Li e reli o
parágrafo. Verifiquei o nome do autor e
a página do jornal. Era o jornal de sempre, então a língua era mesmo o
português, confirmei isso, apesar de sabê-lo. Aí, achei que alguma coisa não andava
bem, eu não estava entendendo aquelas frases, mas me sentia na
obrigação de entender. Afinal, sou leitora contumaz de textos impressos ou
on-line, embora prefira os primeiros.
Resolvi pedir
ajuda a amigas que dominam a língua inglesa, pois meu pouco conhecimento deste idioma
sinalizou para a necessidade de uma investigação. Enviei a frase: “Avenida Brasil é um baita win: nunca uma
novela rendeu tanto nas redes sociais. Memes e gifs flodam as timelines!”,
e solicitei a gentileza de sua tradução. Enquanto isso, desafiada a tentar
resolver sozinha a questão, fui consultando dicionários. Mais tarde, uma delas
respondeu que não me preocupasse, pois ela também não havia entendido.
Mesmo não
assistindo, impossível não saber que Avenida
Brasil era uma novela e, deste início, comecei minha procura de
entendimento. Win, remete a to win, a ganhar, vencer, então poderia optar por
traduzir como vitória ou sucesso, no contexto da primeira frase.
Para memes, por sua vez, depois de ler sobre
a origem do termo criado por Dawkins na década de 1970, optei pela definição de
unidade de informação que poderia ser socializada.
Com gifs foi mais complicado por ser um
termo usual na internet, uma área do mundo atual com sua própria linguagem. Resolvi ficar com a explicação de formatos
de imagens.
Para entender “flodam”
busquei informações que me fizeram percorrer diferentes expressões e significados,
recordando a beleza das possibilidades de compor palavras, tanto no inglês como
no português. No entanto, é preciso ressaltar o aportuguesamento do verbo to flood: inundar, submergir, alagar, transbordar. Não existe
“flodar” na nossa língua, mas descobri que é usado no sentido de ficar mandando palavras pequenas,
sem nexo, só para dizer que alguém mandou mensagem, marcar presença. Fiquei
devendo para esta explicação, embora tenha elaborado algumas hipóteses. Não
quis me desviar da pesquisa.
Constatei também
que existe um substantivo correspondente: flood
que quer dizer inundação,
enchente, cheia, dilúvio ou mar,
oceano, lago, rio, grande quantidade de água, corrente de água, para ficar
apenas nestes sinônimos. Riqueza de sentidos, apropriados e, ao mesmo tempo,
distantes do verbo criado.
Por último, obtive o significado
de timelines: linhas do tempo, que nas mídias sociais é onde se
organiza e sequencia as postagens conforme o tempo, conduzindo também o usuário
na conversação.
Perguntei-me,
por último, se aquele inocente as significaria
a conjunção como, ou apenas um artigo. Considerando a composição da frase,
optei por artigo feminino plural da língua portuguesa: as.
Assim, o meu
parágrafo ficaria traduzido desta forma: “Avenida
Brasil é um baita sucesso: nunca uma novela rendeu tanto nas redes sociais. Informações
e imagens inundam as linhas de tempo das redes sociais!” Sem discutir o
conteúdo, pareceu-me um parágrafo coeso. Então, porque inserir tantas palavras
estrangeiras que parecem destinadas a uma turma específica, em jornal de ampla
circulação?
Talvez, a
diferença de gerações me coloque essa dificuldade de entendimento ou de
aceitação. De qualquer forma, pergunto-me sobre o que está acontecendo com a
língua que aprendi em criança e da qual fui testemunha de várias mudanças
incorporadas.
Aceito o uso de
termos de outra língua, às vezes, explicitam melhor que a nossa o que se quer
dizer, ou mesmo, seu uso torna-se um hábito em áreas particulares da cultura.
Por exemplo, em artigo sobre o Filme 360
de Fernando Meirelles, uma crítica de cinema usou o termo loop para
dizer que o filme fazia uma volta, dava uma volta sobre o tema e, depois,
empregou a expressão “não jogar spoilers” para explicar que não
queria ser desmancha-prazeres e antecipar a narrativa do filme. Uma forma de se
expressar para quem deve utilizar constantemente a língua inglesa no seu
trabalho.
As línguas
modernas estão cheias de termos de outros códigos linguísticos, faz parte do
contínuo intercâmbio entre os mais variados grupos humanos desde sempre. No
entanto, o parágrafo invocado permite perguntar: o que está havendo com nossa
língua, especialmente a das redes sociais? Como andará a subjetivação e o entendimento
do mundo pelos jovens que navegam por elas?
Linguagem e
pensamento são íntimos há muito tempo, sussurra-me Vygotsky. Esta rememoração abre
o arquivo das tantas experiências escolares, onde a preocupação com cada palavra
para que se pudesse produzir uma capacidade subjetiva de crítica e de
resistência à manipulação.
Assim, permanece
a questão: a língua precisa estar a serviço da compreensão do que se faz e do
que se vive. Sem isso, fica-se realmente a “flodar” pelo espaço etéreo do
gastar o tempo e passar pelo mundo sem dar-se conta do que acontece ao redor e
sem medir consequências.