sexta-feira, 14 de março de 2014

Antídoto





Descrer, lamentar-se, deprimir-se porque vemos as faces de um mundo que não queremos, é preencher um tempo sem futuro. Entristecer-se com os males que nos rodeiam é diverso, a tristeza é um sentimento que nos solidariza com a dor do outro.  Ou, indignar-se e lutar de alguma forma para mudar o que está aí. Descrer é abdicar da possibilidade de fazer. Lamentar-se é dar voz à queixa que nos tira do lugar de realizarmos alguma coisa. Deprimir-se é dobrar-se sobre a própria dor e ser incapaz de reagir.
Numa recente entrevista, Silvio Tendler analisava a questão do cinema no país, desenhava um quadro lúcido sobre a situação, nada boa para o seu trabalho e o de sua área. No entanto, ele falava dos seus projetos e de sua paixão pelo seu trabalho. Entremeava críticas com alternativas possíveis em termos de políticas públicas para o setor. Apresentava sua forma de lutar pelo que acredita.
Noutro recorte do cotidiano, o depoimento de Duca Leindecker sobre o fato de ter sido assaltado e terem levado seu carro. Uma declaração de que não podia se igualar aos bandidos, não poderia ter reagido porque não saberia fazê-lo e, portanto, havia entregue os seus pertences e defendido a vida. Evitou superestimar o ocorrido e enfocou no seu trabalho, cujas atividades exigiram que ele usasse uma moto para se deslocar. Afirmou sua decisão de seguir, tinha muito que fazer.
Releio a notícia da recente morte de Claudio Abbado, um dos maiores regentes de orquestra da Itália e do mundo. Revejo a entrevista dada à televisão italiana em 2010, onde expressa sua fé na cultura e sua paixão pelo trabalho numa história repleta de exemplos de capacidade de congregação de artistas, de experiências com diferentes orquestras em diferentes cidades e países, de formação de grupos, enfim de seu amor pela vida predominantemente através da música.
Na atual exposição de tapeçarias, que é um encanto, Zoravia Bettiol nos ofereceu uma apaixonada declaração de amor pelo trabalho que executa, com uma doçura que só é possível em alguém que está em paz consigo mesmo e que se concentra em criar beleza. Mas, não para por aí, tem mil projetos e seu pensamento corre acelerado.
Tudo isso faz lembrar mil outros exemplos de vida cotidiana, gestos e atitudes que compõem as miríades formas de viver o dia. Eles mostram outras paisagens deste multifacetado mundo que muitas vezes assusta. São um antídoto aos nossos temores e um chamamento para despotencializar o medo com a soma de esforços para construir o mundo que queremos, mais justo e fraterno. É tarefa conjunta, não solitária.
Abbado tem razão ao listar os motivos porque os governos devem valorizar a cultura, e nós também, para neutralizar o lado sombrio que nos acompanha. Seu último argumento: a cultura é como a vida, e a vida é bonita! Poderia ser acrescentado: a vida é uma tapeçaria esplêndida feita a muitas mãos através de urdiduras, tramas e cores.

3 comentários:

  1. Mirosa, sempre lúcida, atenta aos acontecimentos deste mundo. Teus textos são bela tapeçaria. Abraço, Bel

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  2. Gostei muito do teu texto e concordo contigo. Precisamos olhar outras cenas do cotidiano para não sucumbirmos. Parabéns!
    Geni Oliveira

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