Tumor
A construção de um espigão (alô menores de trinta - espigão é um nome pejorativo para prédio muito alto!!) no fundo do meu quintal, ensejou esse desenho, que revela toda a minha boa vontade com a especulação imobiliária! Santiago
A construção de um espigão (alô menores de trinta - espigão é um nome pejorativo para prédio muito alto!!) no fundo do meu quintal, ensejou esse desenho, que revela toda a minha boa vontade com a especulação imobiliária! Santiago
...................................................................
As imagens de publicidade de empreendimentos imobiliários primam pelo egocentrismo, nada ao redor se lhes compara. Como espelho, o solipsismo de alguns construtores permite mostrar e vender a idéia de espigões como se tudo nas proximidades fosse menor, insignificante, distante ou invisível.
Ao redor da imagem de um prédio em venda, já construído ou na planta, é mostrado o que o futuro morador mais gostaria de ter ao seu dispor, um céu azul luminoso com, no máximo, alguma inofensiva nuvem branca ou um belo pôr-do-sol, verdes variados, flores, ausência de tráfego, crianças brincando, adultos sorrindo. Enfim, imagens idealizadas de um mundo organizado e tranqüilo, como todos merecem.
Da perspectiva das janelas dos apartamentos, sempre se veem construções mais baixas, entremeadas de plantas, o que permite uma visão ampla, e, às vezes, até um horizonte distante, sobre longos espaços ocupados por prédios pequenos. Imagem de cidade bem planejada, com urbanização racional, sem ocupação vertical desordenada com construções altíssimas a disputar sol e ar.
Tudo o que a construção em venda provoca é suprimido, a sombra que ela faz no entorno, o congestionamento de carros que virá, a vegetação que ali foi derrubada, enfim, o impacto ambiental e de vizinhança que ela causa. As ofertas, no entanto, são aliciadoras. Os clientes acabam cúmplices desse tipo de propaganda, pois os negócios são feitos. Se cada comprador fica satisfeito, os efeitos posteriores dessa luta autofágica parecem não criar qualquer culpa em ninguém. O futuro não interessa. O pseudo bem-estar de cada um é o que conta, parte dele à custa do isolamento de cada unidade.
Mastros do concreto, tal como são construídos na cidade, não poderiam existir, se as regras fossem as de preservação da qualidade de vida dos seus habitantes. Uma engrenagem perversa é colocada em movimento e todos acabam compactuando com uma urbanização que vai dificultando inexoravelmente a existência nas grandes cidades.
É o caso da torre de cerca de cinquenta metros de altura que está sendo construída em local onde predominam casas e prédios pequenos e onde, até alguns anos atrás, era um terreno destinado a praça pública. Houve compensação, o poder público é "incrivelmente sensível" a estas questões, a área de especial interesse cultural e ambiental, foi substituída por uma pracinha do outro lado da rua, que, por sua vez, estava destinada a uma escola municipal. Esta, consequentemente, não mais será construída. Tudo em nome do progresso e da preocupação com a comunidade.
O espigão reinará absoluto, derramando sombras no entorno, qual manto real. Azar das casas e outros edifícios menores que tiveram a “má sorte” de estar no perímetro de seu reinado.
Tudo dentro do que é legal, o plano diretor da cidade permite, não se pode emperrar a oferta de moradias, principalmente as de melhor qualidade.
Quem se importa?


