Descrer,
lamentar-se, deprimir-se porque vemos as faces de um mundo que não queremos, é
preencher um tempo sem futuro. Entristecer-se com os males que nos rodeiam é
diverso, a tristeza é um sentimento que nos solidariza com a dor do outro. Ou, indignar-se e lutar de alguma forma para
mudar o que está aí. Descrer é abdicar da possibilidade de fazer. Lamentar-se é
dar voz à queixa que nos tira do lugar de realizarmos alguma coisa. Deprimir-se
é dobrar-se sobre a própria dor e ser incapaz de reagir.
Numa recente entrevista,
Silvio Tendler analisava a questão do cinema no país, desenhava um quadro
lúcido sobre a situação, nada boa para o seu trabalho e o de sua área. No
entanto, ele falava dos seus projetos e de sua paixão pelo seu trabalho. Entremeava
críticas com alternativas possíveis em termos de políticas públicas para o
setor. Apresentava sua forma de lutar pelo que acredita.
Noutro recorte
do cotidiano, o depoimento de Duca Leindecker sobre o fato de ter sido
assaltado e terem levado seu carro. Uma declaração de que não podia se igualar
aos bandidos, não poderia ter reagido porque não saberia fazê-lo e, portanto,
havia entregue os seus pertences e defendido a vida. Evitou superestimar o
ocorrido e enfocou no seu trabalho, cujas atividades exigiram que ele usasse
uma moto para se deslocar. Afirmou sua decisão de seguir, tinha muito que
fazer.
Releio a notícia
da recente morte de Claudio Abbado, um dos maiores regentes de orquestra da
Itália e do mundo. Revejo a entrevista dada à televisão italiana em 2010, onde
expressa sua fé na cultura e sua paixão pelo trabalho numa história repleta de
exemplos de capacidade de congregação de artistas, de experiências com
diferentes orquestras em diferentes cidades e países, de formação de grupos,
enfim de seu amor pela vida predominantemente através da música.
Na atual
exposição de tapeçarias, que é um encanto, Zoravia Bettiol nos ofereceu uma apaixonada
declaração de amor pelo trabalho que executa, com uma doçura que só é possível
em alguém que está em paz consigo mesmo e que se concentra em criar beleza. Mas,
não para por aí, tem mil projetos e seu pensamento corre acelerado.
Abbado tem razão
ao listar os motivos porque os governos devem valorizar a cultura, e nós
também, para neutralizar o lado sombrio que nos acompanha. Seu último
argumento: a cultura é como a vida, e a vida é bonita! Poderia ser
acrescentado: a vida é uma tapeçaria esplêndida feita a muitas mãos através de
urdiduras, tramas e cores.
Mirosa, sempre lúcida, atenta aos acontecimentos deste mundo. Teus textos são bela tapeçaria. Abraço, Bel
ResponderExcluirOi querida, perfeito como sempre , parabéns!
ResponderExcluirGostei muito do teu texto e concordo contigo. Precisamos olhar outras cenas do cotidiano para não sucumbirmos. Parabéns!
ResponderExcluirGeni Oliveira