segunda-feira, 2 de março de 2026

Stella Stellina

 

Tomo café enquanto vejo as notícias que seleciono no youtube. É sábado, e não tenho compromissos, uma boa manhã para escrever, fui dormir pensando nisso.

Tempo de rever o passado, fazer um balanço, ser grata à caminhada que me trouxe até aqui. Grata pelos filhos e netos. Tempo de desacelerar, de espera.

Primeira notícia que aparece no meu celular “os EUA atacam o Irã”.

Perdi as esperanças cultivadas ao longo da vida, mas ando procurando-as com teimosia, com obsessão, em toda forma de resistência que existe para que o mundo não se autodestrua. E as notícias que me chegam são um choque.

Antes de dormir eu havia escutado uma linda entrevista de Ermal Meta sobre a música Stella Stellina em Sanremo. Escutei-a não só com os ouvidos, mas principalmente para o coração. O cantor disse que era uma música distópica, porque convida a mover o corpo, mas a letra fala do horror do assassinato das crianças em Gaza. Dançar sobre a tragédia seria impossível. Ele tinha optado por usar sua arte para falar do que tinha que ser falado. Suas palavras foram uma carícia.

Este ano eu decidi não assistir Sanremo como fiz nos últimos anos. Cansei-me das futilidades, da censura imposta aos discursos políticos, ao cinismo que o atual governo italiano impõe à RAI, que é instrumento do estado e transmite o festival. Desde o início deste governo, diferentes profissionais foram demitidos, programas foram reestruturados e censura foi imposta a qualquer discurso de esquerda. O jornalismo foi o mais decepado. Sanremo não poderia escapar a esta poda.

Eis que escuto Stella Stellina no youtube. E a entrevista com o autor. Ajudou-me a encontrar o sono e dormir razoavelmente bem. Ele furou o bloqueio com sua arte.

Mas a manhã não me poupou. Como viver o cotidiano, sabendo que os EUA estão lançando bombas sobre mais um país? Não basta o que está acontecendo na região, para falar somente numa parte do mundo? Genocídio na Palestina, começado há setenta anos. Líbano, Iraque, Cisjordânia, Síria. EUA e Israel lançando o horror ao redor no Oriente Médio, e o mundo cúmplice, não apenas indiferente. A parte do mundo horrorizada está impotente.  

Nunca imaginei ser testemunha de um tempo tão terrível. No século passado demonizaram a URSS, mas boa parte da humanidade tinha esperança de um mundo melhor, restava-nos a promessa do bem viver ocidental. Vivemos na obscuridade, a União Soviética foi uma barreira ao imperialismo americano, apesar de seus fracassos internos. Os EUA nos venderam a ilusão de um bem estar que nunca chegou para a maioria do ocidente, mas nos ofereceram guerras intermináveis.

 

Segunda-feira. A guerra que EUA e Israel começaram contra o Irã recrudesceu. Aqueles países sempre usaram a morte para continuar a existir.

Leio as notícias rapidamente, porque meu coração disparou. Passo para a entrevista do filósofo Franco Berardi, nem ele me poupa, fala sobre a juventude que desistiu e vive a solidão: “Agora, a verdadeira novidade é que a nova geração está consciente do fato de que o genocídio é a regra do mundo em que vivemos hoje”.  Diante de todas as guerras que estão em curso e da cooptação da mente da geração que nasceu no mundo digital e não conhece outra forma de ser, Berardi não vê possibilidade de esperança para a humanidade: “E o que compreendo é isto: a espécie humana não sobreviverá a este século. Temos de criar as condições para a alegria e a solidariedade durante a agonia.

Apesar de tudo, volto a Stella, Stellina e as todas as vozes que dizem ao mundo que ainda há tempo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Meu cotidiano diante do belicismo de Trump

 

Os EUA atacaram a Venezuela e sequestraram Maduro.
O que significa este fato para mim individualmente? Se eu vivesse parcialmente informada, poderia espantar-me com a agressão perpetrada contra um país sul-americano; ou, ficaria indignada, porque não compactuo com a arrogância dos governos norte-americanos?; ou ficaria perplexa, sem entender tanta ousadia por parte daquele país?; ou, ficaria chocada com a audácia de Trump, considerado um maluco por parte de alguns noticiários?; ou aplaudiria?
Só quem vive em bolhas de fakenews pode festejar.
Acompanho o que acontece no mundo cada vez mais assiduamente. Conheço as invasões realizadas pelos EUA ao longo da história e as consequências catastróficas para os países onde ocorreram. Todas elas por motivos diferentes dos invocados, ou seja, por interesses ocultos (nem tanto), econômicos e estratégicos deles próprios.
Não me cabe analisar a situação para a qual há jornalistas e pesquisadores excelentes e com conhecimentos para isso. A minha indignação e temores são de uma cidadã comum que está atenta aos acontecimentos do mundo, que viveu a história desde a segunda guerra mundial, que sonhou com um mundo melhor, quando havia narrativas para esta utopia no século passado. Infelizmente, o século atual mostrou-se desde o início um desastre e, ano após ano, as ameaças à própria sobrevivência da humanidade aumentam e não nos deixam viver o cotidiano com tranquilidade.
Tenho consciência de que, no Brasil, fomos salvos com a eleição de Lula. Éramos governados por um bando que promoveu o saque do país, e nem quis imaginar o que teria acontecido se o governo anterior tivesse continuado. A sensação é de viver num oásis, apesar de todas as ameaças e perigos que continuam ativos, um deles dentro das nossas trincheiras e se mostra através do regozijo de políticos brasileiros.
Neste contexto, vejo os perigos desta ação dos EUA representa para o meu cotidiano, como o veem todos os brasileiros que acompanham os acontecimentos dentro do nosso país. O que aconteceu na Venezuela não é problema apenas daquele país. Porque sempre tivemos intervenções americanas, que reverberaram no cotidiano através do estrangulamento dos nossos movimentos socias e da nossa imprensa com posteriores mudanças nas nossas diretrizes educacionais, na nossa cultura e na construção de nosso imaginário, ou seja, na produção de nossa subjetividade. Tudo através de ações gradativas e ignoradas pelo grande público. Um saldo, sempre atualizado, sinalizado com a reverência que boa parte da população tem pela língua, pela cultura e pelo modo de viver daquele país, a ponto de se sentir inferior e desprezar o lugar onde vive. Isto chama-se colonialismo, do qual nunca nos libertamos.
Acompanho analistas com diferentes formas de ver os acontecimentos, eles são unânimes em sentir o perigo para o Brasil neste ano de eleições. Não há limites para os EUA com Trump, não há leis internacionais que eles respeitem, mostraram que estão pondo em prática o plano de recompor seu império nas Américas. O Brasil e as posições do Governo Lula são um empecilho, e eles estão se mostrando vorazes sem qualquer barreira que os limite. Um dos analistas mais bem informados e lúcidos reconheceu que não foi capaz de prever a ousadia de um sequestro do presidente venezuelano.
O ataque à Venezuela reforça a certeza e o tom de um cotidiano muito conturbado com guerra de informações e todas as consequências. Meus votos são de que algum acontecimento esteja em gestação e possa mudar os rumos previstos neste início de ano.