A história começou
com um resfriado sem febre, de apenas dois ou três dias. O resfriado emendou uma tosse que me fez
penar durante cerca de três semanas, resistindo a xarope, chás e antialérgico.
Esta é uma recorrência ao longo da vida. Tratada devidamente por acupuntura
muito tempo atrás, ela sumiu por anos e voltou a se manifestar em épocas
recentes de instabilidade política. Eu não me dava conta do quanto me atingiam
aquelas situações, do quanto a tristeza havia se entranhado e me paralisava. A
tosse veio me dizer. De lá para cá, aprendi que alergias e a persistente tosse
vêm me avisar alguma coisa que não quero ou não consigo olhar.
Nos últimos meses,
a trégua vivida com a eleição de um Presidente que procura defender os interesses
da população mais excluída é ameaçada, e a tosse, depois de quase um mês, transformou-se
em infecção das vias respiratórias. Depois de tomar antibiótico, coisa que não
fazia há tantos anos que nem lembro, veio uma virose que me derrubou em uma
noite e um dia. A recuperação foi lenta, meu corpo custou a se reerguer. Tudo
somado, passaram-se cerca de dois meses. A tosse persistiu, a tristeza também,
e eu voltei à acupuntura, paralela ao antialérgico. Ao final de três meses,
larguei o antialérgico. Continuo com a acupuntura.
Ao mesmo tempo, vivi
o período trágico na cidade. A enchente devastadora, cujos danos poderiam ter
sido numa escala bem menor se o poder público tivesse tratado do sistema de
prevenção. Os terríveis acontecimentos povoaram meu cotidiano de uma forma muito
dura ao ver as imagens de destruição pelas águas e o desespero das pessoas.
Nada me atingiu fisicamente. Nada faltou na minha rua. A luz não foi cortada, a
água não faltou, nem sequer a internet. No meu micro mundo, tudo continuou
igual. Tudo acontecia à distância, algumas zonas poderiam ser atingidas por uma
caminhada, outras longínquas, no entanto, todas próximas pelas notícias
cotidianas.
A natureza mostrou
sua força e respondeu aos maus tratos sofridos pela ação do homem, mas pior foi
a população negar as causas e os responsáveis. Um mundo distópico foi se
desenhando com o correr dos dias. Os culpados, fazendo-se de vítimas. Os
donativos chegando de pessoas e organizações do país e do mundo, sendo vistos
como a única fonte de ajuda. Pontes e estradas sendo reconstruídas,
helicópteros salvando vidas, verbas emergenciais para as famílias, débitos
municipais e estaduais sendo revistos, verbas federais para a reconstrução de
estados e municípios ignoradas. E tantos outros acontecimentos foram negados.
Pelo contrário, acusações mentirosas. Enfim, uma teia pegajosa de falsidades indiferente ao
sofrimento de centenas de milhares de pessoas. Não adiantaram denúncias da má
administração municipal e de suas responsabilidades. Durante a campanha
eleitoral para prefeito e vereadores, que mostrava desde o início como as
mentiras eram aceitas, uma sensação de impotência foi se instalando. Eu sem
energia para qualquer atividade. O mesmo prefeito foi reeleito. Seguimos nas
mãos de quem causou males à cidade, seguiremos nos mesmos rumos nos próximos
quatro anos. O negativismo e as mentiras nas redes sociais venceram. Tudo me atingiu de tal forma, que meu corpo
falou. Foi outro fator que me levou aos dois meses de doença.
Paralisei junto
com minha tristeza. A conversa que ouvi hoje me reavivou as razões. A
entrevista com a Fernanda Torre sobre a sua atuação no filme Ainda estou
aqui foi daquelas que abrem respiradouros, que ajudam a entender
sentimentos adormecidos em algum canto dentro de ti, que te cutucam, mas que
não consegues conversar com eles, olhar para eles e assumir sua enormidade. Ou
são olhados de esguelha com medo deles. Ou é o próprio medo que lhes joga
sombras. Das diferentes falas acerca de sua atuação no filme e sobre a
personagem que ela representou – Eunice Paiva, esposa do Deputado Rubens Paiva
–, sobre a história do terror do Estado naquela época, sobre a necessidade de
continuar a falar sobre o que ocorreu, porque os responsáveis diretos foram
identificados, mas não punidos, Fernanda fez a distinção entre tristeza e dor.
Traduzi sua fala com minhas palavras. A tristeza é egoísta, sozinha, chora a si
mesma, ela está dentro de corpo e o faz adoecer, nem sempre com uma doença
grave, mas com resfriado, alergia, virose. Um adoecer em etapas. A tristeza
manifesta-se na solidão, introspectiva, represa sentimentos, não leva à ação.
Por isso ela adoece o corpo. Enquanto a dor olha para fora, empurra a agir
diante do acontecimento que maltrata, há empatia pelo outro. O filme mostra a
dor de Eunice Paiva e de seus filhos, mostra sua luta pela verdade e pela
justiça durante décadas sem nunca desistir. Entendi que a diferença está na
ação, na busca por caminhos para enfrentá-la apesar dos obstáculos encontrados.
Seguir lutando.
Por um período,
desisti. Nenhuma ação que me fizesse sentir estar lutando como sempre fiz ao
longo da vida. Uma tristeza sem fim acompanhou-me ininterruptamente e me isolou.
Nenhuma palavra publicada. E veio a entrevista que sacudiu meu estado de
torpor.
Ainda não sei como
posso agir, além do que estou conseguindo fazer. No entanto, a compreensão dos
meus sentimentos implodiu a inércia. Assistir à entrevista foi tão valioso
quanto uma sessão de terapia. A arte e a escuta da palavra fizeram-me voltar
novamente ao auxílio da escrita.
acompanhei de perto tua profunda tristeza. E sei como foi difícil. É muito revoltante ver quando tudo desmorona literal ou metaforicamente. E constatar que o que salva sempre pode ser a palavra, a arte, da um impulso à Vida, trazendo energias de volta. Tua emocionante crônica relata a distopia permanente a pairar sobre o mundo há anos e que parece sempre crescer. Mas enquanto pudermos falar poderemos agir e pode haver a cura. Parabens, Rosa. Mais uma vez, brilham tuas palavras sempre tão certeiras.
ResponderExcluirAna Maria
Concordo contigo Ana.
ResponderExcluirQue s força esteja contigo Rosa!
ResponderExcluirMagnífico depoimento e motivacional - vou procurar a entrevista da Fernanda para assistir. São estes "remédios" que vão nos levar adiante!
Dante
Bravo, Rosa! Me enxerguei nas tuas palavras. Aliás, acho que deste voz à muitos sons engasgado e presos na garganta. A tristeza derruba, a dor faz agir - que bom te ler, talvez haja uma esperança acenando por aí. Novamente, Bravo!!!
ResponderExcluirQue bom poder identificar a origem de nossas doenças e paralisias! Doloroso, mas fundamental. Ter voltado à escrita já é estar na batalha, já é luta e resistência!
ResponderExcluirObrigada por compartilhar! Aprendendo sempre contigo!
Bonita busca por discernimento, Maria Rosa. O corpo, morada, é para mim o veículo de relação com o interior e o exterior de nós mesmos. Simultaneamente individual e coletivo. Sintomas, também os percebo assim, são indicadores de estados integrados mente-corpo: podem nos adoecer ou nos fazer agir a cura. Acho fantástica essa tua apropriação dos termos da Fernanda Torres - tristeza e dor -, a partir da vida de Eunice Paiva. Ela fez da dor uma razão coletiva, é verdade. Consigo perceber a lógica da pulsão de vida. Admirável. Como as Mães da Praça de Maio. Essa é uma perspectiva que faz sentido e dá sentido à vida. Mas confesso a você, muito aqui entre nós, que pessoalmente não tenho mais forças. Neste momento histórico, eu, finalmente, não sei. Meu todo esforço vai para tentar oferecer a mim mesma um pouco de compreensão.
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