segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Cantos

Releio um Canto da Divina Comédia de Dante Alighieri todas as manhãs. Encontrei esta forma de começar o dia há algum tempo, e sem premeditação. Assim como em certo momento a gente decide que vai caminhar três vezes por semana, ou que vai tomar água antes de dormir, ou quaisquer outras resoluções. Nestas últimas, no entanto, há sempre algo consciente que foi elaborado em doses preliminares e convergem com alguns fundamentos inconscientes.
No caso da leitura, no entanto, parecia ter sido acidental. Se acreditarmos nesta palavra. Arrumando uma pilha de livros fora de lugar, encontrei o volume Purgatório. Não o guardei, deixei-o sobre a mesa da cozinha onde tomo café de manhã. Havia um marcador no Canto XXII. Na manhã seguinte, enquanto sorvia o primeiro gole, folheei o livro, observei alguns trechos sublinhados, mas não lembrava de havê-lo lido. Então fui ao início, como sempre faço. Li as “orelhas”, iniciei o prefácio e o encanto aconteceu. Não me dei conta de ter terminado o café. Eu tinha que sair naquela manhã e  devia interromper o momento prazeroso, embora tendo despertado para a realidade no trecho “E se pensarmos que a Europa, e a Itália em especial, já desde o século XI se encaminhava para uma vida de dinamismo burguês que deixara para trás a imobilidade da vida feudal, chegando por volta do final do século XIII e início do século XIV, na época pois de Dante, a uma explosão de costumes e de modos de vida e a contrastes de interesses sociais capazes de abalar os alicerces de toda a sociedade...”.
Então fui pensando no que estava acontecendo no país, sete séculos depois Um golpe contra uma Presidenta eleita democraticamente, e no lugar um grupo de políticos com um passado nebuloso, e em cujas mãos o país está sendo vendido a troco de bananas para grupos internacionais. Um sistema judiciário onde pesam suspeitas de partidarização e outras acusações mais sérias. Um congresso onde leis as mais retrógradas e contra os interesses da maioria da população, a que trabalha sob condições opressoras, estão sendo votadas cinicamente.
No mundo, as guerras continuam tão ou mais cruéis do que sempre foram. Milhões de pessoas massacradas e expulsas de suas casas em nome de religiões e dos mais variados motivos, sem terem o acolhimento devido nos lugares para onde são empurradas pelo desespero.
Um tempo em que parecem ser mais fortes o individualismo e a incapacidade de se colocar no lugar do outro. Então detenho-me na dúvida sobre se realmente evoluímos ou se apenas atualizamos nossos erros com o auxílio dos avanços das ciências, das tecnologias, da comunicação que alcança todos os cantos do planeta.

Dante visava a salvação moral da humanidade repassando séculos de história. A cada manhã, procuro nos seus Cantos uma inspiração. Se não encontro respostas como gostaria, e sei que não as vou encontrar, começo o dia com a delícia de uma leitura que me convida a sair da pequenez da lamúria e a viajar na grandeza da arte pela palavra.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Em busca de harmonia

                Foi na crônica Era uma Vez o Parque da Menina Má de Moisés Mendes que tomei conhecimento do desparecimento do Parque Salazar em Lima no ano de 1998 para dar lugar a um centro comercial a céu aberto. Por sua vez, Mendes tomou conhecimento do acontecido por um artigo de Vargas Llosa, no qual lamentava que o lugar mágico frequentado por ele nos anos 1950 tivesse sido transformado em lugar de consumo. A falésia que abrigara palmeiras e canteiros de gerânios havia sido escavada com um buraco enorme e o empreendimento ficou encravado no paredão. Tudo isso mereceu comparações de Mendes com as possibilidades de empreendimentos na orla no nosso rio Guaíba (alinho-me com os estudiosos que defendem essa nomenclatura).
            Relembro, então, as manifestações que têm ocorrido em Porto Alegre para que projetos insanos não progridam, para que não prevaleçam interesse imobiliários, e para que a revitalização da orla mereça ser feita à base dos interesses de toda a cidade com o cuidado de não lhe levar ordas de veículos e concentração de massa construída num lugar com uma já grande densidade populacional. Isto, além de tudo, alteraria o microclima do centro e dos entornos, com todas as consequências para uma pior qualidade de vida, direta ou indiretamente, de toda população.
            Não é por falta de estudos que Porto Alegre deve aceitar um projeto com centro comercial, hotéis, prédios de dezenas de andares a fazer cortina para a brisa que suaviza o calor nas ruas já emparedadas de grandes edifícios e onde circulam milhares de pessoas todos os dias. Quem se beneficiaria com isso? Esta é a pergunta a ser respondida com honestidade.
            Não é por falta de conhecimento e de exemplos pelo mundo afora que não possamos escolher um projeto que harmonize um menor impacto nas margens de nosso rio com a sua modernização para que mais e mais pessoas usufruam do que ali for feito.
        Sem entrar no mérito do quanto cada império destruiu e saqueou o território conquistado ao longo da história, ficou-me a lembrança especial de um lugar na Sicília, o teatro greco-romano de Taormina. Foi erguido pelos gregos possivelmente no século III a.C. e, posteriormente, recebeu intervenções dos romanos no século II d.C. É possível ainda hoje, ver as marcas dos dois povos, a degradação do tempo e a conservação feita nos dias de hoje. Um testemunho da história milenar que por ali se desenrolou e sobre ele, a partir dos anos 1950, a recuperação do indispensável para a realização de espetáculo teatrais ao aberto, concertos, cerimônias de premiação do David di Donatello, concertos sinfônicos, óperas e balé. Estes são alguns dos exemplos do que ocorre ali.
            Não temos aqui testemunhos da grandeza de uma estrutura greco-romana, mas temos as instalações do cais, a usina do gasômetro,  a beleza das margens, das águas, das cores e da brisa de um lugar que pode e deve ser apreciado e usufruído por todos. Sem escavações e centro comercial é possível remodelar e preservar nossa história.

Então o que se fizer ali não pode se render à lógica dos negócios e dos rendimentos que dizem respeito a apenas uma parte dos habitantes da cidade e à custa de alguma perda para todos.