quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Meu rio


No lugar onde nasci há um rio.
Como lembro do meu rio?
Largo e profundo
Águas frescas
Alguns trechos das margens
Cobertos por tapetes de seixos.
Ali tomávamos banho no verão,
Meu irmão, meus amigos.
Hoje, voltei.
As águas baixaram
Os seixos afloraram
E alargaram as margens,
Elas estreitaram as águas.
Ouvi dizer que as neves das montanhas
Estão desaparecendo
Não alimentam mais o rio.
Talvez, nem profundo seja mais.
O que o faz ainda meu rio?
A lembrança que tenho dele.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Instantes fora de controle

Eu vi os crocks cinzentos que ele calçava, quando se levantou e foi para a saída. As pernas magras estavam descobertas, então ele deveria estar de bermudas. Quando ele subiu, algumas paradas antes, meu olhar desfocado registrou que ele usava boné e estava mal vestido. Naquele momento, eu olhava a composição de casarões antigos e prédios novos da avenida, como costumava fazer ao passar de lotação por ali. Os testemunhos do passado lembravam-me as descrições de Josué Guimarães, que me encantavam. Pouco depois, ele se levantou.  A rigidez do corpo e a proximidade demasiada junto ao motorista fizeram com que eu lhe prestasse atenção. Ouvi: passa, passa, passa logo, passa tudo, ligeiro. Tom baixo, seco e decidido. Motorista submisso, gestos mansos, sem pressa. Em seguida, outras palavras: abre a porta, abre a porta, ligeiro, ligeiro, vai, vai. Alguns segundos explosivos.  A porta se abre e ele sai. O acontecido se desmancha no ar. Enquanto isso ocorria, olhei para as mulheres que estavam sentadas atrás do motorista. Uma delas tinha que estar vendo o que eu enxergava, era a mais próxima, mas olhava para fora. Da outra, não lhe vi o rosto. Os passageiros, mais ao fundo, nem devem ter percebido o que sucedia.  Eu incrédula, à direita do veículo. Na fração de tempo testemunhado, cheguei a pensar: Levanto? Grito? E se ele tem um revólver? Isto não é um filme. Está acontecendo agora.  O que o motorista vai fazer? Obedeceu e, ao final, olhou pelo espelho lateral por instantes, engatou a marcha e seguiu em frente. Nenhum telefonema, nenhuma conversa com qualquer um dos que estavam ali, como se nada tivesse acontecido. O motorista sozinho a digerir a agressão e o roubo.  Na avenida dos casarões de Josué Guimarães passavam bondes com seus motorneiros e cobradores. Quais teriam sido os perigos naquela época? Imagino, apenas, alguma eventual altercação por falta de bilhete. Até o fim da linha, duas vezes, o motorista parado diante da sinaleira vermelha, ergueu levemente os braços e balançou a cabeça, como a falar consigo próprio. Algumas paradas adiante, uma passageira chega até a poltrona à minha frente, vazia até então, e despeja sua ansiedade na narrativa do que fizera para se proteger ao suspeitar do rapaz. Sobem e descem mais algumas pessoas, na rotina do trajeto. Elas são inteiradas do que acontecera. O motorista responde a uma pergunta e afirma que lhe fora apontado um canivete. Continua a dirigir da mesma forma até o fim da linha. Foi feita a sugestão de testemunhar o assalto para o fiscal. Ele respondeu: Não adianta, vão descontar do meu salário. Retomará o itinerário quantas vezes forem programadas para aquele dia, preso a trilhos invisíveis do seu trabalho.

Um passeio com Arte e História

Mergulhar nos cenários do passado histórico do estado é uma experiência rica de emoções e de surpresas, principalmente para aquele que, por alguma razão, não tem o salutar hábito de revisitar suas raízes.  Uma recente visita a Piratini propiciou partilhar prazerosamente diferentes cenas cotidianas da época da Revolução Farroupilha.

As dramatizações substituíram a narração didática linear. O enaltecimento de figuras proeminentes foi substituído por diálogos entre algumas elas, captados como que por acaso. Assim, o grupo assistiu ao encontro entre lideranças diante do Palácio onde funcionou o Governo Provisório da República Rio-Grandense 1836-1845, na antiga Rua Clara, hoje Rua Gomes Jardim.  Da mesma forma, numa esquina, ouviu-se um guri distribuindo o jornal O Povo, acompanhou sua volta ao lugar onde foi impresso, para entregar ao jornalista Rossetti  o dinheiro da venda. Em seguida a conversa deste com Garibaldi, diante da casa que foi gráfica e moradia de ambos. 


A visão de Barbosa Lessa menino, diante daquela que foi sua casa. A beleza de sua narrativa encantou e transportou os presentes ao longo dos anos que viveu ali e para o mundo da literatura gaúcha, um dos resgates das histórias locais que enraízam e fortalecem a identidade.
A voz de figuras comuns também foi ouvida. No diálogo entre duas mulheres  que, passeando na praça, expressavam seus anseios em relação ao casamento e aos temores pelos homens que iam à guerra.  Outras duas mulheres diante da Camarinha, a comentar os acontecimentos locais. Falas entre escravas sobre suas lides domésticas: lavar roupa e cozinhar. Também sobre seus descansos com a saída dos donos, ou mesmo, de suas fantasias, como a de experimentar as roupas lindas da sinhá. Conversas entre os membros de uma das grandes famílias que passeava pela, hoje denominada, Travessa Manoel R. Lucas. Explicações envolvidas em folclore sobre a arquitetura e materiais de construção empregados naquele tempo. 

Enfim, um pequeno mosaico de Piratini dos anos 1830 e 1840, onde não poderia faltar o Hino Rio Grandense, cantado com paixão pelos artistas da terra e pelos presentes.

A recuperação de fatos cotidianos, que chegam apenas a leitores aficcionados, tornou possível um mergulho na época, não apenas nos fatos históricos usualmente ressaltados, mas sempre policromáticos, como também com experiências prosaicas da vida comum.  

À tardinha, uma surpresa.  No balcão do hotel, o “jornalista Rossetti”  foi quem atendeu com um sorriso, em seu trabalho cotidiano somado ao do teatro recém desempenhado. Passado e presente num entrelaçamento entre trabalho, diversão, cultura e arte, com os pés na história que alguns contribuem para não ser esquecida.