segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Bombas ou fogos de artifício


Vejo um pai que ri com sua filha, uma menina de poucos anos. No fundo ouve-se a explosão de bombas?  Pai e filha falam uma língua diversa da minha, mas pode-se compreender a cumplicidade entre eles e sua alegria. A explicação vem em off: o pai diz à menina que ouvem fogos de artifício, antecipa-lhe a chegada dos sons e, quando chegam, riem. O pai sabe que há uma guerra lá fora e o que ocorre próximo a eles. Aquele pai faz sua filhinha brincar despreocupadamente como tem direito de o fazer. Distancia a criança da tragédia que os está engolindo. Talvez, por poucos instantes.
            Esta cena me acompanha durante dias e me deixa desacomodada, incrédula, admirada. Vejo aquele pai protegendo sua filha como pode. O pouco que pode é tudo, brinca com ela, deixa-a alegre. A cena tira-me da zona de desesperança em que me encontro, me faz pensar. Como é possível descolar-se de um perigo tão grande como a morte próxima, e criar uma fantasia de vida?
            Todas as manhãs, caio em meio à explosão de bombas. Notícias locais e nacionais me atingem como petardos. Não são paredes que caem, nem veículos estraçalhados ou crateras nas vizinhanças, mas trazem mortes, muitas mortes, encobertas com um  manto de legalidade e de justiça, e geradas por uma guerra de ódio e de indiferença. Elas destroem esperanças, resistências, energias de quem se importa e não finge ignorância. Um estrago mental e psíquico menos visível a olho nu. Quem sabe?
            Não sei o que aconteceu àquele pai com sua filha. Gostaria de saber que foram salvos. No entanto, se tiverem sucumbido, eles permanecem na lembrança como um ato de amor embrionário, primeiro, originário. Sei que não é o único ato de amor no meio da guerra, desta e de tantas outras. Lembro as palavras do personagem de Hatoum “A imaginação não seria uma realidade possível em qualquer lugar do mundo?” Recapturo  minha crença na possibilidade do imprevisível e a esperança de construção de um mundo melhor.
Que as bombas se transformem em fogos de artifício!

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Imunidade




            De tempo em tempo somos confrontados e ameaçados por novo vírus. E acumulamos medo. Ou achamos que é mais um e passará. Mas a imprensa continuará sua função de informar. Pena que haja tanta exploração interesseira nestes eventos. Nem sempre é a verdade o foco real. Reaparecem litígios políticos antigos entre nações, disputas de vaidades entre intelectuais e cientistas e muitas fakenews nestes tempos de moralidade estropiada. Por detrás de tudo, interesses econômicos. Sempre eles.
Lembrando os acontecimentos mais recentes, em 2000, KPC (Klebsiella Pneumoniae Carbapenemase), a “superbactéria”, foi identificada pela primeira vez nos Estados Unidos.  A KPC podia causar pneumonia e várias outras enfermidades que podiam evoluir para um quadro de infecção generalizada, muitas vezes, mortal. Um quadro mais perigoso para quem tem imunidade baixa.
Em 2002 surgiu a SARS em inglês “Severe Acute Respiratory Syndrome” causada pelo coronavírus associado à SARS (SARS-CoV). O SARS-CoV se disseminou rapidamente causando em torno de 800 mortes, antes da epidemia global de SARS ser controlada em 2003. De novo, a baixa imunidade  associada às mortes.
Em 2012, foi isolado outro novo coronavírus, distinto daquele que causou a SARS no começo da década passada. Pela localização dos casos, a doença passou a ser designada como síndrome respiratória do Oriente Médio, cuja sigla é MERS, do inglês “Middle East Respiratory Syndrome” e o novo vírus nomeado coronavírus associado à MERS (MERS-CoV). Aqui também parece que a imunidade baixa deu sua contribuição aos casos de morte.
E chegamos a 2020, com o coronarívus chamado Covid-19. Repete-se a tragédia.
Nesta história, são exibidos números, baixas das bolsas, negócios suspensos, voos cancelados, diminuição de turistas, mortes, curas, perdas na economia, empresas atingidas. Muito pouco sobre o sofrimento e a angústia que podem ter tomado conta de cada pessoa. Alguma conjetura sobre ações preventivas deste tipo de epidemia? Não tomou lugar de destaque. Alguma especulação, sim, sobre a responsabilidade no retardo para a tomada de decisões sobre o caso. Uma rápida notícia sobre o falecimento do médico que não foi ouvido acerca do perigo do vírus. E o rápido surgimento do preconceito sobre os chineses. O vírus é deles e eles que fiquem ou voltem para a sua terra. É o que foi ouvido em diversas partes do planeta.
O mundo sempre elege um culpado para seus medos. Não importa a distância que exista entre o temor e a mentira eleita para servir de alvo.
Os medos e as anomalias no comportamento humano diante de uma ameaça - atualmente têm ocorrido muitas, além do atual coronavírus -, têm mostrado uma relação entre a baixa imunidade do indivíduo e sua derrota diante da doença em geral. Assim parecem se mostrar os grupos humanos. Geram preconceitos com mais rapidez e em abundância aqueles que mais se deixam amedrontar. E aqueles que se deixam mais rapidamente amedrontar são os mais ignorantes. Ou, com baixa imunidade diante das fakenews, das arbitrariedades, das agressões, das afrontas, das crueldades. O sujeito torna-se um indivíduo abatido.
Vejo que a imunidade física ou psíquica individual pode assemelhar-se à de um grupo social. Vejo a imunidade “social” ligada às reservas acumuladas de conhecimento em todas as suas manifestações, científicas, históricas ou artísticas.
Assim, quando olhamos o que acontece hoje no nosso país, não só diante do último coronavírus, enxergamos um corpo doente. Ele não tinha reservas.  Ele havia adoecido há muito tempo e não percebíamos ou não queríamos ver. Ao longo da história, não fortalecemos laços identitários de nossas lutas por uma sociedade mais justa, de nossas criações artísticas, de nossas pesquisas científicas, enfim de um povo orgulhoso de seus feitos e com uma vontade tenaz de corrigir os erros do passado. Esta seria a garantia de nossa imunidade. Hoje, ela está tão baixa que, de todos os lados de nosso corpo social, ressurgem vírus que julgávamos extintos. O fanatismo agigantou-se diante da razão e faz aparecer o que de pior o ser humano é capaz. Todo um arcabouço de conquistas sociais não se alavancou em reservas imunitárias, está soçobrando, e as manifestações de resistência parecem mais fracas. A solidariedade, a compaixão, o respeito pelo outro, a generosidade surgem espalhadas por todo o território. No entanto, parecem insuficientes.
Minha aposta é que as forças emocionais e racionais que ainda resistem na nossa sociedade sejam o substrato imunitário capaz de se multiplicar e colocar de pé esta terra tão maltratada. Deixemos o atual coronavírus de lado, nosso maior inimigo sempre esteve entre nós e passa pela ignorância e pela indiferença. Estas é que se constituem nos vírus que solapam nossa imunidade.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Retornos


Retornos

A imagem permanece. Guardada? Adormecida? Cuidada? Preservada? Quiçá embalsamada? Que nome devo dar-lhe? Ela reaparece como se tudo tivesse acontecido há pouco tempo.  O certo é que ela continua a reaparecer e a me emocionar.      
Hoje, são os riscos brancos num céu totalmente azul que a trazem de volta. Uma imagem fixada poucos anos atrás no pátio da casa de minha prima, numa das viagens de retorno. Mas na minha lembrança não há riscos no céu, é uma sirene que avisa a chegada dos aviões. Era preciso correr para o abrigo enquanto cobria a cabeça com o casacão vermelho arrancado detrás da porta da cozinha. Naquela foto os riscos eram inofensivos, vinham de aviões que decolavam próximo dali, sem sirenes, nem rumores.  
Esta lembrança juntou-se à conversa com alguém da região que vim a conhecer em meu último retorno. Tenho retornado ciclicamente. Ele contou que durante a guerra havia um campo de aviação militar do outro lado do rio. Informação que preencheu um vácuo. Então, fora ali que meu pai servira como militar, só sabia que ele fora mecânico de aviões. Com esta pincelada no quadro daquele período compreendi a perseguição dos nazistas em sua retirada pelo norte do país. O enfrentamento de minha mãe com os fuzis apontados para ela. Sua coragem em negar o conhecido esconderijo do marido. Ouvi esta e outras histórias inúmeras vezes. A guerra estava ao redor de nós naqueles anos em meio aos quais nasci. A sirene, o rumor dos aviões e o abrigo são tatuagens em minha memória. Outras guerras se sucederam. Mesmo longínquas são sempre próximas.  O perto e o longe se avizinharam fatidicamente.
            A emigração da família ocorreu poucos anos após o fim da guerra. Primeiros tempos no Brasil, eu não suportava os fragores da Esquadrilha da Fumaça, não entendia as comemorações. Era insuportável, eu tapava os ouvidos e ia me esconder sob as cobertas. Os anos foram passando e me convenceram que aquele perigo havia passado. Outros rumores perigosos nos acompanham hoje.
            Nem sei se ainda existe a Esquadrilha da Fumaça. Recentemente vi um espetáculo de jatos que desenhavam a bandeira italiana: La tricolore. Minha admiração ficou turvada pela memória. Não há mais temor, mas a lembrança da tenra infância cola-se obsessivamente e reaviva sentimentos.
            Viajei diversas vezes próximo às faixas brancas que se dissolvem aos poucos. Voos, rumores e riscos no céu já não me ameaçam. Não temo mais a sirene. No entanto, aquela lembrança cola-se ao mundo atual que não aprendeu a abominar a guerra. O sofrimento dos outros, hoje, é o mesmo de todas as outras guerras e eu continuo a fazer parte da tragédia, mesmo num outro papel.
            Não existem mais sirenes, os aviões foram aprimorados, chegam rápidos e de surpresa. E matam muito mais.