Ela
se foi quinze dias depois do marido. Tudo aconteceu da melhor maneira, foi meu
primeiro pensamento. A grande preocupação dele era morrer primeiro, porque ela
já estava mentalmente se ausentando há alguns
anos e cada vez mais não podia dar conta de si. Ele se mantinha a seu lado e
queria continuar a fazê-lo.
Senti
que perdera mais uma pessoa. Na verdade, eu a perdera há bastante tempo. Foi
quando fui visitá-la e ela não me reconheceu. Mas, a maior surpresa na época
foi ela falar de fantasmas que eu supunha inexistentes. Coisas de perseguição por ser quem era. Desgosto por
ter sido preterida num grupo de trabalho e outros delírios. Ouvi com tristeza que
o que ela tinha para dizer contrastava com tudo o que ela foi em nossa
convivência na escola. Só consegui falar-lhe de minhas lembranças que eram
muitas e bonitas. Torci para que tenham chegado a sua frágil consciência. Foi
com ela que aprendi a ver minhas próprias contradições no meu trabalho e a
dar-me conta do que era fundamental perseguir. Ambas éramos professoras de
geografia e ela me ensinou a ser melhor como profissional e como pessoa. Eu era
jovem e ela, vinte anos mais velha, nos ultrapassava a todos com sua visão do
que a escola deveria fazer e de como tratar os alunos. Sua falta de
agressividade era inversamente proporcional à
sua garra em defender ideias e à sua criatividade em sala de aula.
Com
a notícia de sua morte, senti-me mais velha, no sentido que Fernanda Montenegro
um dia expressou. O duro de envelhecer, dizia ela, é perder as memórias que se
vão com as pessoas que amamos. Por isso, penso sobre o momento em que essas
perdas se dão. Minha amiga morreu no mês passado e só fiquei sabendo agora. Lamentei
não ter estado perto dela nos rituais de despedida, embora reforçando a ideia
de que foi outro o momento, ou os momentos gradativos, em que a perdi. Lembro
de tê-la encontrado passeando pelo Parcão alguns anos atrás. Cumprimentei-a com
alegria e sua resposta não foi a mesma de sempre, uma frase curta e vagarosa acompanhada
de um cumprimento do marido que foi afastando-a gentilmente sem dar espaço para
maiores conversas. Só mais tarde, compreendi o gesto amoroso e protetor. Teria
havido outros momentos em que ela se foi distanciando e eu não percebi? Não nos
víamos com frequência, mas, quando acontecia, o afeto se fazia presente com
naturalidade. Eu tinha por ela um profundo respeito e uma enorme admiração. Ela
foi uma pessoa que marcou minha vida, embora não possa ser medido pelo tempo de
convivência. Pode ser medido pela dor que sinto por não ser mais possível
vê-la. Resta-me lembrá-la.
Nos
últimos anos, respeitei o que entendi ser desejo do marido, o de preservá-la em
seus limites. Na última vez que telefonei para tentar mais uma visita, intiuí o
pudor em não mostrar, mesmo às amigas, o processo de desligamento do mundo em
que ela se encontrava. Guardo suas preocupações e cuidados. Em vários momentos me
perguntei como estariam os dois e lhes desejei o melhor que a vida poderia lhes
proporcionar.
Até
fevereiro deste ano, e apesar de tudo, existia sempre a possibilidade de vê-la
e abraçá-la. Agora, só posso agradecer por termos caminhado juntas algum tempo
de nossas vidas e por tudo o que ela me ofereceu. Não diminui a tristeza, mas
consola ter podido conviver e partilhar experiências inesquecíveis com ela.
Esta
é uma homenagem a REISLA UNIS, minha amiga e colega no Godói na década de 1970.
Querida ! Amiga de agora !
ResponderExcluirGostei muito, muito mesmo de sua fala. Eu tenho minha formação na área da saúde, fui e sou enfermeira. Fui quando exercia minhas funções num hospital de Porto Alegre e sou porque uma vez tenha sido não deixarei de ser...Enfermeira. Agora aposentada desde 2008.
Achei muito interessante sua visão pois minha mãe , já faleceu em 2009 também cada vez mais ausente, porém eu sofria muito pois todos não se consolavam nem me tranquilizavam quando eu tinha que cuida lá e ainda confortar todos a volta de mim para que eu pudesse cuida lá. Fiz tudo que meu coração de filha sentia que poderia lhe deixar presente naquele momentos. Ela partiu serena e Eu carrego muita paz em meu coração e tenho certeza que estive presente em toda sua vida, bem como ela na minha. Um grande beijo no seu coração.
NinaBeth Muccillo
Muito bonita a sua homenagem, mãe. Serve para lembrar daquilo que se foi e ficou, daquilo que é o mais importante mesmo com as inevitabilidades do tempo. Beijos!
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