Já o observei inúmeras vezes e sempre me
causa novas impressões. Lembro-o em imagens cinza, não sei qual é sua cor
verdadeira. Verdadeira não é exatamente a melhor palavra, mas é a que me ocorre
agora. Talvez seja porque é a cor da argamassa, mas naquela época não havia
argamassa. Ou será que a memória me
oferece uma fakenew. De qualquer modo
sua cor não é sempre a mesma, depende de como se apresenta o céu. Depende da
estação do ano. Depende da hora do dia. Depende do meu olhar mais ou menos
atento. Hoje ele se apresenta dourado. Hoje, estou diante dele ao vivo, não é
uma imagem em papel ou no computador. E parei para contemplá-lo sem pressa. Não
é um dourado uniforme, no alto há uma faixa de cor mais intensa e, à medida que
o olhar escorre para baixo, o dourado suaviza até se tornar opaco, quando a
sombra o recobre. Nem a sombra, no entanto, o desmancha. No fundo de seus arcos
vazados vê-se o céu de um azul claro, esmaecido, próprio daqueles momentos que
anunciam o entardecer. A sombra vai subindo.
Lembro
de ter lido que originalmente fora recoberto de mármore. Durante séculos foi despido
dele para recobrir outras construções em diferentes partes do país. As marcas
que ficaram em toda a sua superfície parecem buracos de projéteis e testemunham
a depredação. Em algum momento da história foi dito um basta. Ele começou a ser
preservado, cuidado, reparado para estancar a ação do tempo. Nas imediações,
vestígios do que foi o império que o construiu. Milhões de pessoas o visitam
todo o ano. Dizem que é o lugar mais procurado no mundo. Pode ser. Mais de dois
mil anos de história se espalharam pelo planeta sob sua influência.
No
entanto, o vivido nos dias de hoje com seus modos atualizados de fazer as guerras,
suas contradições, seu retorno a formas arcaicas de pensar e de se relacionar,
alimenta o desânimo. Tudo o que o império
representado neste Coliseu que resiste ao tempo parece não ter sido capaz de
ensinar às gerações que se sucederam. A história e a memória não atingem
igualmente os seres humanos. A ciência e o progresso não foram capazes de
disseminar igualmente as experiências do passado. Sem isso, a história se
mostrará sempre em fragmentos e o caminho de muitos será sempre a partir do
zero.
É
como se perguntar qual a cor do Coliseu a cada vez que o contemplamos.
Bela descrição das impressões visuais que te apareceram nesta recente visita ao Coliseu.
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