Vejo
a ponte da janela fechada do quarto. Ela
está parcialmente oculta e os reflexos das luzes do edifício em frente
confundem seu traçado com outros traçados próximos. Já a vi do alto, chegando a
Lisboa, uma linha branca sobre um largo braço de água azul. Do quinto andar do
hotel, a visão dela é retalho entre os diferentes planos de paredes, janelas,
vãos entre prédios, espaços escuros e iluminados que compõem paisagem noturna.
Última
noite da viagem e percebo tudo ao meu redor com outro olhar. Ao longo do dia
senti que minha passagem pela cidade estava terminando. O esmaecimento da
curiosidade na chegada e um distanciamento das coisas que me circundavam, davam
a medida do último passeio para despedir-me do lugar explorado durante tantos
dias. Talvez, uma proteção para não sofrer com o fim da prazerosa experiência. Como
foi gostoso o impacto de ver ao vivo os lugares vasculhados anteriormente na
tela do computador. As ruas tornaram-se familiares como umas tantas de minha
própria cidade. Um contínuo reconhecer edifícios e fachadas, esquinas e praças,
monumentos e calçadas, prazer vigoroso por estar
caminhando sobre as pedras que antes eram virtuais. Tocar na mão fria de
Fernando Pessoa, eternizado junto às mesas de um café para aproximá-lo de quantos
o queiram, mesmo daqueles que talvez nem o tenham lido. Provar uma tigelada ou
uma ginjinha de Óbidos, depois de um prato de bacalhau que os portugueses
importam da Noruega e que dizem saber preparar de cento e uma maneiras.
No
fim, o cansaço é inevitável depois de dias e dias de andanças. Tantas
informações buscadas na ânsia de uma posse rápida do lugar e das formas de
movimentar-se nele mais facilmente, porque não se vai ficar muito tempo. Tantas
saídas, caminhadas, visitas a lugares que identificam a cidade, comprar
lembranças.
Chega
o momento de uma outra energia, a do retorno. Chega o momento de atravessar uma
outra ponte, a que não tem linhas definidas como as refletidas na janela do
hotel, aquela que me leva alhures, aquela que o meu desejo de ir estende para
onde eu quiser, uma ponte virtual na bagagem que
levo pela vida afora, mas que contém também o seu reverso, o desejo de voltar
Uma
realidade vivida intensamente está por terminar e sei que a realidade do
cotidiano está à minha espera, me chama, me atrai. Diferentes sentimentos convivem
ou se afrontam, nestes instantes que precedem o regresso, um tempo de estar
aqui e ao mesmo tempo lá. Um tempo duplicado, que me mantém suspensa e difusa, até
alçar voo para o destino de volta. Um tempo de não pensar, mas de sentir, para
que o coração não pare, como nos avisa Pessoa. Então, haverá o retorno, mas não
com os mesmos olhos e ouvidos de quando saí, porque a volta sempre me traz diferente.
Quanta inspiração! Adorei quando refletes sobre o tempo, sobre o tempo de chegar e aquele de partir: "chega o momento de uma outra energia... chega o momento de atravessar uma outra ponte, a que não tem linhas definidas..." Lindo! É como se trouxesses um pouco de Lisboa viva dentro de ti. A foto está magnífica. Parabéns. Um abraço e até breve!
ResponderExcluirDelicada reflexao!
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