quarta-feira, 12 de março de 2025

O mundo é uma mineira

 

Leio um livro e encontro uma frase que me faz parar como no vermelho de uma sinaleira. Ela me chama para escrever, não diretamente sobre o tema lido, mas sobre algo que foi despertado a partir daquelas palavras. A personagem fala sobre seu sentimento diante do enterro da mãe e surge-me a ideia de escrever um conto sobre a morte recente de uma amiga querida.

Depois, o pensamento pula sobre possíveis pontos de partida. Começar pela tristeza e vazio que substituíram a presença da amiga? Pelas recordações que permaneceram? Pela gratidão pelos anos de convivência? Pelo desejo de escrever sobre ela?

Os pontos de partida são os atletas à espera do sinal para iniciar a corrida. Uma ideia será a primeira. As outras não são descartadas necessariamente, disputam também espaço para serem registradas, a vencedora é o começo, mas outras que nem existiam no início juntam-se na trajetória, são aquelas enraizadas em sentimentos mais fortes, em histórias que se juntaram à sua própria história, como os nutrientes da terra que fazem germinar as flores do campo. As flores colhidas são as palavras, as frases, formam o texto que preenche linhas e laudas, como os ramos de flores juntam-se dentro de um vaso.

Flores, palavras, nutrientes, pensamentos, terra, emoções, ventos, tensões, luz, decisões em resposta ao desafio no jogo do escritor de criar uma história, uma poesia, uma narrativa, uma memória, tudo o que constrói o ser humano, ou seja, os movimentos ininterruptos constitutivos da própria maneira de viver de cada um de nós.

A escrita alavancada na palavra de outro, na página que não a própria, num livro que gostaria de ter escrito. Ler é fonte contínua de inspiração, de ligar a chave da corrente de onde brotarão as próprias ideias e palavras. No entanto, existem outras fontes, elas estão por toda a parte cutucando a sensibilidade de quem escreve. O mundo ao redor é uma mineira com inesgotáveis filões. O que acontece é que, às vezes, os olhos estão embaçados ou os sentidos anestesiados, e não os reconhecem.

O conto sobre minha amiga poderia ter um início a partir do momento em que passei de táxi pelo cruzamento com a rua onde ela morava. “Ela já não está mais aí, a rua deixou de ter importância.”

Um colar recebido no aniversário de muitos anos atrás, e encontrado na arrumação do armário, trouxe a cena de um tempo com esperanças, embora turbulento na política do país. O conto poderia iniciar ali, com contraponto do que se realizou e do que se perdeu.

Um telefonema de uma amiga comum desencadeou sentimentos ligados a um carnaval junto a grupo de amigos e alguns segredos compartilhados, um tributo à amizade de tantas décadas. Poderia ser outro começo.

Tenho que escolher o início, sem o primeiro passo não haverá história. Este é um dos momentos cruciais, a abertura de um caminho, ou caminhos. É preciso decidir. Escolhas para continuar se apresentarão ao longo da narrativa, um espectro de ideias, combinações possíveis.

Vou deixar o que escrevi em banho-maria, um tempo de espera também faz parte da escrita. Talvez escreva algo completamente diferente do que pensei até agora.

 

 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Tempo de recordar


O mês de janeiro colocou-me muito perto da morte.

Não ouvirei mais a voz de uma amiga de mais de quarenta anos e da prima com quem mais convivi na infância.  Estas perdas vêm somar-se a outras anteriores, mesmo que com sentimentos de outra cor e intensidade, a de figuras importantes da cenografia nacional, mulheres e homens das artes, do jornalismo e das ciências. Um a um estão indo, como pedras de um jogo de damas. Permanece o tabuleiro e outras disputas.

T. era sincera, amiga fiel, tomava partido de quem gostava, a neutralidade não lhe era próxima, suas falas eram afirmações, tinha certeza do que dizia, não discutia, podia-se ouvir seus pensamentos além de suas palavras, ela sempre foi transparente, mesmo ao esconder suas dores.

E. era a prima que reencontrei quarenta e sete anos depois de emigrar para o Brasil. Eu a achava delicada quando ainda éramos meninas, achava-a mais bonita do que eu nas fotos que trocávamos, quando já distantes. Ao retornar pela primeira vez à pequena cidade natal, muito elegante, e continuava mais bonita.

T. separou-se há cerca de 30 anos.

E. reencontrei-a já separada, quando retornei à Itália depois de quase cinquenta anos.

Nenhuma de nós três voltou a casar-se.

Expusemos o motivo de nossa separação, ele se encaixou como peça única de um quebra-cabeça, nossos maridos resolveram iniciar nova relação. Nenhum drama, nenhum segredo horrível, apenas a repetição conhecida no cotidiano ao redor. Merecíamos uma história marcante, não um clichê, é o pensamento que me ocorre.

Todas atingimos os oitenta anos.

Conheci T. através do marido que foi meu professor na Faculdade, quando nos mudamos do interior para P. Alegre. Foram padrinhos de um dos meus filhos. Eu admirava a inteligência dele, e contava sem reservas com a amizade dela. Ela me ajudou a cuidar do afilhado, quando precisei atender minha mãe que estava morrendo. Conheci seus temores e dificuldades dos primeiros anos da ditadura de 1964, quando foi atingida diretamente.

Eu e E. passávamos tempos uma na casa da outra, ela vivia numa cidade maior que meu pequeno comune. Foi numa das visitas a ela que vimos Branca de Neve e os Sete Anões (sem intervalos, como achava que eram os cortes nas projeções do pequeno cinema ao lado de minha casa). Fiquei fascinada pelo filme colorido, em 1948 ou 1949. Meu pai era irmão da mãe dela, uma costureira que imagino fosse habilidosa ao lembrar o vestido de primeira comunhão, confeccionado por ela, lindo, me foi emprestado, era na época pós-guerra.

            Houve um tempo em que planejamos, T. e eu, viajarmos para a Itália. Se tivesse acontecido, T. teria conhecido E. Elas não se conheceram, mas não impediu de sermos três mulheres que viveram oito décadas de história com a aceleração das mudanças difíceis de acompanhar e compreender nos últimos tempos. Vivemos proximidades afetivas, sociais e intelectuais, em países diversos. A distância física não nos separou de uma mesma visão de mundo e do mesmo desejo de uma sociedade justa e solidária, o que marcou escolhas políticas de mesma direção, aqui e lá.

            Fomos muito próximas, mesmo distantes.

            Enquanto registro um arco de lembranças, recupero o pensamento de Fernanda Montenegro quando afirmou que o difícil da velhice era ir perdendo os amigos. Ao escrever, faço-as permanecer comigo mais um pouco, enquanto vou incorporando a sua falta no tempo que me cabe.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Faíscas e escrita


     Quando me disponho a escrever no primeiro tempo da manhã – sempre foi o mais produtivo – e venho para o computador, minha mente mostra-se vazia. Branco da tela, olhos fixos, um espaço milimétrico entre ponta dos dedos e letras do teclado que retornam mudas ao meu olhar, poucos segundos, às vezes uma centelha, e os toques acontecem, se consigo recuperar sentimentos do dia anterior e gostaria de ter registrado, mas acreditei ter deixado escapar. Então as imagens surgem e se transformam em palavras.

 Isto é uma recorrência. Já pensei em usar escrita à mão para prender aquelas que chamo de faíscas do cérebro, ideias emersas por causa de uma imagem, um cheiro ou um toque de mãos. Colher o instante. Não é a mesma coisa que recuperá-las algum tempo depois, ou no dia posterior.  Muitas se perdem. Espalhar cadernos pela sala, cozinha, quarto, seria um artifício para retê-las, como faço com copos de água para me lembrar de tomá-la, porque quase nunca sinto sede. No caso das faíscas, é ter sede, mas não ter o copo de água ao alcance. A escrita não rende quando me disponho a começá-la sem ter sido movida por algum sentimento urgente que necessita mostrar-se, sair de dentro de mim, expor-se para continuar a existir. É não ter sede naquele momento.

Por outro lado, gosto da imagem de contrações que fazem surgir estas faíscas, pensamentos emersos no meio das mais diversas tarefas cotidianas, lavar pratos, fechar uma porta que range, ouvir um carro que passa pela rua, cometer lapsos nas falas, elas cortam os afazeres na corrida do dia a dia. Contrações geram nascimentos. Imagino nascimentos perdidos por não haver o seu registro. Vale agarrar o que contrações e faíscas produzem constantemente, sinal de potência, de que algo está nelas querendo se manifestar.

Lembrar a recorrência de ignorar muitos dos pensamentos ou sensações que surgem de repente, e que poderiam frutificar em escritos, me leva à fala de Pepe Mujica ao expressar seu conceito de liberdade “sou livre quando faço as coisas que gosto de fazer”. O que tem a ver liberdade com a escrita? Só posso exercer a liberdade quando posso prestar atenção às minhas necessidades e não àquelas criadas pelo modo de viver em busca interminável do último modelo de qualquer objeto que possuo, fonte de insatisfação contínua porque sempre haverá um novo modelo. Sou livre quando largo qualquer necessidade que o mundo me impõe e escrevo.

Quando consigo começar a escrever, seja lá o que for, entro num mundo que me afasta de atribulações, mesmo que as palavras falem sobre elas, porque as encaro e as uso como quero, queixo-me, xingo, amo, odeio, desabafo sem censura, estou no comando. É isto, escrever é estar no comando, pode ser um tema prazeroso ou angustiante, mas sempre será algo sobre o qual decido, ao menos o começo do caminho. Num segundo momento a própria escrita me leva a seguir, a me aventurar em caminhos desconhecidos que não sei onde vão me levar. Este é um poder que fortalece e empurra para seguir. Não é um plano, é cheio de obstáculos, mas grávido de promessas de superação. Algumas promessas podem não se concretizar, mas vale seguir e criar. Este é o sentido que dou às palavras de Pepe Mujica sobre fazer o que se gosta. Gosto não é uma questão de leveza e de satisfação superficial, mas conexão com a capacidade de fazer algo que dá sentido ao que se faz e ao estar no mundo.

Escrever é uma forma de estar enraizado no mundo, produzindo diferentes mundos.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Quando o corpo fala

 

A história começou com um resfriado sem febre, de apenas dois ou três dias.  O resfriado emendou uma tosse que me fez penar durante cerca de três semanas, resistindo a xarope, chás e antialérgico. Esta é uma recorrência ao longo da vida. Tratada devidamente por acupuntura muito tempo atrás, ela sumiu por anos e voltou a se manifestar em épocas recentes de instabilidade política. Eu não me dava conta do quanto me atingiam aquelas situações, do quanto a tristeza havia se entranhado e me paralisava. A tosse veio me dizer. De lá para cá, aprendi que alergias e a persistente tosse vêm me avisar alguma coisa que não quero ou não consigo olhar.

Nos últimos meses, a trégua vivida com a eleição de um Presidente que procura defender os interesses da população mais excluída é ameaçada, e a tosse, depois de quase um mês, transformou-se em infecção das vias respiratórias. Depois de tomar antibiótico, coisa que não fazia há tantos anos que nem lembro, veio uma virose que me derrubou em uma noite e um dia. A recuperação foi lenta, meu corpo custou a se reerguer. Tudo somado, passaram-se cerca de dois meses. A tosse persistiu, a tristeza também, e eu voltei à acupuntura, paralela ao antialérgico. Ao final de três meses, larguei o antialérgico. Continuo com a acupuntura.

Ao mesmo tempo, vivi o período trágico na cidade. A enchente devastadora, cujos danos poderiam ter sido numa escala bem menor se o poder público tivesse tratado do sistema de prevenção. Os terríveis acontecimentos povoaram meu cotidiano de uma forma muito dura ao ver as imagens de destruição pelas águas e o desespero das pessoas. Nada me atingiu fisicamente. Nada faltou na minha rua. A luz não foi cortada, a água não faltou, nem sequer a internet. No meu micro mundo, tudo continuou igual. Tudo acontecia à distância, algumas zonas poderiam ser atingidas por uma caminhada, outras longínquas, no entanto, todas próximas pelas notícias cotidianas.

A natureza mostrou sua força e respondeu aos maus tratos sofridos pela ação do homem, mas pior foi a população negar as causas e os responsáveis. Um mundo distópico foi se desenhando com o correr dos dias. Os culpados, fazendo-se de vítimas. Os donativos chegando de pessoas e organizações do país e do mundo, sendo vistos como a única fonte de ajuda. Pontes e estradas sendo reconstruídas, helicópteros salvando vidas, verbas emergenciais para as famílias, débitos municipais e estaduais sendo revistos, verbas federais para a reconstrução de estados e municípios ignoradas. E tantos outros acontecimentos foram negados. Pelo contrário, acusações mentirosas. Enfim, uma teia pegajosa de falsidades indiferente ao sofrimento de centenas de milhares de pessoas. Não adiantaram denúncias da má administração municipal e de suas responsabilidades. Durante a campanha eleitoral para prefeito e vereadores, que mostrava desde o início como as mentiras eram aceitas, uma sensação de impotência foi se instalando. Eu sem energia para qualquer atividade. O mesmo prefeito foi reeleito. Seguimos nas mãos de quem causou males à cidade, seguiremos nos mesmos rumos nos próximos quatro anos. O negativismo e as mentiras nas redes sociais venceram.  Tudo me atingiu de tal forma, que meu corpo falou. Foi outro fator que me levou aos dois meses de doença.

Paralisei junto com minha tristeza. A conversa que ouvi hoje me reavivou as razões. A entrevista com a Fernanda Torre sobre a sua atuação no filme Ainda estou aqui foi daquelas que abrem respiradouros, que ajudam a entender sentimentos adormecidos em algum canto dentro de ti, que te cutucam, mas que não consegues conversar com eles, olhar para eles e assumir sua enormidade. Ou são olhados de esguelha com medo deles. Ou é o próprio medo que lhes joga sombras. Das diferentes falas acerca de sua atuação no filme e sobre a personagem que ela representou – Eunice Paiva, esposa do Deputado Rubens Paiva –, sobre a história do terror do Estado naquela época, sobre a necessidade de continuar a falar sobre o que ocorreu, porque os responsáveis diretos foram identificados, mas não punidos, Fernanda fez a distinção entre tristeza e dor. Traduzi sua fala com minhas palavras. A tristeza é egoísta, sozinha, chora a si mesma, ela está dentro de corpo e o faz adoecer, nem sempre com uma doença grave, mas com resfriado, alergia, virose. Um adoecer em etapas. A tristeza manifesta-se na solidão, introspectiva, represa sentimentos, não leva à ação. Por isso ela adoece o corpo. Enquanto a dor olha para fora, empurra a agir diante do acontecimento que maltrata, há empatia pelo outro. O filme mostra a dor de Eunice Paiva e de seus filhos, mostra sua luta pela verdade e pela justiça durante décadas sem nunca desistir. Entendi que a diferença está na ação, na busca por caminhos para enfrentá-la apesar dos obstáculos encontrados. Seguir lutando.

Por um período, desisti. Nenhuma ação que me fizesse sentir estar lutando como sempre fiz ao longo da vida. Uma tristeza sem fim acompanhou-me ininterruptamente e me isolou. Nenhuma palavra publicada. E veio a entrevista que sacudiu meu estado de torpor.

Ainda não sei como posso agir, além do que estou conseguindo fazer. No entanto, a compreensão dos meus sentimentos implodiu a inércia. Assistir à entrevista foi tão valioso quanto uma sessão de terapia. A arte e a escuta da palavra fizeram-me voltar novamente ao auxílio da escrita.

 

 

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Gangorra

 

Balanço na gangorra de acreditar que ainda podemos enfrentar os horrores do mundo através da palavra e, em seguida, cair no desânimo de ver tantas palavras serem gritadas sem serem ouvidas. Estamos no movimento de descida na gangorra.

Lembro seguidamente de uma afirmação de Marx (ao menos é o que guardei como se fosse dele) que se a observação da realidade fosse suficiente para compreendê-la, não haveria necessidade da ciência. A ciência precisa da palavra.

No entanto, hoje, estou tão impregnada de palavras nas teorias sobre os horrores que vejo acontecer perto e longe de mim que preciso ausentar-me para respirar.

Preciso distanciar-me para poder acessar o mundo da criação, da imaginação, da liberdade de exploração de outros mundos possíveis. Outro mundo de palavras. Coisas fantásticas foram imaginadas e registradas na literatura antes que pudessem ser materializadas. Não foi assim ao longo da história? Não foi Leonardo da Vinci que imaginou protótipo de avião séculos antes que o homem pudesse construí-lo? Infelizmente ele projetou também artefatos de guerra. Não foi Júlio Verne que viajou ao fundo do mar com a sua história, muito antes que alguém acreditasse ser possível a construção do primeiro submarino?

A trégua é pequena. A literatura me traz outras palavras em Admirável Mundo Novo onde Huxley antecipou experiências para domínio de cérebro humano. E Mary Shelley que nos presenteou com a construção da figura disforme de Frankenstein? George Orwell com 1984, alertava para o perigo que rondava o mundo livre, inspirado nas sociedades dominadas pelo então “comunismo”. Tantos outros. Mais recente é o Conto de Aia de Margaret Atwood a nos mostrar um mundo terrível com suas raízes plantadas no nosso cotidiano capitalista, quando o “comunismo” já deixou de existir. E volto à crueldade que certos países exercem sobre outros, e não existem palavras e argumentos que os bloqueiem. São emitidos discursos horrorosos em sua defesa. A realidade supera qualquer narrativa literária.

A palavra cooptada e vulgarizada de tal forma a serviço de grandes conglomerados econômicos, que temos cada vez mais dificuldade em discernir a realidade dos fatos das narrativas mentirosas e distorcidas. Sempre a palavra. Sem ELA como podemos buscar caminhos para enfrentar o poder de morte que está se mostrando tão potente hoje no mundo? É ela que continua a constituir-se em núcleos de resistência dos mais diversos cantos do planeta.

No livro Ecologia de Joana Bértholo, o caminho para a subjugação do ser humano será através da mercantilização de sua fala. Numa narrativa densa sobre a construção do último patamar de uma sociedade distópica, ela nos apresenta as diferentes etapas em que o ser humano vai aceitando comprar a quantidade de palavras que vai usar, ao final, a opção estará em diferentes pacotes mensais tal como uma assinatura de celular ou de internet. Quem tem mais dinheiro pode falar mais, a requalificação eterna das classes sociais. Para tanto foi necessário eliminar todas as milhares linguagens do mundo, porque o ser humano tentou escapar utilizando outras palavras não conhecidas do sistema, mas identificadas e absorvidas paulatinamente. A diversidade foi transformada em unicidade, sem vias de escape.

Parece que o tempo que estamos vivendo oferece considerável número de sinais a dar razão a esta narrativa de Bértholo. Tomo apenas o exemplo das redes sociais. A redução das palavras em siglas, a criação e simplificação de termos, a substituição cada vez maior de palavras por emojis, o aumento da incapacidade de utilizar argumentos na defesa de um ponto de vista, a dificuldade cada vez maior de interpretar um texto, ou seja, uma disfunção cognitiva assustadora. Tudo parece ser um terreno adubado e fértil para a produção da sociedade de linguagem e pensamento único de Bértholo.

A narrativa termina com uma das personagens escolhendo uma palavra para título de um livro resgatado de um tempo quando ela era criança e sabia ter sido escrito por uma tia já falecida. Todas as palavras que ela escolhia eram muito caras, a encarregada do acervo sugeriu-lhe a palavra Ecologia por ser a mais barata, em desuso há muito tempo. Curiosa como sempre foi, a personagem busca saber o que representa aquele termo recolocado no Território de Significação Fertilizado. Lá ela encontra, dentre outros significados completamente diversos do qual conhecemos hoje, Ecologia = o Estudo dos Ecos.

Busquei ajuda para me erguer na gangorra, não encontrei. A diversidade de linguagens ainda existe.

 

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Do vermelho ao verde


Meu quase sonho foi colorido na noite que passou. Sabia estar deitada sobre meu braço esquerdo como sempre, mas só meu corpo estava lá. Bolas vermelhas pulavam sem parar em meio a outras cores que apareciam e despareciam em redemoinhos ao redor e centro de meu corpo. Aquele movimento embalava-me, dava-me prazer. Muito prazer. Falava-me alguma coisa, e eu prometia lembrar o que estava vendo e sentindo para que pudesse escrever quando acordasse. Não sei quanto durou aquele estado. Eu tinha certeza de que desta vez eu conseguiria lembrar, tal era a sensação de domínio sobre o que estava vendo e sentindo. Acordada, não soube se fora sonho, ou imaginação, naquele limiar entre dormir e acordar. Um falso domínio. Certo é lembrar-me das bolas vermelhas e que elas queriam me dizer alguma coisa. Certo é que ainda tinha resquícios daquela tremura poderosa e inominável no meu peito e na minha barriga, e a certeza da policromia que se perdeu, com o convite para lembrar e decifrar sua mensagem. Não sabia por onde começar. Ainda mais num tempo de muitos sobressaltos com os acontecimentos políticos no país. Pensei em buscar informações sobre cores e seus significados, mas temi distanciar-me daqueles momentos, certamente ligados a meu inconsciente. Estaria negando os horrores que vejo todo o dia e produzindo um mundo paralelo para sobreviver? Concentrei-me no pedaço de lembrança. Bolas vermelhas. Vermelho, é um símbolo com o qual me sinto ligada hoje em dia, principalmente político, esquerda, luta de classes, guerras, resistências, empatia pelos marginalizados, luta pela vida. Não traz prazer, antes, um desafio, um apelo a agir.  Nem sempre foi assim, raramente vesti uma camiseta vermelha, certamente nenhum vestido, nenhuma saia. Nunca me perguntei os motivos, mesmo sabendo que o vermelho dava cor ao meu rosto, como me diziam. Lembro da combinação do roxo com o cinza claro, tive um conjunto de saia e casaco na minha juventude, chamava-se tailleur, hoje não ouço mais esta palavra, hoje fala-se conjunto, ou uma denominação mais atual, e o comprimento da saia justa não mais cobria o joelho, a nova moda merecia fofocas, críticas – o joelho era uma parte menos bonita do corpo feminino – e aplausos pela liberação da mulher, conceito possível naquela época, sem antever as microssaias atuais. O verde também, em outro tailleur. Aquelas roupas me deixavam elegante. É isto, relaciono essas cores com elegância e com um futuro e sonhos a se realizarem. Hoje eu não tenho qualquer peça roxa. Mas possuo sempre roupas verdes com tonalidades diversas. Lamento o confisco que parte da sociedade fez da associação verde/amarelo. Além das roupas, o verde me é fundamental, ligado à Amazônia, à Mata Atlântica, às araucárias, às árvores decepadas na cidade nos últimos tempos, todas ameaçadas, necessidade de preservá-las, cobertura de vegetação a risco nos cinco continentes e próximo a um ponto de não retorno. Sinto necessidade de uma caminhada em meio ao frescor e cheiro de mato. Fico perguntando se meus netos terão esta experiência no futuro. Amo o rosa do ipê roxo – sei que não havia rosa no sonho –, ele se destaca no meio das matas, vejo um exemplar da minha área de serviço e temo por ele, a cada ano está com sua copa reduzida, deve ser pelo confinamento entre três edifícios, livre apenas em frente à calçada, o que me permite vê-lo. Antes havia somente pequenos sobrados naquela rua. Gosto das flores vermelhas do flamboyant em dezembro, no pátio do edifício no lado sul do meu, no meio das folhas que lhe servem de moldura verde, uma copa exuberante que vem diminuindo depois de contínuas podas radicais. Amo a pitangueira que se cobre de pequenas flores brancas e deixa a calçada atapetada quando elas caem, faz-me sentir num jardim mesmo numa rua completamente tomada por edifícios. Encanta-me olhar a buganvília que se curva com elegância sobre a grade na frente do nosso edifício, oferecendo suas flores fúcsia. Branco e fúcsia serão cores desaparecidas do meu sonho?

Em todo esse passeio por onde o olhar alcança de minhas janelas, é o verde com suas incontáveis tonalidades e brilhos que se oferece todo o dia. Não há qualquer vermelho. Alguns juncos ainda sobraram no fundo da casa lindeira, junto a um abacateiro e a uma alta e frondosa árvore, cujo nome desconheço, amaldiçoada por alguns moradores, porque foi pouso de morcegos robustos vindos de outras paragens depois da última enchente. Pequenos  aparelhos com emissão de som insuportável àqueles seres voláteis foram colocados no muro, eles sumiram e a árvore foi salva.

Junto aos outros terrenos vizinhos ainda sobram espécies variadas que receberam a companhia de palmeiras ornamentais do novo edifício, uma moda dos últimos tempos na cidade. A imagem desta ilha de vegetação próxima, no meio do bairro, faz-me agradecer viver ali. Abasteço-me diariamente destas imagens-trégua entre paredões de prédios cada vez mais altos. Poderia fazer um álbum de copas varridas e dobradas pelo vento, lavadas por chuvas calmas ou agressivas, dizendo-me como está o tempo lá fora. E nos dias de sol, reflexos de luminosidade em mosaico de folhas lembram sua proteção fiel contra o calor que se anuncia mais forte ano após ano.

Volto ao meu quase sonho e vejo como o vermelho me levou ao verde. Um passeio em livre associação. Ocorre-me que o vermelho conseguiu escapulir à censura da vigília, mas é o verde que me chamou e me acalmou.  Ainda não estou satisfeita com meu percurso, sinto que faltou alguma coisa. Esta falta talvez seja preenchida no próximo sono. Ou não. Talvez, esta falta seja aquela que me faz sonhar e escrever apesar de tudo, um caminho com a palavra escrita a me ajudar na produção de sentidos, onde mora a minha singularidade. O que diriam Freud ou Lacan? Encerrado o tempo de hoje, continuamos na próxima sessão.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Calçadas

 

Eu os via juntos nos últimos tempos e cheguei a me perguntar como se conheceram. O certo é que viviam como um casal, com seus momentos de gentileza e outros em discussões ferozes. Nunca, porém, os vi rindo. Eu continuo a passar seguidamente pelo ponto onde ficavam, um lugar próximo de onde moro. Estranhava quando não os encontrava um dia ou outro.

            A mulher estava ali desde sempre, não lembro daquele lugar sem a presença dela, era parte da rua como as árvores, o muro do clube, o poste de luz da calçada. O homem surgiu um dia e ficou com ela.  Comiam e dormiam na companhia um do outro, nem olhavam para os transeuntes. Raramente falavam com alguém. Ou melhor, raramente alguém falava com eles. Eu nunca tentei falar com eles, embora tenha pensado nisso várias vezes, eu não sabia o que lhe dizer.

            Tinham horários para chegar naquele espaço que inicialmente fora somente dela. Sempre na manhã tardia. Ficava a pergunta de onde viriam. À noite também não eram vistos por ali.

Ela, gorda, cabelos pretos, poucos dentes, voz esganiçada. Ele, também, cabelo escuro, mas branqueando, barba cortada de tempos em tempos, como os cabelos. Apesar dos trapos podia-se ver uma boa estrutura do corpo, braços bem feitos, feições regulares, até bonitas. Ela acusava uma deterioração maior nos traços e no corpo. Poderia também ter sido uma mulher atraente, se tivesse acesso ao uso de uma das estéticas do bairro em vez do trato nas ruas. Ambos, com pele clara sob as camadas de sujeira, exalavam um cheiro denso e insuportável que se derramava ao redor deles. Talvez, por isso, raros eram os que se acercavam ou cruzavam o próprio olhar com os pares de olhos que riscavam o espaço sem destino, quando cessavam as conversas ou brigas. Os pedestres costumavam se afastar para a beirada da calçada ou junto ao meio fio, quando se aproximavam de onde eles estavam. Eu também, apesar de sentir culpa por contrariar minha empatia pelos desafortunados das ruas e conhecer o que produz sua existência.

Por um breve tempo não foram vistos.

Um dia, ele voltou, mas não mais no mesmo canto com ela. Junto às grades que ladeavam o espaço ajardinado em frente ao edifício, grande quantidade de trouxas, restos de tecidos, plásticos e objetos que saíam de um carrinho de supermercado e se espalhavam pela calçada. Ele no meio, desgrenhado e imundo, deitado sobre um pedaço de colchão e coberto por trapos. Ao fundo do espaço gradeado, na fachada do prédio os dizeres Banco 24 Horas.

Ela retornou ao lugar de sempre no mesmo dia. Sentada, pernas encolhidas e cobertas por saia longa e de cor próxima ao cinza, apenas um dos braços cobertos pela blusa rota. Voltou a ficar ali, junto ao muro que lhe servia de encosto. Ela e suas trouxas encardidas, com o olhar vazio e a boca desdentada, enquanto carros e pedestres passavam à sua frente. Acima de sua cabeça, palavras que se sobressaíam a desenhos indecifráveis e esmaecidos: Jesus te libertará.

Depois de algum tempo, ambos desapareceram. Quando passo por ali sempre lembro deles e de minhas contradições.

 

Observação: Esta crônica incorporou sugestões do grupo de escrita sob a coordenação de Caroline Joanello e Júlia Dantas nas quintas feiras pela manhã.