Oceano Interior
Na
rugosidade superficial a perder de vista,
uma aparente quietude, mas logo abaixo o movimento de correntes e turbilhões profundos. As lambidas das
ondas na areia são o respiro de um corpo vivo que, visto à distância parece pétreo.
Superfície e bordas ocultam a grandeza
do palpitar em suas entranhas e a cor de sua pele nos revela profundidades
diversas. Seus movimentos lembram o permanente girar das partículas
microscópicas de que ele é feito, as mesmas que constituem o mundo nas suas
incontáveis formas e diferenças. Berço das primeiras manifestações da vida,
nele o tempo se agita, se revolta, se acalma, jamais se imobiliza. Nele a luz
se reflete incansavelmente em frações do instante que se sucede e transmite o azul,
o verde, o cinza e o marrom, em tonalidades e composições surpreendentes. Seu
sossego é ilusório. Se se quer paz, há que se fechar olhos e ouvidos, porque
suas manifestações nunca são silenciosas e podem trazer o estrondo com que força
areia, rochedos ou cascos, ou podem
trazer o rumorejar que se desprende das miríades de ondas num bordado
fantasioso a se perder de vista. Um murmúrio tranquilo pode nos adormecer, mas
não dá segurança, as mudanças de humor podem ser bruscas e intempestivas. É
quando aceita a provocação dos ventos ou terremotos submersos e a eles se alia
contra as terras que o limitam. Parece, no entanto, que o arrependimento de suas
invasões surge sem demora, e ele volta a aceitar os limites que lhe são
necessários e lhe dão forma. Então, as águas voltam a derramar-se do jeito
anterior. Se é fingimento ou resignação, pode-se especular, mas uma certeza ele
já permitiu construir: ele é um ser cheio de caprichos. Ele é um só corpo, mas com um nome em cada
lugar, como se fossem muitos e separados corpos, com suas próprias lendas.

Ao escrever
sobre o oceano percebo-me a mimetizá-lo. Já me senti lambendo o chão, o corpo
dolorido até a um toque na pele, eriçada em espasmos, represando sentimentos
acumulados que encontram um momento para emergir sem controle e, na satisfação
momentânea do desafogo, às vezes, uma mistura de arrependimento. Mas, também na
glória dos afetos oferecidos e retribuídos ou não, com suas composições de
contatos, de cores e de sons, que fazem a vida valer a pena. Quantas repetições
destes eventos em mim e em tanta gente
ao meu redor. Quantos nomes foram atribuídos ao longo do tempo e lugares vividos.
Estas reflexões surgiram das muitas tangências com a natureza, dos
inumeráveis momentos de quietude nas aproximações, muitas vezes roubados à
urgência do cotidiano, na conquista de um tempo desinteressado, sem pressa,
como a chocar um germe de criação, tal qual uma ave sobre o ovo no ninho.
Dar-me
conta disso tudo a cada instante não me pode ser roubado. Isso é fonte de
energia para continuar vivendo da melhor forma num mundo que continua a
desafiar-me e, muitas vezes, a me dar
medo e tristeza, mas não a colocar-me amarras.
Querida amiga do coração MARIA ROSA!
ResponderExcluirAo degustar este teu texto, recebo-o como mais um grande presente teu, o qual me faz continuar a apaixonante atividade de pensar e com continuar vivendo minha Lenda Pessoal e buscando estar conectado com os sinais do universo.
Recebas meu terno abraço de luz e paz deste eterno amigo
Ubirajara
Maria Rosa,
ResponderExcluirobrigada por compartilhar através dos textos, teu olhar sensível e profundo sobre a vida. Como consegues transformar em palavras, sentimentos que também tenho, me emociono sempre quando acompanho teu olhar.