um chamamento duplo, porque associo mulher e artista a uma abertura
maior à criatividade e às questões do mundo. Quando governos ditatoriais se
instalam, a classe artística é uma das primeiras a serem reprimidas. As mulheres
têm sido sempre reprimidas e em primeiro lugar.
Questões atuais,
isto me anuncia encontrar fontes para alimentar as esperanças que ainda tenho.
Sinto-me num liquidificador a cada vez que acesso as últimas notícias. Rodopio
em giros de palavras grotescas e em ideias vergonhosas. Sofro num labirinto do
qual não consigo sair. Busco brechas nos muros que incessantemente são
levantados.
Por fim,
Intersccionalidade, palavra que não circula desenvolta nas conversas diárias,
mas sugere novas conexões. Principalmente novas. Misturo desejo e especulações
sobre o tema enquanto aguardo as falas.
Pouco
a pouco as três palestrantes me oferecem
percursos de mulheres e rede de proteção, mulheres e sexualidade, mulheres e
gênero, mulheres e escrita, mulheres e formação intelectual, mulheres e
angústia, mulheres e submissão, mulheres e esperança, mulheres e protagonismo.
Histórias de mulheres. Algumas das incontáveis que constroem a história. A expansão
do espaço e tempo em que as mulheres se mostram, se afirmam, se dizem mulheres,
se protegem. Lutam.
Há,
no entanto, uma bifurcação nas narrativas.
Duas mulheres
falam de experiências fortes dentro de um mundo predominantemente de pele
branca. Suas lutas e desafios soam conhecidos, ampliam histórias, criam
empatia, mas não sacodem o já sabido.
As outras duas
mulheres, que falam por último, no entanto, funcionam como um ímã para onde
minha atenção se expande. Suas histórias têm a ver com o que foi dito pelas
antecessoras, mas há nelas um tempo e um espaço que não se regem pelas mesmas
medidas. Contam-nos de lutas por cotas nas universidades, por um lugar social
ainda não conquistado, por um redobrado esforço por qualquer direito. Um poema,
declamado com a emoção saindo de cada poro, uma poeta nos escancarou tantas
coisas, mas resumo na frase: “Eu sou uma mulher negra vinte e quatro horas por
dia”.
Estas mulheres,
todas artistas, mostraram interseccionalidade entre as várias questões. Mas ser
negra marca seu lugar primevo, mesmo que a escravidão tenha sido abolida há
mais de cem anos. Sua origem marca-a antes de qualquer reivindicação.
As lutas destas
mulheres, que é minha, precisa incorporar todas as lutas diferenciadas dentro
delas. Há diferenças que exigem voz para se juntar a uma voz mais potente. As
mulheres negras ali representadas escancararam que, para se fazer ouvir, têm
que botar o pé na porta antes de tudo. Haverá um “botar o pé na porta antes de
tudo” também para outras vozes.
Querida amiga! Precisamos continuar a colocar o pé na porta. Segue firme tua luta é a de muitas e lutar por aquelas que estão ainda no meio da cortina de fumaça. Uma cortina que vai e vem. Mas seguiremos fortes e tu és essencial para essa luta. Mulher guerreira e amorosa! Saudades, abraço
ResponderExcluirSou uma mulher Negra vinte quatro horas por dia e coloco o pé na porta .
ResponderExcluirmuito bom o texto e de fato é uma luta árdua diária e incansável onde nunca se perde porque não há o que se perder já que não se conquistou. Penso eu que nossa luta de hoje representa o amanhã de luta dos mais jovens assim como a luta de nossas anscestrais nos representam hoje e há o que lutar ainda e muito. Muito obrigada 🌹