segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Felicidade, onde?




Os livros trazem infelicidade, trazem dúvidas. Não precisamos de pensamentos diferentes, nossa felicidade está na certeza de uma só verdade. Nós queremos ser felizes. Estas são algumas das crenças do mundo narrado no filme do homônimo livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, escrito em 1953. Um mundo onde ter um livro é considerado um crime e pago com a morte.
            Poucos anos antes, George Orwell, escreveu 1984, e trata de tema semelhante. Não narra a queima de livros, mas a eliminação do pensamento divergente.  O controle do sujeito numa sociedade onde deve prevalecer também uma verdade única.
            Bradbury se inspira na sociedade americana. Orwell faz uma crítica ao regime soviético. As duas realidades com ideários distintos.

            Sem aprofundar as semelhanças e diferenças entre os dois sistemas, chamou-me a atenção a ideia de felicidade propagandeada na sociedade descrita por Bradbury. Ela me remeteu a uma crônica de Umberto Eco de 2014 “O direito à felicidade”. Nela, o autor coloca a suspeita de que muitos dos problemas que nos afligem hoje seriam devidos à formulação da Declaração de Independência  americana de e de julho de 1776 onde está escrito que “todos os homens são dotados do direito à vida, à liberdade e à felicidade”.
Eco nos agracia com um retorno a alguns filósofos que tratam da questão da felicidade desde antes da era Cristã. Falam de sua efemeridade e, principalmente, do seu caráter individual. Hoje, destaca como ela se enraíza no mundo da publicidade e dos consumos. Comprar alguma coisa é ser feliz. Publicidade nos alcança a todo o momento e jamais mostra um produto relacionado ao trabalho que o produziu. Parece que esta história precisa ser negada. No entanto, ao menos na Constituição Italiana, o artigo primeiro afirma que o país está fundado no trabalho.
Voltando à questão da felicidade, Eco encerra sua crônica dizendo que a Declaração de Independência deveria ter reconhecido o “direito-dever de reduzir a cota de infelicidade no mundo, inclusive naturalmente a nossa”. A história dos E. Unidos mostra estar mais próxima do livro de Bradbury e de ter seguido o princípio da felicidade individual, sem dever para com o outro. Apesar do acúmulo de riquezas e dos seus progressos científicos, alguma coisa está dando errado na sociedade americana. O sonho de felicidade não é alcançado por milhões de seus cidadãos. Não bastasse o conjunto das estatísticas, a expectativa de vida do americano está caindo e está aumentando a mortalidade por suicídio, acidentes e overdoses de drogas ilícitas.  
No nosso país, a mortalidade tem estatísticas muito tristes. A nossa história sofre contínuos apagamentos, numa diversidade de queimadas. Defender os livros, simbolicamente e materialmente, mostra-se, hoje, uma necessidade tão urgente quanto na realidade de Bradbury e Orwell. Nem a Declaração de Independência americana é defendida por aqui.

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