terça-feira, 4 de junho de 2013

Perdemos os outeiros









Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Alberto Caeiro




                Estes versos ressoam todos os dias na cidade que cresce desordenadamente. Um mantra que faz eco em todo edifício que sobe maior que o outro que lhe é vizinho. E são muitos os que sobem assim, disputando luz e visão do céu que se encolhe para os que continuam vivendo nos andares de baixo. Já não há outeiros para construir a própria casa. Há andares sobrepostos cada vez em maior número, em prédios que brotam como cogumelos depois da chuva, uma chuva perene de ganância insana. No lugar dos outeiros, os andares superiores que só estão ali graças aos debaixo. Repete-se a pirâmide, poucos estão lá em cima. Mas a natureza é perdida para todos.
As gerações que virão são esquecidas, o hoje ignora o amanhã, o interesse de alguns prevalece. Cada vez mais o homem se apequena e entristece como o personagem que Caeiro invoca noutra poesia, tendo sido apartado do campo, andava pela cidade triste como esmagar flores em livros/ e pôr plantas em jarros...
São janelas que se veem de nossas janelas e paredes lindeiras a nossas paredes, num espelhar a mesma caixa em que nos encerramos ordenadamente e reproduzida ad infinitum. Os limites com os campos, com as matas são cada vez mais longínquos, quase oásis ou miragens deles. Plantam-se palmeirinhas e grama em canteiros reduzidos a disfarçar o tanto de cimento que aumenta a temperatura dos já quentes verões. Ilusão de um verde que se vai reduzindo de forma sorrateira.
O ver torna-se domesticado e só se prolonga no traçado das vias que se entopem de veículos. Num exemplo recente, a ampliação de uma avenida, exigiu que dezenas de árvores fossem ceifadas. Mais um tanto de verde se foi. Ele que enfeitava o olhar, suavizava o calor e lhe sorvia o ar impuro para devolvê-lo digerido. Nem estes benefícios foram suficientes e um punhado de desrazões alimentou a lei e a força que serrou troncos ainda na noite fria para driblar protestos. Nem a defesa de uns poucos jovens que lá dormiam o impediu.
Para alargar o olhar, resta-nos o deslocamento para a orla do rio. Esta também ameaçada por ideias fantasiosas e projetos megalômanos. Perdemos os outeiros, esperamos manter as margens.

2 comentários:

  1. Maria Rosa

    Lavaste a minha alma e disseste tudo que eu gostaria de dizer. Que bom poder ler teu texto que, sem paixões, nos mostra, também, os horrores da sociedade contemporânea.
    bjo
    Maureen

    ResponderExcluir
  2. Maria Rosa, um olhar atento registrando a corrida com que a natureza sabia e bravamente tenta resistir à insensatez e à ganância. Muito bom texto.
    Abraço
    Scyla

    ResponderExcluir