sábado, 28 de fevereiro de 2015

Encontro na praça




Combinamos de nos encontrar numa quarta-feira. Fomos para o espaço reservado a um café na Praça XV. Lugar simpático, coberto e delimitado por um reparo de madeira e vidro. Há muito não nos víamos e escolhemos o lugar porque ambas gostamos do Mercado. Ao sentar, a imagem de um homem coberto por jornais e deitado na entrada de uma porta fechada nos atingiu pesado, um primeiro estilhaço na harmonia do momento. Já havíamos feito o pedido e, com um olhar pesaroso, esboçamos um início de conversa. Ela expressou o desejo de ir ajudá-lo. Um gesto abortado. Ele, um homem jovem, levantou pouco depois, com o andar enviesado e olhar fixo à sua frente. Lembramos de trocar de lugar as nossas bolsas. 

Tínhamos muito a nos dizer, após nos abraçarmos e rirmos com a mudança na cor de nossos cabelos. Junto a um expresso e os tradicionais pãezinhos de queijo, falamos sobre filhos, dificuldades, viagens, amigos em comum, as lembranças foram desfilando atravessadas por risadas e descontração. Um rapaz mal vestido passou entre as mesas e o olhamos desconfiadas. Era apenas um catador de latinhas, dissemos. A conversa continuou e, pouco depois, um sorriso desdentado numa cara jovem se aproxima e pede uns trocados para um café. Alcanço-lhe uma nota e repito-lhe que é para um café, ele me responde enrolado que sim, porque ele tem HIV e não pode tomar álcool. Próximo e arrastando um carrinho, outro jovem pergunta se pode pegar o pedaço de pão de queijo que sobrara no prato. Ambos se afastam devagar. Têm a aparência do estrago que lhes faz a rua, mas os traços bonitos de quem teria a vida pela frente para ser vivida. Continuamos a trocar nossas histórias, sem comentários sobre o que víamos.
      A tarde terminava e resolvemos entrar no Mercado para algumas compras. A mistura de cheiros, o burburinho, as bancas de objetos antigos, nossas sacolas com peixe e verduras, emoldurou o passeio pelos corredores. Ficamos felizes de reafirmar aquele lugar como nosso, da nossa cidade.
    Despedimo-nos agradecidas por aquela confraternização e não conversamos sobre as testemunhas de um mundo que queremos que mude. Talvez, o egoísmo de saborear a presença uma da outra tenha prevalecido. Tenho certeza, no entanto, de que para ela também ficou a marca de um borrão sobre a nossa alegria. Um borrão que saiu de uma boca desdentada e de alguns olhares desesperançados, impossível ignorar.

3 comentários:

  1. Lindo Mirosa!!! Não deixe de escrever... teu olhar sobre o mundo toca fundo e nos ensina. Beijos
    Cláudia

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  2. Interessante, Maria Rosa. Estamos rodeados pela miséria e precisamos conviver com essa realidade que não sabemos como mudar. E entre risos e estranhamentos continuamos a nossa caminhada;
    Geni

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