quarta-feira, 12 de março de 2025

O mundo é uma mineira

 

Leio um livro e encontro uma frase que me faz parar como no vermelho de uma sinaleira. Ela me chama para escrever, não diretamente sobre o tema lido, mas sobre algo que foi despertado a partir daquelas palavras. A personagem fala sobre seu sentimento diante do enterro da mãe e surge-me a ideia de escrever um conto sobre a morte recente de uma amiga querida.

Depois, o pensamento pula sobre possíveis pontos de partida. Começar pela tristeza e vazio que substituíram a presença da amiga? Pelas recordações que permaneceram? Pela gratidão pelos anos de convivência? Pelo desejo de escrever sobre ela?

Os pontos de partida são os atletas à espera do sinal para iniciar a corrida. Uma ideia será a primeira. As outras não são descartadas necessariamente, disputam também espaço para serem registradas, a vencedora é o começo, mas outras que nem existiam no início juntam-se na trajetória, são aquelas enraizadas em sentimentos mais fortes, em histórias que se juntaram à sua própria história, como os nutrientes da terra que fazem germinar as flores do campo. As flores colhidas são as palavras, as frases, formam o texto que preenche linhas e laudas, como os ramos de flores juntam-se dentro de um vaso.

Flores, palavras, nutrientes, pensamentos, terra, emoções, ventos, tensões, luz, decisões em resposta ao desafio no jogo do escritor de criar uma história, uma poesia, uma narrativa, uma memória, tudo o que constrói o ser humano, ou seja, os movimentos ininterruptos constitutivos da própria maneira de viver de cada um de nós.

A escrita alavancada na palavra de outro, na página que não a própria, num livro que gostaria de ter escrito. Ler é fonte contínua de inspiração, de ligar a chave da corrente de onde brotarão as próprias ideias e palavras. No entanto, existem outras fontes, elas estão por toda a parte cutucando a sensibilidade de quem escreve. O mundo ao redor é uma mineira com inesgotáveis filões. O que acontece é que, às vezes, os olhos estão embaçados ou os sentidos anestesiados, e não os reconhecem.

O conto sobre minha amiga poderia ter um início a partir do momento em que passei de táxi pelo cruzamento com a rua onde ela morava. “Ela já não está mais aí, a rua deixou de ter importância.”

Um colar recebido no aniversário de muitos anos atrás, e encontrado na arrumação do armário, trouxe a cena de um tempo com esperanças, embora turbulento na política do país. O conto poderia iniciar ali, com contraponto do que se realizou e do que se perdeu.

Um telefonema de uma amiga comum desencadeou sentimentos ligados a um carnaval junto a grupo de amigos e alguns segredos compartilhados, um tributo à amizade de tantas décadas. Poderia ser outro começo.

Tenho que escolher o início, sem o primeiro passo não haverá história. Este é um dos momentos cruciais, a abertura de um caminho, ou caminhos. É preciso decidir. Escolhas para continuar se apresentarão ao longo da narrativa, um espectro de ideias, combinações possíveis.

Vou deixar o que escrevi em banho-maria, um tempo de espera também faz parte da escrita. Talvez escreva algo completamente diferente do que pensei até agora.