quarta-feira, 10 de julho de 2013

A fenda



A pequena árvore emerge de uma fenda. Desvela a energia e a tenacidade que venceram a invasão do concreto. Não se vê a fenda, pode-se intuí-la pelo desgaste da lateral do viaduto. Tantas chuvas a penetraram, tanta fuligem e incessantes tremores do contínuo tráfego. No entanto, ela se tornou prenhe de vida, testemunha uma energia que poderá estar em outros e ocultos lugares.
Pode-se ver, na corrosão da lateral da via, a potência do tempo que se anuncia na superfície descascada com suas linhas e manchas, com seus traços escorridos pela umidade infiltrada. Trouxe consigo o inesperado. Uma planta no meio da concentração de construções e ar poluído de um centro urbano que desafia os limites da racionalidade de seu viver.
As modificações no concreto, como em cada fractal do universo, começam no primeiro instante e se sucedem ad infinitum. Frações infinitesimais de tempo desenham o caminho para a diferença, sempre única na multiplicidade da existência.
A impermanência do ser emerge da fenda como testemunho da obstinação da vida, sob condições insuspeitadas, em subterrâneos inimagináveis, em microscópicos universos de possibilidades.
            A árvore está ali, soberana, a cumprir seu destino. Espelho para olhos atentos.

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