quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Recorte

Um retrato do país pode ser visto em poucas dezenas de metros da rua da Praia. Onde antigamente passeavam os abastados, esparramam-se pelo chão panos estendidos com as mais variadas quinquilharias: brinquedos baratos,  objetos eletrônicos, relógios, CDs e uma colorida espécie de roupas e tênis de marca. Arrisca-se afirmar que sua procedência é o sudeste asiático pelas vias eternas das margens do sistema fiscal.
As lojas que margeiam esta fileira central da rua também mudaram. Não existem mais aquelas que fizeram sucesso e atraíam a parcela da população próspera. Sobram uma ou outra, mas tudo se popularizou.
O comércio da rua lembra o apinhado de bancas da Mal. Floriano junto à Praça XV antes de ser varrido para o horrendo camelódromo suspenso sobre o terminal de ônibus entre a Voluntários da Pátria e a Júlio de Castilhos. Prédio que parece ser antigo, e ser necessária a sua demolição para dar lugar a algo melhor para o centro da cidade e para os trabalhadores que diuturnamente passam por ali. No entanto tem poucos anos de vida e uma história escusa para a sua construção.
Este comércio informal é desobediente, porque em poucos segundos desaparece com a chegada de uma van da fiscalização municipal. Deve existir algum código de aviso antecipatório. Tudo é muito rápido. Um tempo para a rua ficar à disposição só dos pedestres, de algum artesão autorizado e do grupo de indígenas com seus produtos. Mas volta depois, conforme os hábitos já conhecidos do surgimento e saída dos homens da lei. Parece um movimento pendular arbitrário de um relógio invisível e desconjuntado.
            Um incessante caminhar acontece pelos lados destas mercadorias expostas.
          Quem compra ali?, pergunto. Já sei a resposta, são aqueles que dificilmente ou nunca teriam acesso a brinquedos dentro das normas de segurança e a produtos com controle de qualidade. No entanto, a origem das mercadorias em qualquer loja pode ser a mesma, e as mãos que os fabricam podem sofrer a mesma exploração. O que une tudo isso é a invisibilidade da produção.

           Cada vez mais, este tipo de comércio é uma saída para quem está na ponta mais exposta do desarranjo do mundo do trabalho, da perda de direitos sociais, de abandono das políticas públicas de inclusão social. É um termômetro do que sucede no país em nível macro, mesmo que a população envolvida nem sempre entenda porque está ali. E a temperatura da exclusão continua subindo. Como se desdobrará esta história?

2 comentários:

  1. Excelente!! Trata de uma "subcondição banalizada", uma subcondição tornada condição! Texto muito conveniente aos dias atuais! :)

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  2. Ótimas e sensíveis reflexões!

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