Temperos e
flores
Existem ações
humanas que exalam um tal mau cheiro como o que escapa de um ralo de pia,
quando muda o tempo. Elas tem se multiplicado ultimamente como cogumelos depois
de um dia de chuva. O tempo mudou. O mau cheiro penetra todas as frestas, todas
as gavetas, todos os cantos. Um mau cheiro que impregna os poros, os cabelos,
as cavidades, e nos sufoca. A gente sabia, mas ainda tinha esperança que não
mudasse. Talvez não fosse esperança, mas teimosia. Uma teimosia que nasceu
com o desejo de não perder o pouco que se alcançou. Mas há gente que consegue
viver à vontade neste ar contaminado. E acha que é bom, porque se contaminou
primeiro com os pratos embalados no ódio a toda diferença, na insensibilidade
diante da fragilidade do outro e na ânsia de poder. E tem aqueles que fingem
não sentir o fedor, tapando o nariz e dizendo a si mesmos que logo vai passar.
É preciso
lembrar que os dias sucedem às noites, como a primavera sempre vem após o
inverno. Há que se esperar pelos ventos e chuvaradas que levarão aos rios e
mares a sujeira a ser engolida e transformada. Enquanto isso, limpemos chão, paredes
e armários. Espalhemos alecrim e manjericão. O perfume dos jasmins logo nos
alcançará.