Olho as imagens e me sinto lá, a
distância some e o tempo pára.
O céu azul com rastros de um branco
intenso desenhados pela silhueta quase translúcida do avião que os arrasta, à semelhança de um fantasma
que vai sumindo nas alturas. Paisagem que meus olhos enquadraram para um foto.
Os riscos brancos, antes de sumirem, se aproximaram da renda produzida por
nuvens que se moviam lentas e mais abaixo, em sincronia com o momento.
A casa, ao meu lado, sólida e
indiferente às mudanças lá de cima, testemunha uma história que também é minha,
embora tenha nascido há algumas centenas de metros dali. Os galhos argentados
do pinheiro próximo dão sombra à parede lateral e emolduram o teto soberano. A
chaminé em descanso, porque os dias quentes não lhe exigiam fumaça.
De outro ângulo, outro avião risca o
azul e, desta vez, parece anunciar o choque com o lado norte da casa, não fosse
a distância que os separa. Lembra a cena trágica de uma dezena de anos atrás do
outro lado do oceano. Mas, aqui não há catástrofe, apenas o movimento constante
de aéreos comerciais somados aos da base militar próxima e que foi parte do
preço pago pela liberdade no fim da segunda grande guerra. A função dos aviões
militares não são de domínio público, a base não é da nação, é terra concedida
a um dos países libertadores. Ironia, sofrer ou fazer mal, tão ligados à ideia
de libertação numa contaminção odiosa, mas esquecida pelas atuais gerações. Mais
ao poente, outro avião risca o céu, cruzando linhas anteriores que já se
dissolvem, desenhando um quadrado irregular. Testemunhos de um movimento
quotidiano intenso.
Em poucas semanas, depois de
registrar essas imagens, eu também estaria voando naquele céu para retornar ao
lugar escolhido por meus pais para viver. Eu também faria parte da produção de
um rastro, mas eu não o veria e também
se dissolveria como os precedentes. Minha perspectiva seria outra.
Lembro que, após viver aqueles
instantes imersa no que me circundava, tive que me apressar para mais um
encontro, tal como fiz várias vezes no tempo em que ali estive. Um convite para
almoçar e a certeza de uma acolhida com afeto. Deixei os rastros de céu e me
envolvi naqueles que devia seguir pela estrada e que me levariam ao redor de uma mesa preparada com esmero,
reavivando lembranças e emoções.
Os diferentes convites, senti-os
como rastros imaginários que me atraíam
e não apenas para contemplar até seu desaparecimento. Não os vi retilíneos, mas
desenhados pelos meandros dos sentimentos que os suscitaram e mais parecidos
com a delicadeza de uma teia produzida pelo afeto.
Uma tessitura que só pôde se
realizar por troca de olhares e gestos, por perguntas, por rever histórias e compartilhar
informações, por uma identificação de semelhanças e diferenças e por um gosto
inequívoco de reafirmar que vínhamos dos mesmos antepassados.
Rastros provenientes de corações e
mentes.
Obrigado por continuadas deixando rastros mágicos na minha mente e no meu coração. Teu eterno amigo Ubirajara
ResponderExcluirMirosa, com certeza deixastes muitos rastros eternos de afeto e outros trouxestes contigo. Bom ler tuas memórias deste encontro com o passado, agora tão presente.
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