sexta-feira, 24 de maio de 2019

Diante da beleza


Mergulhei logo na grandiosidade das esculturas romanas junto ao fluxo incessante de pessoas de todo o mundo. Era o início do caminho pelo primeiro corredor da Galleria degli Uffizi e, adiante, fui atraída pelo colorido vermelho e azul numa composição com muito ouro dos quadros da idade média.  Um desfile de belezas que faz esquecer onde se está e o que viemos fazer ali, nesta fartura de criações oferecidas por mais de dois milênios de história.
Nomes famosos, alguns conhecidos para mim, outros nem tanto. Pinturas já vistas em inumeráveis publicações estão ali a centímetros de meus olhos e de minhas mãos. A reverência diante de tanto esplendor, mais do que a interdição para alcançá-las, impede o gesto de aproximação. O maior museu renascentista do mundo é apenas uma parte do que a humanidade criou desde sempre.
Então, entrei na sala em que vejo o quadro. Naquele instante compreendi o que já sabia, porque Leonardo da Vinci é considerado um gênio, sem lembrar suas invenções. Toda a beleza em sua perfeição estava diante de mim na Anunciação. Sou uma apreciadora das artes, não tenho conhecimentos específicos da área, encanto-me ou não diante do que vejo. Ali fui atraída como limalha ao ímã. Mais do que explicar os porquês de meu encantamento, surpreendo-me com o que sinto. Não sendo a primeira vez que vejo obras de Leonardo, estar presente, no entanto, me coloca em outra dimensão. Esqueci o havia visto até então na Galleria, fico imóvel diante da pintura a óleo sem me perturbar com o movimento de tanta gente que também está ali. Aos poucos dou forma ao meu encantamento, vejo a presença do ouro com parcimônia, o azul na veste de Nossa Senhora, também um pouco de vermelho, este acentuado nas vestes do anjo que fala com a Virgem. A distribuição de claridade e sombras dão uma sensação de grande profundidade na paisagem e servem de contorno aos semblantes dos dois personagens. Estes encontram-se envoltos no ato da Anunciação, evento que mudará o curso dos milênios seguintes. Há no conjunto da pintura uma aura de sublime acontecimento.
Sinto prazer em repassar o olhar inúmeras vezes sobre os detalhes e sobre o conjunto dos elementos que se me oferecem. Qualquer cansaço desaparece e rastreio a beleza, estou presa por ela num estado suspenso da realidade. Gostaria de permanecer nesta condição. No entanto o tempo segue.
Volto à minha condição, é hora de sair da Galleria. Retorno ao mundo de fora com uma carga emocional que me alimentará por muito tempo. Devaneio sobre o papel da arte na vida do ser humano. Sou grata por esta experiência há tanto tempo desejada. Lamento a inexistência para grande da humanidade de contatos com a beleza, encantamento e provocações advindos das artes. Um mundo que produz subjetividade sensível, que abre portas a outros pensares, que contribui para a realização de outras potencialidades no ser humano.
Recuso pensar que o Brasil está caminhando na contramão disto tudo, com todas as consequências para a atual e futuras gerações. Desejo que aumentem as resistências existentes. No entanto, os temores me cutucam, por isso mesmo opto por, ao menos por algum tempo, agarrar-me à beleza que acabei de ver.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

O sorriso e a ponte




É uma ponte sobre o rio, apenas uma ponte para olhos desatentos. Mas se o olhar se volta para contemplá-la, ela se mostra sólida e tranquila. O formato em arcadas e os grossos pilares, maiores que a pista sobre ela, indica uma idade avançada. Os registros apontam sua construção no séc. XIII, mas supõe-se que havia outra antes, à época dos romanos, porque por ali passa até hoje uma das tantas vias que eles deixaram em boa parte da Europa.

            Quanta história impregna este conjunto de pedras areníticas, que sobreviveu a séculos de uso e à segunda guerra mundial, oferecendo uma paisagem perpetuada ao fundo do quadro de Mona Lisa de Leonardo da Vinci. Hoje, são automóveis que invadem seguidamente esse caminho, um mundo inimaginável cinco séculos atrás. No começo da ponte, um sorriso enigmático a testemunhar que o artista esteve por lá a pintar sua obra.

            Sob as arcadas passa o rio Arno que, após serpentear na Toscana e tocar muitos pequenos aglomerados urbanos, lança-se no Tirreno. Ele corta Florença e faz parte do conjunto histórico e cultural visitado por milhões de pessoas todos os anos. Marca também a história contemporânea da cidade quando enlouqueceu e a invadiu em 1966. Aqui ele é manso. Um arvoredo denso com seu verde de primavera ocupa suas margens. Tem a superfície enrugada, fazendo os raios do sol piscarem com seu movimento.
            Tranquilidade e força, história e esquecimento, natureza e criatividade concentrados num dos inumeráveis lugares fascinantes da Itália. Aqui se respira um ar de irrealidade diante dos testemunhos da história do homem, e do que sabemos ele ter se tornado por aqui e alhures.
            De todo modo, um lugar que inspira a refletir sobre a própria identidade e o futuro que nos aguarda, num presente tumultuado que parece não ter aprendido com a história.