quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Reinado absoluto


Tumor

A construção de um espigão (alô menores de trinta - espigão é um nome pejorativo para prédio muito alto!!) no fundo do meu quintal, ensejou esse desenho, que revela toda a minha boa vontade com a especulação imobiliária!  Santiago

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           As imagens de publicidade de empreendimentos imobiliários primam pelo egocentrismo, nada ao redor se lhes compara. Como espelho, o solipsismo de alguns construtores permite mostrar e vender a idéia de espigões como se tudo nas proximidades fosse menor, insignificante, distante ou invisível.
            Ao redor da imagem de um prédio em venda, já construído ou na planta, é mostrado o que o futuro morador mais gostaria de ter ao seu dispor, um céu azul luminoso com, no máximo, alguma inofensiva nuvem branca ou um belo pôr-do-sol, verdes variados, flores, ausência de tráfego, crianças brincando, adultos sorrindo. Enfim, imagens idealizadas de um mundo organizado e tranqüilo, como todos merecem.
            Da perspectiva das janelas dos apartamentos, sempre se veem construções mais baixas, entremeadas de plantas, o que permite uma visão ampla, e, às vezes, até um horizonte distante, sobre longos espaços ocupados por prédios pequenos. Imagem de cidade bem planejada, com urbanização racional, sem ocupação vertical desordenada com construções altíssimas a disputar sol e ar.
            Tudo o que a construção em venda provoca é suprimido, a sombra que ela faz no entorno, o congestionamento de carros que virá, a vegetação que ali foi derrubada, enfim, o impacto ambiental e de vizinhança que ela causa. As ofertas, no entanto, são aliciadoras. Os clientes acabam cúmplices desse tipo de propaganda, pois os negócios são feitos.  Se cada comprador fica satisfeito, os efeitos posteriores dessa luta autofágica parecem não criar qualquer culpa em ninguém. O futuro não interessa. O pseudo bem-estar de cada um é o que conta, parte dele à custa do isolamento de cada unidade.
Mastros do concreto, tal como são construídos na cidade, não poderiam existir, se as regras fossem as de preservação da qualidade de vida dos seus habitantes. Uma engrenagem perversa é colocada em movimento e todos acabam compactuando com uma urbanização que vai dificultando inexoravelmente a existência nas grandes cidades.
É o caso da torre de cerca de cinquenta metros de altura que está sendo construída em local onde predominam casas e prédios pequenos e onde, até alguns anos atrás, era um terreno destinado a praça pública. Houve compensação, o poder público é "incrivelmente sensível" a estas questões, a área de especial interesse cultural e ambiental, foi substituída por uma pracinha do outro lado da rua, que, por sua vez, estava destinada a uma escola municipal. Esta, consequentemente, não mais será construída. Tudo em nome do progresso e da preocupação com a comunidade.
O espigão reinará absoluto, derramando sombras no entorno, qual manto real. Azar das casas e outros edifícios menores que tiveram a “má sorte” de estar no perímetro de seu reinado.
Tudo dentro do que é legal, o plano diretor da cidade permite, não se pode emperrar a oferta de moradias, principalmente as de melhor qualidade.
Quem se importa?

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Miragem





Um sábado de inverno, úmido e frio. As pessoas iam chegando aos poucos e se aproximando umas das outras Os cumprimentos, os abraços e os sorrisos mostravam um prévio conhecimento de si. A familiaridade com o lugar emergia da liberdade dos gestos e da desenvoltura dos movimentos. Batidas nas costas, sorrisos, beijos e abraços comedidos, no padrão de solenidade. O ponto de encontro era a calçada de uma das ruas mais badaladas da noite da cidade. Os bares estavam fechados àquela hora e o espaço à sua frente, livre para a manifestação. Autoridades da governança municipal tomavam posto para o evento. Folderes da secretaria do meio-ambiente circulavam com a apresentação de suas atividades. Pequenos grupos conversavam tranqüilos à espera dos previsíveis discursos. Não fosse o lugar, pensar-se-ia que as mulheres tinham se arrumado para uma festa: maquiagem, cabelo tratado e penteado, roupas de griffe. Homens com camisa e paletó. Pensando melhor, vestimenta corriqueira, para quem está acostumado a ter em excesso e nem se dá conta disso. Entre eles, sem saber de onde, apareceu um menino de uns oito ou nove anos, o bracinho coberto de panos de prato como um garçom. Com algumas palavras oferecia-os, abordando um e outro, em vão. A alvura do tecido contrastava com o tom cinza do ar, carente de sol, com os tons escuros das roupas de inverno dos que ali estavam e com o marrom das umedecidas pedras do chão Ele foi ignorado mesmo nos instantes em que sua oferta conseguia captar o olhar desfocado dos que interrompiam a conversa. Invisível naquele espaço em que as pessoas estavam reunidas para algo muito importante. Todos ali foram convidados a celebrar o tombamento de túneis verdes do bairro. Estavam felizes por testemunhar a vitória da comunidade na preservação de espaços que preservariam um modo de ser e de viver. Aquela gente conseguira do poder público o reconhecimento de sua vontade. O próprio prefeito e o presidente da câmara de vereadores estavam ali para congregar-se no local e para festejar em solidariedade. Era uma vitória memorável. Respeito a um direito da população, era o que todo cidadão consciente defendia. E, ali, isso estava sendo comemorado. Apenas a indiferença a qualquer outro interesse parecia deixar espaço. Nada visível perturbava o sacrossanto espírito daquele congraçamento. O menino circulou, sem incomodar ninguém, porque ninguém o escutou. Um toque no braço de alguém e o olhar pedinte de seus olhinho mal provocaram uma rápida negativa com a cabeça. As conversas continuaram. Alguns sequer se aperceberam de sua presença, ou fingiram não perceber. Constrangimento, talvez? Ele passou como brisa que não muda a temperatura do lugar. Ele não estava ali para comemorar, o que fazia marcava a distância entre o viver de uns e o seu sobreviver. Para ele, pessoas eram a possibilidade de vender algum dos panos que carregava. Elas, as pessoas conscientes, se compraziam com o que haviam conseguido. Nos panos, estampas de flores, frutas e cumprimentos para cada dia da semana, desenhavam um outro mundo. As flores dos panos nada tinham a ver com as flores das árvores dos túneis preservados. Árvores que protegiam do sol de verão, que ofereciam cores diversas de acordo com a estação do ano. O violeta, o branco, o amarelo, dos panos não lembravam as flores que tinham pintado aquelas árvores até o outono recente. Mundos tão diversos na igualdade das cores! Menino e grupo, livres para caminhar na mesma calçada, sob as mesmas árvores, mas presos a mundos tão distintos. Quais seriam os sonhos de um menino que vende panos de prato? Menino e grupo, diferenças que poderiam se entrelaçar num inexistente gesto solidário. Grupo feliz a festejar a nobre conquista do bairro e a vitória da preservação da natureza. O menino viu no grupo uma possibilidade de vender sua mercadoria. Qual miragem no deserto, o menino não conseguiu alcançá-lo, só ele enxergou as pessoas que foram desaparecendo em pouco tempo, finda a cerimônia. Sobrou-lhe a continuidade de seu caminhar no deserto úmido.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Oráculo para Sakineh



Não és a única injustiçada, monstruosamente injustiçada, mas és a que representa a todos os injustiçados. Tua fotografia é levada por tantos lugares, desenhando ondas imaginárias de lágrimas reais derramadas por olhos escondidos pelo medo e pela impotência. Não se pode deixar perder tua existência na desesperança, é preciso buscar o oráculo, aquele que as letras de teu nome encerram.

Sim, as letras sempre encerram um sentido, um clamor, um hino. São as mesmas para todos os nomes, mas as combinações são equações únicas. Essas combinações são a marca de cada um.

Teu nome começa com S e no dicionário analógico encontra-se o primeiro vocábulo S.O.S., indicação de perigo, de alarma, de sirene. As chibatadas que levaste gritaram um pedido de socorro que girou o mundo muitas vezes. O perigo continua, teus algozes bufam, porque obrigados a recuar, iam te apedrejar e não puderam fazê-lo. Muitas vozes se uniram e mantem o grito. Grito que suspende a mão que te quer tirar a vida. Indignação que exacerba o algoz. Não se sabe o tamanho da insanidade. É preciso continuar a gritar e inventar novos gritos em corrente contínua, sem cochilos.

A indignação que conquista novas vozes, está próxima de ti, com certeza a sentes de alguma forma, porque teu nome encerra tantos outros significados e predições.

O A que segue o S nos dá a coisa acrescentada, o adjunto, o agregado, o cortejo. São as assinaturas, os e-mails, os telefonemas, as vozes cúmplices, as súplicas e exigências em longas filas a açodar a besta.

Dúvidas e esperanças, combustível para continuar.

O S colado ao A nos dá a primeira sílaba de saber, o saber do mundo que não te quer mártir, te quer viva, justiça materializada a iluminar o caminho dos outros que ainda não a alcançaram.

K de kidush traz o rito, que poderia ser o da redenção pelo respeito à vida. No entanto segue-lhe o I de iadogã a encerrar o poder espiritual do clero que, naquele país onde vives, no momento é ameaça.

 Vem a seguir o N de N.B., atenção e assentimento para uma boa notícia, é o desejo  que vem com o anúncio da primavera. Colado vem o E, uma conjunção, de adição à última letra H, esta de habanera, música, linguagem dos sons que se fazem ouvir em teu favor, arte em defesa da vida que propõe um habeas corpus  invocando o imperativo, a afirmação da urgência de te deixarem ir.

Fecha-se a composição das letras. Elas desenharam uma transcendência que não depende da decisão dos homens. Eles subjugam apenas o teu corpo. Aconteça o que acontecer tua trilha não pode ser apagada.
 Escrito em 02\09\2010

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Os sons da solidão

         
  Do quarto são ouvidos os bem-te-vis, latidos de cachorro, o carro que passa pela rua, o objeto que cai no vizinho de cima, redondo, porque emite o som da circularidade, a vassoura do zelador a raspar o pátio do edifício ao lado, vozes difusas de algum lugar próximo. Da sala, no outro lado do apartamento, ouvem-se martelos e outras ferramentas que demolem as coberturas para carros do estacionamento próximo, gritos de crianças e música estridente.. Em noites de temporal, o gemido das janelas se pronuncia com intervalos que medem a fúria do vento, e os juncos uivam ao vergar-se sobre a casa no fundo do quintal à esquerda do edifício. Durante a semana, o ronco dos caminhões antecede o barulho das caçambas ao vomitar a areia no depósito do outro lado da rua, quase na esquina. De vez em quando, uma voz de barítono invade o ar e faz os ruídos se encolherem. São todos sons que fazem imaginar uma imensa e incontrolável orquestra, com os componentes a disputar a cena, substitutos à espera de uma chance, movendo-se num ilimitado anfiteatro, espaços fragmentados e mal delineados, sob a batuta de um maestro enlouquecido cuja partitura são as enfurecidas exigências dos agrupamentos urbanos. A regência luta para alcançar um efeito agradável, mas os sons teimam na sua individualidade. Às vezes, desencontrados, outras vezes, agrupados à força, entretanto, todos partilhando obrigatoriamente de uma mesma cena sem tempo para começar ou terminar. As dissonâncias prevalecem na indiferença com que cada um toca a sua parte. O som do outro é ignorado, a batuta que se agita não é vista, e um a um vai produzindo o que vai ao encontro de ouvidos saturados. Cada artista, de uma mesma troupe, fechando-se num autismo depredador. Intervalos de harmonia são marcados pela suspensão do isolamento, e momentos mágicos se produzem, quando um consegue completar os acordes do outro. Aí, justamente aí, dá-se a revelação da impossibilidade de cada um existir sem a presença do outro. São ápices da música, mas costumam ser brevíssimos, porque novamente todos voltam ao seu instrumento e à produção de seu som, na miopia e surdez das urgências cotidianas. Assim, a música desencontrada continua pelo espaço afora, num tempo infinito, com seus altos, baixos e sustenidos, entrando por todas as janelas e confirmando a solidão de cada um na proximidade dos outros.