O visitante é
recebido com um grande painel à direita onde é exposto um merecido louvor a
Moacyr Scliar, que soube absorver “plenamente o seu lugar, o seu tempo e a sua
circunstância cultural”, nas palavras de Carlos Gerbase. Através de sua obra,
ultrapassou as fronteiras da sua “província” e alcançou o mundo, mantendo sempre
ativa a capacidade de diálogo.
Uma
espécie de túnel à frente nos convida a percorrê-lo, não antes de assistir em
vídeo alguns registros dos antepassados vindos da Bessarábia e dispersos pelo
mundo, alguns dos quais chegados a Porto Alegre, bairro Bonfim. Gente que fugia
de pequenos povoados do Império Czarista onde era submetida a constantes
agressões e humilhações. Gente com esperança de um mundo melhor, sem grandes
bens materiais, mas com um tesouro entranhado na cultura e nos valores com os
quais foi se reconstruindo na nova pátria.
Caminhar
pelo trajeto, ladeado por paredes com a reprodução de algumas fotos, nos faz rever
rostos e lugares recém expostos no vídeo. Sabe-se de antemão que, ao final, entraremos
no mundo de Scliar. Seria intenção dos organizadores oferecer uma fração da
expectativa daquela gente que se lançou ao desconhecido? Muito do escritor é de
domínio da maioria dos visitantes, o que será visto na mostra? Ultrapassado o percurso, começa-se
por registros de momentos que marcaram sua vida.
É
possível associar as imagens dos antepassados de Scliar a outros grandes
movimentos humanos, cuja existência se assemelhava no desejo de um mundo
melhor. Antes dos judeus, vieram alemães e italianos para o Rio Grande do Sul.
Também eles, velhos, crianças, jovens, homens e mulheres, em grandes navios,
sem qualquer conforto e com incontáveis riscos, numa aventura com muitas dores
e esperanças.
Imagino
que conflitos os acompanharam, mas o que os unia era um desejo comum de se
estabelecer no novo mundo para viver e oferecer aos seus filhos uma terra livre
dos sofrimentos do passado. O amálgama para fortalecê-los seria a própria
cultura. Conhecemos parte da história, contada por Scliar em suas obras e
apresentada neste espaço. Outros escritores narraram a saga de alemães e
italianos. A terra que encontraram nem sempre foi generosa, mas foi um lugar
promissor, onde até hoje vivem seus descendentes.
Histórias
de muito trabalho, de tempos felizes e temerosos, tempos de possibilidades e de
criação, tempos de construir uma nova pátria, sem descurar das origens. Muitos
o fizeram e deram voz aos sentimentos mais nobres, o homenageado destra mostra
é um exemplo disso. E, ainda, temos outros.
A
memória de tudo isso torna inverossímil, hoje, que descendentes destes povos
exponham um rancor tão exacerbado pelo outro, quando esse outro é diferente.
Especialmente neste período de eleições, é assustadora a constatação de como
manifestações de ódio, de racismo e de intolerância encontram eco em milhares
de sujeito anônimos que, além de tudo, elegem como seus representantes os que expressam
esses sentimentos.
Muitas
perguntas podem e deveriam ser feitas. Por que os sofrimentos de um povo não
são capazes de evitar o surgimento, do seu interior, de lideranças desmeroriadas
que repetem de alguma forma os mesmos abusos? Estaria o germe do rancor sofrido
alhures encubado nos que vieram? O que foi feito dos sonhos destes antepassados
de construir um mundo melhor? O bem estar econômico foi alcançado pela grande
maioria dos que aqui chegaram. No entanto...
Parece ter sido esta
a origem das ideias de meritocracia e individualismos exacerbados, alguns se
dizem vencedores devido às origens de além mar e a seu esforço, nada receberam
de ninguém. Esquecidos da história culpam individualmente cada um pela exclusão
social. Mesmo neste caso, seria
suficiente para explicar a desfaçatez do desprezo pelo outro que lhe é
diferente?
Temos que ir
mais fundo. Um dos caminhos valiosos será retornar Hanna Arendt para refletir sobre a banalidade
do mal, construído de forma sorrateira, ininterrupta e institucionalizada. É nos interstícios das ações cotidianas que se
constroem as miríades de subjetividades, dentre as quais algumas que negam todo
esforço das gerações precedentes em viver de acordo com sua cultura, mas num
diálogo permanente com qualquer outra, como fez Moacyr Scliar.