domingo, 12 de outubro de 2014

Moacyr Scliar, diálogo com o planeta





O visitante é recebido com um grande painel à direita onde é exposto um merecido louvor a Moacyr Scliar, que soube absorver “plenamente o seu lugar, o seu tempo e a sua circunstância cultural”, nas palavras de Carlos Gerbase. Através de sua obra, ultrapassou as fronteiras da sua “província” e alcançou o mundo, mantendo sempre ativa a capacidade de diálogo.
            Uma espécie de túnel à frente nos convida a percorrê-lo, não antes de assistir em vídeo alguns registros dos antepassados vindos da Bessarábia e dispersos pelo mundo, alguns dos quais chegados a Porto Alegre, bairro Bonfim. Gente que fugia de pequenos povoados do Império Czarista onde era submetida a constantes agressões e humilhações. Gente com esperança de um mundo melhor, sem grandes bens materiais, mas com um tesouro entranhado na cultura e nos valores com os quais foi se reconstruindo na nova pátria.
            Caminhar pelo trajeto, ladeado por paredes com a reprodução de algumas fotos, nos faz rever rostos e lugares recém expostos no vídeo. Sabe-se de antemão que, ao final, entraremos no mundo de Scliar. Seria intenção dos organizadores oferecer uma fração da expectativa daquela gente que se lançou ao desconhecido? Muito do escritor é de domínio da maioria dos visitantes, o que será visto  na mostra? Ultrapassado o percurso, começa-se por registros de momentos que marcaram sua vida.
            É possível associar as imagens dos antepassados de Scliar a outros grandes movimentos humanos, cuja existência se assemelhava no desejo de um mundo melhor. Antes dos judeus, vieram alemães e italianos para o Rio Grande do Sul. Também eles, velhos, crianças, jovens, homens e mulheres, em grandes navios, sem qualquer conforto e com incontáveis riscos, numa aventura com muitas dores e esperanças.
            Imagino que conflitos os acompanharam, mas o que os unia era um desejo comum de se estabelecer no novo mundo para viver e oferecer aos seus filhos uma terra livre dos sofrimentos do passado. O amálgama para fortalecê-los seria a própria cultura. Conhecemos parte da história, contada por Scliar em suas obras e apresentada neste espaço. Outros escritores narraram a saga de alemães e italianos. A terra que encontraram nem sempre foi generosa, mas foi um lugar promissor, onde até hoje vivem seus descendentes.
            Histórias de muito trabalho, de tempos felizes e temerosos, tempos de possibilidades e de criação, tempos de construir uma nova pátria, sem descurar das origens. Muitos o fizeram e deram voz aos sentimentos mais nobres, o homenageado destra mostra é um exemplo disso. E, ainda, temos outros.
            A memória de tudo isso torna inverossímil, hoje, que descendentes destes povos exponham um rancor tão exacerbado pelo outro, quando esse outro é diferente. Especialmente neste período de eleições, é assustadora a constatação de como manifestações de ódio, de racismo e de intolerância encontram eco em milhares de sujeito anônimos que, além de tudo, elegem como seus representantes os que expressam esses sentimentos.

            Muitas perguntas podem e deveriam ser feitas. Por que os sofrimentos de um povo não são capazes de evitar o surgimento, do seu interior, de lideranças desmeroriadas que repetem de alguma forma os mesmos abusos? Estaria o germe do rancor sofrido alhures encubado nos que vieram? O que foi feito dos sonhos destes antepassados de construir um mundo melhor? O bem estar econômico foi alcançado pela grande maioria dos que aqui chegaram. No entanto...
Parece ter sido esta a origem das ideias de meritocracia e individualismos exacerbados, alguns se dizem vencedores devido às origens de além mar e a seu esforço, nada receberam de ninguém. Esquecidos da história culpam individualmente cada um pela exclusão social.  Mesmo neste caso, seria suficiente para explicar a desfaçatez do desprezo pelo outro que lhe é diferente?
Temos que ir mais fundo. Um dos caminhos valiosos será retornar  Hanna Arendt para refletir sobre a banalidade do mal, construído de forma sorrateira, ininterrupta e institucionalizada.  É nos interstícios das ações cotidianas que se constroem as miríades de subjetividades, dentre as quais algumas que negam todo esforço das gerações precedentes em viver de acordo com sua cultura, mas num diálogo permanente com qualquer outra, como fez Moacyr Scliar.
           

             
           

Um comentário:

  1. Minha muito querida Maria Rosa, muito agradecido fico com mais este momento singular do exercício do livre pensar, através dos teus escritos. Desejo que o Sr. Deus de tua crença continue te abençoando e protegendo para que possas nos brindar com muitas páginas como esta. Beijão de luz e paz do teu amigo, que, ainda, navega por mares distantes, mas logo voltará ao seu porto no sul e para o seio de sua aldeia. Ubirajara

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