Sentado no
carrinho, atento às máquinas velozes que correm pela rua, ele aponta para uma e
para outra. Grita-lhes sílabas, cujo sentido mostra sinais na excitação do
olhar e dos gestos. Deste mundo em movimento, os ônibus merecem sua atenção
maior e o fazem agitar o bracinho em repetidos acenos de adeus, enquanto se vão
e desaparecem. Há momentos em que paramos à espera, até um deles apontar lá na
esquina, atrás do ondular de formas e tamanhos que o precedem. Estes veículos
todos lhe oferecem vislumbres de um mundo por desvendar.
Os passarinhos, outra
fonte de encanto. Um e outro pousam nas nesgas de grama dos canteiros das
calçadas. Nestes momentos, ele procura libertar-se das tiras que o mantém
seguro. Retiro-o, coloco-o no chão e ele corre para tocá-los, mas eles lhe
escapam invariavelmente. Então, estanca e, mudo, acompanha com o olhar as
trajetórias riscadas no ar até as árvores ou beiradas dos edifícios. Em raros
momentos de quietude, convido-o a ouvir os gorjeios escondidos no entrelaçado
de ramos acima de nós. Pego-o no colo e num abraço doce, com as cabeças
encostadas à escuta, algumas vezes, fragmentos
de música nos alcançam e premiam a espera. Instantes mágicos no turbilhão da
cidade grande.
Outros
personagens passam por nós nessas incursões. São os cachorros levados a
passear, de diferentes cores e tamanhos. Alguns são maiores que ele próprio,
mas ele não se assusta, olha-os a todos com o brilho da curiosidade. Numa das
sacadas de um edifício, às vezes, vemos e ouvimos um cachorrinho a latir sem
parar e ele aponta na sua direção, balbuciando o que me sugere perguntas. Invento respostas. Repete
o gesto, mesmo quando o animalzinho não está. Sinal de uma memória já
produzida.
Novos encontros
e descobertas em toda andança. Plantas, alguma
flor colorida, uma pedra, folhas caídas, inventário renovado a cada passeio. Às vezes, um
portão de garagem que se abre como uma caverna, para entrada e saída de um
veículo. Olhares carinhosos, palavras gentis e sorrisos lhe são endereçados.
No entanto, uma
ausência nos faz companhia. Raros foram
os encontros com outras crianças. Várias janelas de edifícios ostentam redes de
proteção. É um bairro residencial com prédios antigos e, muitos, sem
infraestrutura de lazer. Mas, as calçadas estão vazias de sua presença. Muitas
perguntas concentradas numa: onde estarão elas?
A tua crônica é tão amorosa, que chego a ter inveja da tua condição de avó. Aquele trecho em que o convidas a ouvir o canto dos passarinhos é primoroso, me acrescenta e me emociona.
ResponderExcluirbjo
Maureen
Cenas de um passeio de ternura e enlevo. Muito lindo! Bjo
ResponderExcluirScyla
lindo, lindo, lindo!!! emocionante mesmo... que mais posso dizer? ainda mais pra mim que sei exatamente como são todas as expressões e manifestações tão bem descritas no texto!!! imagina ele lendo depois.. bjbj, Helena.
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