segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Faíscas e escrita


     Quando me disponho a escrever no primeiro tempo da manhã – sempre foi o mais produtivo – e venho para o computador, minha mente mostra-se vazia. Branco da tela, olhos fixos, um espaço milimétrico entre ponta dos dedos e letras do teclado que retornam mudas ao meu olhar, poucos segundos, às vezes uma centelha, e os toques acontecem, se consigo recuperar sentimentos do dia anterior e gostaria de ter registrado, mas acreditei ter deixado escapar. Então as imagens surgem e se transformam em palavras.

 Isto é uma recorrência. Já pensei em usar escrita à mão para prender aquelas que chamo de faíscas do cérebro, ideias emersas por causa de uma imagem, um cheiro ou um toque de mãos. Colher o instante. Não é a mesma coisa que recuperá-las algum tempo depois, ou no dia posterior.  Muitas se perdem. Espalhar cadernos pela sala, cozinha, quarto, seria um artifício para retê-las, como faço com copos de água para me lembrar de tomá-la, porque quase nunca sinto sede. No caso das faíscas, é ter sede, mas não ter o copo de água ao alcance. A escrita não rende quando me disponho a começá-la sem ter sido movida por algum sentimento urgente que necessita mostrar-se, sair de dentro de mim, expor-se para continuar a existir. É não ter sede naquele momento.

Por outro lado, gosto da imagem de contrações que fazem surgir estas faíscas, pensamentos emersos no meio das mais diversas tarefas cotidianas, lavar pratos, fechar uma porta que range, ouvir um carro que passa pela rua, cometer lapsos nas falas, elas cortam os afazeres na corrida do dia a dia. Contrações geram nascimentos. Imagino nascimentos perdidos por não haver o seu registro. Vale agarrar o que contrações e faíscas produzem constantemente, sinal de potência, de que algo está nelas querendo se manifestar.

Lembrar a recorrência de ignorar muitos dos pensamentos ou sensações que surgem de repente, e que poderiam frutificar em escritos, me leva à fala de Pepe Mujica ao expressar seu conceito de liberdade “sou livre quando faço as coisas que gosto de fazer”. O que tem a ver liberdade com a escrita? Só posso exercer a liberdade quando posso prestar atenção às minhas necessidades e não àquelas criadas pelo modo de viver em busca interminável do último modelo de qualquer objeto que possuo, fonte de insatisfação contínua porque sempre haverá um novo modelo. Sou livre quando largo qualquer necessidade que o mundo me impõe e escrevo.

Quando consigo começar a escrever, seja lá o que for, entro num mundo que me afasta de atribulações, mesmo que as palavras falem sobre elas, porque as encaro e as uso como quero, queixo-me, xingo, amo, odeio, desabafo sem censura, estou no comando. É isto, escrever é estar no comando, pode ser um tema prazeroso ou angustiante, mas sempre será algo sobre o qual decido, ao menos o começo do caminho. Num segundo momento a própria escrita me leva a seguir, a me aventurar em caminhos desconhecidos que não sei onde vão me levar. Este é um poder que fortalece e empurra para seguir. Não é um plano, é cheio de obstáculos, mas grávido de promessas de superação. Algumas promessas podem não se concretizar, mas vale seguir e criar. Este é o sentido que dou às palavras de Pepe Mujica sobre fazer o que se gosta. Gosto não é uma questão de leveza e de satisfação superficial, mas conexão com a capacidade de fazer algo que dá sentido ao que se faz e ao estar no mundo.

Escrever é uma forma de estar enraizado no mundo, produzindo diferentes mundos.

5 comentários:

  1. Este texto é uma descrição poética do ato de criar!
    Magnífica homenagem à linguagem!

    Que as centelhas brotem às dúzias, ao alcance da tua imaginação!

    Dante

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  2. E está fazendo efeito essa reflexão sobre a escrita! Pelo jeito, belos textos ainda virão, a dizer sobre esse desejo humano de se expressar com palavras.

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  3. Como sempre, texto lindo, profundo e gostoso de ler...parabéns!

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  4. Em meio às escritas rasas do nosso dia a dia com a utilização dos meios digitais, um texto elaborado como o seu chama a atenção para onde estamos indo em busca das soluções diárias. Continue, faz bem a todos.

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  5. ACABEI DE ENCONTRAR A RESPOSTA PARA O " ATO" DE ESCREVER.....BELA REFLEXÃO!! ESCRITA - MEIO DE EXPRESSÃO!! PARABÉNS 🎊!!!

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