Mais um dia começa, as mesmas notícias travestidas. Largo
o jornal, não posso sair, porque estão arrumando a janela da sala. Volto ao
jornal, desta vez, ao caderno de artes. Reanimo-me,
como náufrago que está a desistir, esgotado, e encontra um pedaço de madeira
onde se agarra com um sopro de esperança.
Leio: coletivos realizam performances urbanas, festivais, peças de
teatro ao ar livre, para combater a “anestesia do olhar”, não procuram os
melhores lugares, mas os lugares feios da cidade para atuar e sacudir os
sentidos dos passantes. À margem do sistema, não procuram patrocínios, fazem campanhas entre grupos e
vão tentar mexer com o mundo. Vem a lembrança de incontáveis ações semelhantes
no interior de comunidades marginalizadas. Também, a recente manifestação de Theo
Angelopoulos, que, pouco antes de morrer em trágico acidente, afirmou ser necessário à Grécia, neste tempo
de crise e caos, viver a solidariedade
como no pós-guerra. A solidariedade como acontecimento. Lembro meus estudos
teóricos, os esforços para encontrar ideias que me fortalecessem, seguir,
buscar. O acontecimento em Deleuze, como algo que irrompe e produz
necessariamente desdobramentos, a diferença na realidade. Estar atento, agarrar
a fagulha inesperada, imprevisível, potente, capaz de negar o destino, criar
outros caminhos. Está sempre na relação entre dois pontos. Retorno às
performances e às interferências, é preciso sacudir o “olhar anestesiado”, é
preciso fazer da indiferença um desejo de voltar para Ítaca, abandonar o oceano
do desamparo no exacerbado individualismo, voltar para casa, voltar a olhar o
outro como seu semelhante, à responsabilidade por si e pelo outro, a melhor
forma de ser humano. O outro que está sempre próximo, dentro de casa, no
apartamento ao lado, ao andar pela rua, no ônibus, na fila para alguma coisa. O
outro que é aquele sem o qual não existo. O
outro que me dá os parâmetros do que é minha vida. Para enxergá-lo, um
dos caminhos é a arte que, com o processo criativo, com o mostrar o que o
cotidiano empalidece e oculta, com a revelação de mundos diferentes, com o rir,
mas também, pensar as mazelas da natureza humana, nos sacode e arranca da
“anestesia do olhar”, produzida pelos hábitos do viver o cotidiano. Arte como
antídoto para a anestesia. Arte como fonte de energia.
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