segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Devemos aprender, ainda





Escutar como se as palavras lidas fossem ditas em voz alta e refletir, é o que continua me provocando a leitura do livro.

“Nada daquilo por que ela viveu está naquilo por que eles morreram. Mas dizem que morreram também por ela. Por que também por ela?”
              (...)
 “Mas eles respondem sempre que é natural. Também por ela, respondem.”

De novo as vozes de Vittorini. A mulher não entende que aqueles mortos, os assassinados pelos nazistas e jogados pelas ruas de Milão durante a República de Salò, tenham morrido também por ela que não participa da resistência e que só trata de sobreviver. Ela não compreende o resgate que fazem do significado de “natural”. Para eles era natural se sentirem iguais como seres humanos. Por isso defenderem que a libertação de um implicava a libertação de todos.
O próprio Vittorini foi um deles, os que lutaram e que  sabiam que era por todos, pela libertação de todos. Este é o ponto crucial. Pensar em todos e não só em si mesmo ou nos seus.
Hoje, continuamos com a mesma questão. Continuamos com a questão exacerbada.
Nós só nos constituímos como sujeitos porque vivemos com os outros. Não seríamos o que somos se não estivéssemos num determinado contexto, com os outros. Então, porque insistimos em esquecer ou negar que o que fazemos, no mínimo gesto, tem repercussão no grupo humano em que vivo e repica como o badalar dos sinos? E, no multiplicar-se, já não acompanho o resultado alhures? Mas ele existe, mesmo que o ignore.
Os que compreenderam sabem que morreram por todos, mesmo que nem todos os que queriam salvar tivessem consciência disso. Hoje, posso exercer minha consciência e minha compreensão do mundo de muitas maneiras. Posso começar desnaturalizando preconceitos e a ilusão da vitória pelo individualismo. Posso não ceder às ofensas, mas indignar-me contra a opressão de uns sobre os outros. Posso lutar contra toda a forma de injustiça. Há mil e uma maneiras de fazê-lo. Só assim, os que continuam morrendo não morrerão em vão.
Lutar por um mundo melhor é tomar o “bom remédio” de “ser capaz”, como afirma outra das vozes de Vittorini. Além de ser “um bom remédio para tudo”.
A única coisa natural é termos nascido, todo o resto nós construímos.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Devemos aprender



Estas palavras ficaram em minha cabeça como eco infinito. Fizeram-me pensar o presente tão difícil de entender e de aceitar que estou nele, que sou parte dele, que sou ele.

   “Não precisa”, o velho disse. Chorar por eles.
               “Não?”, disse Berta.
               “Não precisa chorar por nenhuma das coisas que acontecem hoje.”
               “Não precisa chorar?”
               “Se choramos, aceitamos. Não precisa aceitar.”
               “Homens são mortos, e não é preciso chorar?”
               “Se os choramos, os perdemos. Não é preciso perdê-los.”
               (...)
               “Mas o que devemos fazer?”, perguntou-lhe.
               “Ah!”, o velho respondeu. “Devemos aprender”.

Este diálogo do romance Homens e Não de Elio Vittorini referia-se aos fuzilamentos de cidadãos italianos pelos nazistas durante a República de Salò. Já se passaram mais de sessenta anos de sua publicação, o mundo se transformou. Venceu muitos desafios, mas, infelizmente, não parece ter aprendido a questão fundamental da defesa da vida.
Os imperadores das finanças e a multiplicação das ilusões vendidas contaminam as ramificações mais longínquas do tecido social. O poder político das diferentes nações mostra-se engessado e o cidadão de todas as classes parece não identificar o inimigo comum que induz ao consumo em excesso, à superficialidade das relações e ao rumo que o modo de vida atual nos conduz.
Continuamos a fazer guerras e a matar com desenvoltura. E, ainda, a incessante máquina de produzir alienação e individualismo continua indiferente. Então, o que precisamos aprender, hoje? Já não choramos pelas mortes e não nos indignamos na maioria das vezes com as tragédias mostradas pela mídia. Será possível, ainda, aprender? Aprender, então, o que?
Claro que também produzimos antídotos em gestos, palavras e manifestações, que emergem para denunciar e protestar. Sem eles seria ainda pior. Mas, muitas vezes, parecem surgir um passo atrás.
Talvez estejamos num momento em que não aceitar o que acontece e procurar aprender com as atrocidades longínquas ou próximas passe pela capacidade de voltar a chorar. Lágrimas que mostrem nossa humanidade hibernada e que nos levem a buscar outras formas de resistência, de luta por um mundo melhor. Já perdemos demais com a banalização da dor do outro.
As palavras do velho continuam: “Devemos aprender.” Precisamos desejar.