sexta-feira, 22 de abril de 2016

Resistir



Tento compreender obsessivamente como chegamos a esse ponto de hipocrisia e mediocridade de grande parte da sociedade brasileira. Claro que há o PIG, Partido da Imprensa Golpista, como nos diz Paulo Henrique Amorim, e todos os mecanismos de poder para difundir mentiras, meias verdades ou escolher a omissão. No entanto, há também informações em inúmeros canais que se contrapõem, mas  são refutadas por muitos com um escudo anti-razão.
É aqui que reaparece uma palavra há tanto tempo esquecida: mistificação. Com ela veio-me à mente a palestra onde foi proferida e em que época. Estudante de uma Faculdade no interior do Estado no período que antecedeu o golpe militar de 64, ouvia o então brilhante professor Ernani Fiori da UFRGS e me assombrei com a descoberta do mecanismo de mentir a si próprio pela aceitação da verdade deturpada e, assim, estar em paz por ter criado para si o lado certo. Hoje este mecanismo mostrou o quanto é poderoso e capaz de se atualizar e se reinventar. A grande e velha mídia continua a mesma, mas os mecanismos de transformar tudo em mercadoria, tudo com um preço, tudo com a ilusão de poder comprar a felicidade, se associaram de tal forma que o pensamento de grande parte da população parece ter se transformado numa incontrolável e esponjosa gelatina. Mistificação das massas pela indústria cultural à venda.
Deve ser por isso que a palavra me reaparece depois de muito tempo guardada, e utilizada várias vezes ao longo da vida para me desvelar o mundo. Justamente hoje ela se faz viva, quando tantos estão à deriva tentando organizar-me na busca de alternativas para enfrentar os tempos sombrios que se estão instalando. O interessante é que ela relutou em ser acessada, não se ofereceu prontamente. Primeiro lembrei que ela existia, mas era mais uma sensação do que uma palavra, algo anunciado que eu conhecia, mas não conseguia nomear. Depois lembrei da palestra e, aí também, o nome do filósofo surgiu no esforço de rastreá-lo quem sabe em que parte infinitesimal de meu cérebro. Fui à procura dele, porque a palavra se recusava a comparecer. Com o mestre presente, ela cedeu e veio a seguir. Mistificação. Mestre e palavra continuam a ser fundamentais depois de mais de sessenta anos. A explicação da sociedade mistificada da época ampliou o olhar de uma estudante ávida de saber. Não impediu o golpe, mas deixou uma semente na cabeça de quantos estavam a esperá-la. Ele estava no caminho certo, por isso foi ceifado.
Refaço o caminho e vejo que a palavra não me impediu equívocos posteriores, mas impediu que eu permanecesse neles. Foram necessárias situações de confronto com a realidade, de encontros com pessoas e ideias, de necessidade de tomar decisões que foram construindo minha visão de mundo e de uma postura íntegra diante dele. Aquela palavra foi seminal para me salvar quando  no limite de me perder.
Mais uma vez volto a ela e reforço a certeza de que nem tudo está perdido. A palavra ajuda a encontrarmos canais que buscam um mundo mais justo, porque sabemos que o mundo que queremos não existe, é preciso construí-lo a cada momento, nunca chegaremos lá como gostaríamos. É como caminhamos para buscá-lo o que nos diferencia.

Há que intensificar o trabalho de despotencializar as forças que alimentam a mistificação, justamente em momentos que a luta parece perdida. Caso contrário os esforços de quantos lutaram e lutam serão em vão. Há tantos. Li em algum lugar que a única batalha perdida é aquela abandonada. Vou acreditar nisso e relembrar Ernani Fiori, cassado pela ditadura militar que não impediu que eu o relembrasse hoje. E a sua palavra.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Fronteiras

Ângelo. Assim a mãe decidiu chamar o primogênito recém-nascido. Ângelo, porque tinha cara de anjo.
Embora a mãe fosse costureira e o pai, torneiro mecânico, Ângelo teve tudo do bom e do melhor. Colégio, livros, tênis, mochila. Bicicleta, bola de futebol. Televisão e videogame. O menino cresceu forte, bom, amoroso. A mãe, com os dedos furados de tantas agulhas, o pai, de pele encardida da graxa das máquinas, acreditavam que o menino teria um futuro brilhante. Coisa de anjo mesmo.
A infância foi um tempo aventuras que não ultrapassaram as fronteiras do pátio de sua casa e do caminho da escola. Alguns passeios da turma em datas especiais e férias no sítio onde viviam os avós paternos. Foi num daqueles verões que conheceu Beliel, um menino atrevido que andava pelas vizinhanças a caçar ninhos de passarinhos.
Foi como descobrir que tudo ao redor era um lugar encantado a revelar-se com as artimanhas de Beliel. Só ele sabia como subir nas árvores que lhe pareciam inacessíveis. Só ele imitava um sabiá e atraía outro que andava por perto. Só ele sabia onde encontrar as amoras que ele nunca tinha experimentado. E, mais que tudo, só com ele desobedeceu pela primeira vez às orientações de não entrar na sanga próxima à curva da trilha. Lugar proibido com histórias de afogamentos, e os espíritos a rondar o entorno.
Já não achava graça em brincar com os dois irmãos menores e os brinquedos trazidos. Nenhuma surpresa, nenhuma emoção, a obediência espelhava a previsibilidade, a transgressão era um ímã do qual não conseguia mais escapar. Começou a mentir. No início uma desculpa que o ruborizava, depois, um hábito incorporado ao ar angelical que sempre fora sua marca. Inventava histórias para se afastar com o amigo que lhe contava outras tantas. Um mundo muito diferente do que ele conhecia.
Beliel morava do outro lado do morro, vivia pelos matos, o sol amorenara sua pele e acentuara o sarará dos cabelos crespos. Aparecia nas horas mais inesperadas, às vezes, à noitinha, quando todos iam ver televisão na sala. Nunca quis entrar e conhecer os avós de Ângelo, só os cumprimentava à distância. Ângelo dizia-o envergonhado, tudo o que ele não era.
Numa das suas aparições noturnas, o calor insuportável se infiltrara em todos os cantos da casa e as mariposas giravam agitadas ao redor das lâmpadas, anunciando um temporal distante. Um assobio fino e espichado fez Ângelo abandonar o sofá e alcançar o amigo.
A lua quase cheia ainda encontrava caminho entre as nuvens e o escuro se dissipava no rarear das folhagens. Beliel caminhava na frente e Ângelo o seguia. Chegara o momento prometido, ele conheceria o paraíso. De repente, um sinal sobre os lábios do amigo e eles diminuíram o passo, tiraram as alpargatas dos pés e com movimentos lentos chegaram a um ângulo em que os olhos alcançaram os suspiros saídos da pequena enseada. Aproximaram-se ainda mais, onde Ângelo jamais ousara sequer de dia, mas Beliel tudo já havia explorado.Do barranco ao lado viam-se fios de luz que tremulavam na água agitada por dois corpos, hipnotizando Ângelo e fazendo Beliel sorrir.  

O tempo emergiu do rio e acelerou o conhecimento para Ângelo, cujos pensamentos e emoções o desequilibraram e o fizeram ultrapassar a fronteira de sua infância. Turbado pelos sons e movimentos daqueles dois corpos vorazes, seu próprio corpo entrou em êxtase e o terreno aos seus pés lhe retirou o apoio. Mal teve tempo de sentir a água fria engoli-lo, enquanto seus braços tentavam agarrar as ramagens que cederam. O olhar de Beliel não o socorreu e ele pode pensar com terror em suas desobediências. Antes de imergir, as últimas palavras recordadas de sua mãe ao lhe dizer que ele era um anjo bom.


Desafio de Cintia Moscovich para trabalhar o subtexto no Curso de Formação de Escritores

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Repetição




            Michel dispensou o amigo à entrada do cassino. Ele o ajudara a alugar a casaca, a conseguir quinhentos euros emprestados e as informações básicas para que ele se misturasse à burguesia que frequentava o local com o mínimo de naturalidade. Agora era com ele.
            Ultrapassou a boca da caverna, como costumava dizer quando entrava em ambientes desconhecidos e possivelmente hostis. Ali, a gentileza e os modos eram refinados. A hostilidade estava na pele dos frequentadores e funcionários servis, só se manifestaria se ele não seguisse a engrenagem das regras. Ele se preparara para rompê-las no momento oportuno.
            Luzes, vestidos, fraques, jóias, tudo precisava ser ostentado com a falsidade da indiferença. Os gestos habituados à contenção, ao momento justo de colocar as fichas na mesa, de agarrar o copo nos intervalos do ganho ou da perda, sem que a pose se alterasse. Só o olhar era traidor e deixava, às vezes, uma nesga de gozo ou de desespero após a perseguição de somas vultosas que decidiam a vida de muitos.
            Fora constrangido, depois de anos, a ir e ganhar. Ele pensara muito e decidira desobedecer. Perderia, apesar de suas habilidades repetidamente exercidas num tempo que julgara morto. Isto faria o dia seguinte ser o fim do tormento. O hábito, no entanto, driblou o que arquitetara e fez por ele. Ganhou, e muito, porque o gosto de vencer era superior a qualquer coisa que ele tivesse experimentado.
Michel superestimara sua capacidade de resistir à chantagem. A engrenagem imperou. Ganhar foi um fracasso que o jogou às correntes de uma galé. Os anos que vivera em paz desmancharam-se como papel velho em contato com o ar. Só seu corpo continuava ali, o pensamento voejava cego.
            Ainda era noite, a fonte continuava a reluzir em frente ao cassino e ele saiu levando o perfume que preenchia o ar dos salões. Pesadamente foi seguindo para o hotel, sua vida não valia mais a pena.    


Curso Formação de Escritores / Oficina com Cíntia Moscovich / Paradoxo