Mergulhar nos cenários do passado histórico do estado é uma experiência rica de emoções e de surpresas, principalmente para aquele que, por alguma razão, não tem o salutar hábito de revisitar suas raízes. Uma recente visita a Piratini propiciou partilhar prazerosamente diferentes cenas cotidianas da época da Revolução Farroupilha.
As dramatizações substituíram a narração didática linear. O enaltecimento de figuras proeminentes foi substituído por diálogos entre algumas elas, captados como que por acaso. Assim, o grupo assistiu ao encontro entre lideranças diante do Palácio onde funcionou o Governo Provisório da República Rio-Grandense 1836-1845, na antiga Rua Clara, hoje Rua Gomes Jardim. Da mesma forma, numa esquina, ouviu-se um guri distribuindo o jornal O Povo, acompanhou sua volta ao lugar onde foi impresso, para entregar ao jornalista Rossetti o dinheiro da venda. Em seguida a conversa deste com Garibaldi, diante da casa que foi gráfica e moradia de ambos.
A visão de Barbosa Lessa menino, diante daquela que foi sua casa. A beleza de sua narrativa encantou e transportou os presentes ao longo dos anos que viveu ali e para o mundo da literatura gaúcha, um dos resgates das histórias locais que enraízam e fortalecem a identidade.
A voz de figuras comuns também foi ouvida. No diálogo entre duas mulheres que, passeando na praça, expressavam seus anseios em relação ao casamento e aos temores pelos homens que iam à guerra. Outras duas mulheres diante da Camarinha, a comentar os acontecimentos locais. Falas entre escravas sobre suas lides domésticas: lavar roupa e cozinhar. Também sobre seus descansos com a saída dos donos, ou mesmo, de suas fantasias, como a de experimentar as roupas lindas da sinhá. Conversas entre os membros de uma das grandes famílias que passeava pela, hoje denominada, Travessa Manoel R. Lucas. Explicações envolvidas em folclore sobre a arquitetura e materiais de construção empregados naquele tempo.
Enfim, um pequeno mosaico de Piratini dos anos 1830 e 1840, onde não poderia faltar o Hino Rio Grandense, cantado com paixão pelos artistas da terra e pelos presentes.
A recuperação de fatos cotidianos, que chegam apenas a leitores aficcionados, tornou possível um mergulho na época, não apenas nos fatos históricos usualmente ressaltados, mas sempre policromáticos, como também com experiências prosaicas da vida comum.
À tardinha, uma surpresa. No balcão do hotel, o “jornalista Rossetti” foi quem atendeu com um sorriso, em seu trabalho cotidiano somado ao do teatro recém desempenhado. Passado e presente num entrelaçamento entre trabalho, diversão, cultura e arte, com os pés na história que alguns contribuem para não ser esquecida.