O trânsito um caos, atravessar uma rua é
aventura certa. No entanto, as línguas de carros que deslizam pelas ruas cruzam-se,
cortam-se, misturam-se numa dança ininterrupta, não são ameaçadoras, não são
agressivas. Num primeiro momento há o medo de enfrentá-las, há o desejo de
encontrar uma alternativa que não percorrer aquele vazio que deve ser
ultrapassado para chegar à outra calçada. Na inexistência de outra opção, os
passos levam e não acontece nada, a salvação é alcançada sem problemas. Apenas
a incerteza da decisão dos carros que se aproximam sobre ti, mas eles param,
sempre param, mesmo que joguem contigo o jogo prepotente da máquina contra um
corpo humano e te constranjam com sua proximidade. Difícil é aceitar o ritmo do
piscar dos semáforos, da conversão livre à direita enquanto os pedestres exigem
seu direito de preferência. Os romanos se divertem ressaltando a diferença
deles com o resto do mundo. Em qualquer cidade, a visão de uma faixa de listras
brancas avisa para diminuir a velocidade. Em Roma, aceleram e, talvez, consigam
alcançar o pedestre até em cima da calçada. Em vários dias na cidade, porém,
não vimos um acidente sequer e nenhum atropelamento. Pelo contrário, as pessoas
atravessam as ruas nos lugares os mais diversos, como vingança e exercício de
sua vontade apesar de tudo. E tudo funciona, tudo anda, como se aquela
(des)ordem fosse introjetada de tal forma que todos se desculpassem por uma desobediência
causada pela beleza da cidade que não se poupa em oferecer-se. A arquitetura de
diferentes épocas, bordada por ruas ondem pinheiros mediterrâneos centenários
olham para o céu em pose de modelo. As ruínas romanas integradas a igrejas que
deram sua última palavra contra os deuses antigos. Outras ruínas a testemunhar
um império que teima em se vangloriar século após século e nos provoca
interrogações sobre o que somos nós nos dias de hoje. Uma cidade que, também
ela, não escapou à invasão das pequenas lojas de produtos chineses, denunciada
por algum cartaz orgulhoso com os dizeres “aqui tudo é feito na Itália”. O café
maravilhoso, o cornetto ou brioche – vuoto ou com marmellata, o panino com
a mozzarella verdadeira, com a mesma qualidade em qualquer pequeno bar. Tudo
isso entremeado com a visão de obeliscos roubados aos egípcios, obras de
Bernini e outros grandes a enfeitar praças espalhadas por toda a cidade. Sinais
de um mundo maravilhoso de artes resguardadas nos tantos museus a serem
explorados pouco a pouco, porque é inominável a criação artística de séculos de
mãos e olhos a serviço da cristianidade que se assentou pelas terras itálicas.
Inútil
procurar uma frase única que englobe o que é Roma. Ela é simplesmente linda e
convida a caminhar para ser admirada com vagar aceitando as surpresas que
oferece a todo o instante. Merece procurar o caminho que leva até ela.


Que olhar sensível frente a tanta beleza! que convite a conhecer essa cultura...obrigada Mirosa por compartilhar com tanta poesia tua viagem!
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