Uma
história que nos mostra como a cultura é fonte de rebeldia e pode fazer a
diferença na escolha de um caminho para a própria vida.
A história
começa com João Carneiro da Fontoura, de Chaves em Portugal, cuja família viera
das Astúrias onde cristãos lutavam para expulsar os mouros. E com Isabel, filha
de Gabriel Ignácio, do acampamento cigano nas cercanias de Lisboa, onde seus
antepassados estavam radicados há cerca de duzentos anos.
Ele, dragão d’El
Rei D. João V, cansado das mentiras e intrigas da corte, embarcou para a
colônia Brasil onde tinha o sonho de ajudar a estabelecer uma sociedade melhor
e mais justa. Ela acompanhou seu povo expulso de Portugal e embarcado para a
mesma colônia.
Início do século
XVIII, um homem e uma mulher que viviam além de seu tempo. Ele um homem que lia
Camões. Ela uma mulher que sabia ler e refletia sobre as histórias que
assimilava. Encontraram-se em terras brasileiras e se uniram contra todas as
convenções. Os horrores que João presenciou em Minas Gerais onde aportou o
desiludiram e não o deixaram compactuar com as falcatruas, roubos e tratamento
aos escravos. A saga do encontro e vida com Isabel, e os perigos que ela e seu
povo enfrentavam com a inquisição em seu encalço, é narrada de modo atraente. A
ida para o Rio de Janeiro e, depois, para o Rio Grande do Sul; a formação de
uma família numerosa; o exemplo de ética e de sabedoria dos dois; tudo se
constituiu num embrião que produziu frutos por várias gerações e espalhou descendentes
pelo Brasil afora.
“João Carneiro
da Fontoura, quando atacado pela vida, embebia-se em poesia e recomendava aos
filhos para fazerem o mesmo”, isso incluía as filhas mulheres, incomum para a
época.
O cruzamento destes
dois seres deu à história uma família numerosa, e vários homens e mulheres que
se destacaram. Uma delas, Isabel
Dorothea, filha de José Carneiro da
Fontoura, neta de João, conhecedora e encantada com as histórias de seus avós,
conhece o comendador João Simões Lopes, emigrado de Portugal durante a invasão
de Bonaparte.
No entanto, o
destino das mulheres não fugia a uma
realidade que as cerceava: casarem e terem numerosos filhos, num cotidiano que
as limitavam nos movimentos de independência e participação em outras esferas
da vida.
Isabel Dorothea
e João tiveram vários filhos, dos quais João Simões Lopes Filho. Este teve
formação no Rio de Janeiro e uma visão de mundo diferenciada. Mas repetiu seu
tempo com uma descendência enorme com três mulheres. Entre eles Catão Bonifácio,
pai de Simões Lopes Neto (1865-1916). Este, um escritor que penetrou a alma dos
homens de seu tempo e a registrou para a posteridade.
Nesta história,
escrita de forma atraente, onde as subjetividades se destacam no panorama da
história do país e do estado, há o testemunho da importância do acesso à
formação cultural para a produção de espírito aberto ao mundo, às diferenças,
às possibilidades de criação de outras realidades e rompimento de condicionantes.
Infelizmente,
seres excepcionais e em pequeno número não conseguem revolucionar uma
sociedade. O testemunho, no entanto, é fermento para quantos acreditam no
caminho da cultura, das artes, do estudo, de participação social como
trajetória política em busca de um mundo mais justo.