Tento
compreender obsessivamente como chegamos a esse ponto de hipocrisia e
mediocridade de grande parte da sociedade brasileira. Claro que há o PIG,
Partido da Imprensa Golpista, como nos diz Paulo Henrique Amorim, e todos os
mecanismos de poder para difundir mentiras, meias verdades ou escolher a omissão. No entanto, há
também informações em inúmeros canais que se contrapõem, mas são refutadas por muitos com um escudo
anti-razão.
É aqui que
reaparece uma palavra há tanto tempo esquecida: mistificação. Com ela veio-me à
mente a palestra onde foi proferida e em que época. Estudante de uma Faculdade
no interior do Estado no período que antecedeu o golpe militar de 64, ouvia o
então brilhante professor Ernani Fiori da UFRGS e me assombrei com a descoberta
do mecanismo de mentir a si próprio pela aceitação da verdade deturpada e, assim,
estar em paz por ter criado para si o lado certo. Hoje este mecanismo mostrou o
quanto é poderoso e capaz de se atualizar e se reinventar. A grande e velha
mídia continua a mesma, mas os mecanismos de transformar tudo em mercadoria,
tudo com um preço, tudo com a ilusão de poder comprar a felicidade, se
associaram de tal forma que o pensamento de grande parte da população parece
ter se transformado numa incontrolável e esponjosa gelatina. Mistificação das
massas pela indústria cultural à venda.
Deve ser por
isso que a palavra me reaparece depois de muito tempo guardada, e utilizada várias
vezes ao longo da vida para me desvelar o mundo. Justamente hoje ela se faz viva,
quando tantos estão à deriva tentando organizar-me na busca de alternativas
para enfrentar os tempos sombrios que se estão instalando. O interessante é que
ela relutou em ser acessada, não se ofereceu prontamente. Primeiro lembrei que
ela existia, mas era mais uma sensação do que uma palavra, algo anunciado que
eu conhecia, mas não conseguia nomear. Depois lembrei da palestra e, aí também,
o nome do filósofo surgiu no esforço de rastreá-lo quem sabe em que parte
infinitesimal de meu cérebro. Fui à procura dele, porque a palavra se recusava
a comparecer. Com o mestre presente, ela cedeu e veio a seguir. Mistificação. Mestre
e palavra continuam a ser fundamentais depois de mais de sessenta anos. A
explicação da sociedade mistificada da época ampliou o olhar de uma estudante
ávida de saber. Não impediu o golpe, mas deixou uma semente na cabeça de
quantos estavam a esperá-la. Ele estava no caminho certo, por isso foi ceifado.
Refaço o caminho
e vejo que a palavra não me impediu equívocos posteriores, mas impediu que eu
permanecesse neles. Foram necessárias situações de confronto com a realidade,
de encontros com pessoas e ideias, de necessidade de tomar decisões que foram
construindo minha visão de mundo e de uma postura íntegra diante dele. Aquela
palavra foi seminal para me salvar quando
no limite de me perder.
Mais uma vez
volto a ela e reforço a certeza de que nem tudo está perdido. A palavra ajuda a
encontrarmos canais que buscam um mundo mais justo, porque sabemos que o mundo
que queremos não existe, é preciso construí-lo a cada momento, nunca chegaremos
lá como gostaríamos. É como caminhamos para buscá-lo o que nos diferencia.
Há que intensificar o trabalho de despotencializar as forças que alimentam a mistificação, justamente em momentos
que a luta parece perdida. Caso contrário os esforços de quantos lutaram e
lutam serão em vão. Há tantos. Li em algum lugar que a única batalha perdida é
aquela abandonada. Vou acreditar nisso e relembrar Ernani Fiori, cassado pela
ditadura militar que não impediu que eu o relembrasse hoje. E a sua palavra.