domingo, 19 de janeiro de 2020

As cores da história


Já o observei inúmeras vezes e sempre me causa novas impressões. Lembro-o em imagens cinza, não sei qual é sua cor verdadeira. Verdadeira não é exatamente a melhor palavra, mas é a que me ocorre agora. Talvez seja porque é a cor da argamassa, mas naquela época não havia argamassa.  Ou será que a memória me oferece uma fakenew. De qualquer modo sua cor não é sempre a mesma, depende de como se apresenta o céu. Depende da estação do ano. Depende da hora do dia. Depende do meu olhar mais ou menos atento. Hoje ele se apresenta dourado. Hoje, estou diante dele ao vivo, não é uma imagem em papel ou no computador. E parei para contemplá-lo sem pressa. Não é um dourado uniforme, no alto há uma faixa de cor mais intensa e, à medida que o olhar escorre para baixo, o dourado suaviza até se tornar opaco, quando a sombra o recobre. Nem a sombra, no entanto, o desmancha. No fundo de seus arcos vazados vê-se o céu de um azul claro, esmaecido, próprio daqueles momentos que anunciam o entardecer. A sombra vai subindo.
            Lembro de ter lido que originalmente fora recoberto de mármore. Durante séculos foi despido dele para recobrir outras construções em diferentes partes do país. As marcas que ficaram em toda a sua superfície parecem buracos de projéteis e testemunham a depredação. Em algum momento da história foi dito um basta. Ele começou a ser preservado, cuidado, reparado para estancar a ação do tempo. Nas imediações, vestígios do que foi o império que o construiu. Milhões de pessoas o visitam todo o ano. Dizem que é o lugar mais procurado no mundo. Pode ser. Mais de dois mil anos de história se espalharam pelo planeta sob sua influência.
            No entanto, o vivido nos dias de hoje com seus modos atualizados de fazer as guerras, suas contradições, seu retorno a formas arcaicas de pensar e de se relacionar, alimenta  o desânimo. Tudo o que o império representado neste Coliseu que resiste ao tempo parece não ter sido capaz de ensinar às gerações que se sucederam. A história e a memória não atingem igualmente os seres humanos. A ciência e o progresso não foram capazes de disseminar igualmente as experiências do passado. Sem isso, a história se mostrará sempre em fragmentos e o caminho de muitos será sempre a partir do zero.
            É como se perguntar qual a cor do Coliseu a cada vez que o contemplamos.
           
           
           
           

Um comentário:

  1. Bela descrição das impressões visuais que te apareceram nesta recente visita ao Coliseu.

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