sábado, 10 de dezembro de 2016

Caos e beleza



O trânsito um caos, atravessar uma rua é aventura certa. No entanto, as línguas de carros que deslizam pelas ruas cruzam-se, cortam-se, misturam-se numa dança ininterrupta, não são ameaçadoras, não são agressivas. Num primeiro momento há o medo de enfrentá-las, há o desejo de encontrar uma alternativa que não percorrer aquele vazio que deve ser ultrapassado para chegar à outra calçada. Na inexistência de outra opção, os passos levam e não acontece nada, a salvação é alcançada sem problemas. Apenas a incerteza da decisão dos carros que se aproximam sobre ti, mas eles param, sempre param, mesmo que joguem contigo o jogo prepotente da máquina contra um corpo humano e te constranjam com sua proximidade. Difícil é aceitar o ritmo do piscar dos semáforos, da conversão livre à direita enquanto os pedestres exigem seu direito de preferência. Os romanos se divertem ressaltando a diferença deles com o resto do mundo. Em qualquer cidade, a visão de uma faixa de listras brancas avisa para diminuir a velocidade. Em Roma, aceleram e, talvez, consigam alcançar o pedestre até em cima da calçada. Em vários dias na cidade, porém, não vimos um acidente sequer e nenhum atropelamento. Pelo contrário, as pessoas atravessam as ruas nos lugares os mais diversos, como vingança e exercício de sua vontade apesar de tudo. E tudo funciona, tudo anda, como se aquela (des)ordem fosse introjetada de tal forma que todos se desculpassem por uma desobediência causada pela beleza da cidade que não se poupa em oferecer-se. A arquitetura de diferentes épocas, bordada por ruas ondem pinheiros mediterrâneos centenários olham para o céu em pose de modelo. As ruínas romanas integradas a igrejas que deram sua última palavra contra os deuses antigos. Outras ruínas a testemunhar um império que teima em se vangloriar século após século e nos provoca interrogações sobre o que somos nós nos dias de hoje. Uma cidade que, também ela, não escapou à invasão das pequenas lojas de produtos chineses, denunciada por algum cartaz orgulhoso com os dizeres “aqui tudo é feito na Itália”. O café maravilhoso, o cornetto ou brioche – vuoto ou com marmellata, o panino com a mozzarella verdadeira, com a mesma qualidade em qualquer pequeno bar. Tudo isso entremeado com a visão de obeliscos roubados aos egípcios, obras de Bernini e outros grandes a enfeitar praças espalhadas por toda a cidade. Sinais de um mundo maravilhoso de artes resguardadas nos tantos museus a serem explorados pouco a pouco, porque é inominável a criação artística de séculos de mãos e olhos a serviço da cristianidade que se assentou pelas terras itálicas.

            Inútil procurar uma frase única que englobe o que é Roma. Ela é simplesmente linda e convida a caminhar para ser admirada com vagar aceitando as surpresas que oferece a todo o instante. Merece procurar o caminho que leva até ela.

Um comentário:

  1. Que olhar sensível frente a tanta beleza! que convite a conhecer essa cultura...obrigada Mirosa por compartilhar com tanta poesia tua viagem!

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